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Entenda o conflito
Terça, 15 de abril de 2003, 21h24 
Análise: ação no Iraque marca novo tipo de guerra
 
Jonathan Marcus para BBC Brasil
 
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"Esqueça a última Guerra do Golfo", me disse um comandante britânico em março. "Esqueça tudo o que você leu nos livros de história sobre o combate moderno", continuou. "Vai ser diferente." E foi uma guerra completamente diferente. Não foi exatamente a guerra de "choque e intimidação" que os EUA tinham prometido semanas antes do confronto.

Isso aconteceu em parte porque os britânicos convenceram os americanos a reduzir seu poder de destruição, talvez sabendo que o regime iraquiano e o seu Exército eram mais fracos do que a maioria imaginava. Mas a verdade é que ninguém sabia como a máquina de guerra iraquiana funcionaria. Pelo menos no papel, parecia uma força respeitável. A única coisa de que ninguém tinha dúvidas é que ela seria derrotada.

Quanto tempo?

Mas quanto tempo levaria? Quanto tempo resistiriam as principais unidades de combate do Iraque, como a Guarda Republicana? E qual dano ela causaria nas forças britânicas e americanas? Agora já sabemos algumas das respostas. As forças iraquianas eram uma força de fachada, tendo sido enfraquecidas por anos de sanções.

O regime a que essas forças serviam também era de fachada. A maioria dos iraquianos não derramou lágrimas ao ver esse regime desaparecer. Mas, mesmo para os seus próprios padrões, as forças iraquianas suportaram um combate pesado.

As formações de combate do Iraque foram levadas à batalha em pequenas partes, nada parecido com a "defesa em profundidade" observada na Guerra do Golfo (1991), que seguia o estilo soviético. A velocidade e o ritmo da guerra impostos pelos americanos também dificultaram as tentativas de os iraquianos montarem uma resistência organizada.

Ainda não sabemos quem morreu no primeiro ataque a um centro de comando iraquiano no dia 19 de março, realizado por caças americanos F-117. Mas esse ataque determinou o cenário de toda a campanha militar. O comando militar iraquiano perdeu o controle no começo da guerra e nunca o reencontrou.

Foi resultado da capacidade da força aérea americana de atingir com precisão centros de comando e de comunicações em todos os níveis. O sistema nervoso que unia todas as forças iraquianas simplesmente se desintegrou. O avanço americano em Bagdá, especialmente a velocidade do seu movimento e o complexo apoio logístico, ainda será estudado em detalhe em faculdades de todo o mundo nos próximos anos.

Desintegração interna

Mesmo assim, ele aconteceu com uma resistência muito limitada. Algumas unidades das forças iraquianas foram destruídas, mas muitas mais simplesmente se desfizeram por motivos internos. Seus soldados fugiram e abandonaram seu equipamento. Uma grande parte das forças regulares do Iraque não chegou nem a entrar em combate.

Mesmo a estratégia de "guerrilha urbana" de Saddam Hussein, que pretendia deixar forças americanas e britânicas entrarem nas cidades para serem então atacadas por combatentes que não faziam parte das Forças Armadas do país, não mudou em nada o rumo da guerra. Os americanos disseram, desde o começo da guerra, que ela seguiu à risca os seus planos. E, em termos gerais, eles não estão mentindo.

Houve um momento de hesitação, no começo da campanha militar, quando uma combinação de tempestades de areia, a resistência de combatentes não alinhados com as Forças Armadas e uma aparente pausa na ação dos americanos causou uma rebelião de generais da reserva americanos contra o secretário da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld.

Não houve uma pausa real, e as operações dos EUA nunca deixaram de acontecer. A resistência de combatentes iraquianos de fora das Forças Armadas foi maior do que a esperada, mas nada que pudesse mudar o desfecho da guerra. Rumsfeld viu essa guerra como uma vitrine para as novas Forças Armadas dos EUA: uma força dominada pela Força Aérea e por armas de precisão, abastecida por um novo sistema de apuração e distribuição de informações que permite que forças menos numerosas em terra derrotem um Exército mais numeroso.

O papel central dos fuzileiros navais nessa campanha foi instrutivo. Eles formam uma força relativamente pequena, mas com forte mobilidade, que pode entrar numa região em pouco tempo. Os generais da reserva achavam que os EUA tinham poucos soldados em terra. Nos combates, os acontecimentos definitivamente provaram o contrário.

No entanto, mais força humana será necessária para garantir a estabilidade e a manutenção da paz. Mas não se deve fazer nenhum julgamento apressado. Dentro de semanas, pode ser que haja mais ordem do que muitos imaginam hoje.

Lições

Há outras lições a tomar dessa guerra. As armas de alta precisão não impediram que uma grande proporção de americanos e britânicos tenha sido morta por seus próprios colegas, o "fogo amigo". Isso cria uma nova necessidade de sistemas de identificação em combate, algo que poderia ter sido criado depois da Guerra do Golfo, mas não foi. Agora, a necessidade é mais do que urgente.

Os sistemas de espionagem também devem melhorar muito. A informação é essencial na guerra moderna. Não dá para considerar as armas precisas como uma verdadeira revolução se não há informação 100% garantida sobre o que está sendo alvejado.

Se a espionagem americana foi boa o suficiente e se os alvos eram corretos, nós ainda não sabemos. Quem está sob os escombros dos centros de comando que foram atingidos? Esqueça "choque e intimidação", mas se lembre de "guerra baseada em efeitos".

Foi a primeira vez que foi usado o poderio militar em vários níveis ¿ ataques militares precisos, guerra de informações, propaganda política ¿, não apenas para destruir outras formações militares, mas para conseguir um objetivo muito preciso: a desintegração do regime iraquiano. Isso aconteceu em menos de um mês. O que importa agora é saber em quanto tempo os iraquianos vão conseguir estabelecer como será o seu destino.
 

BBC Brasil

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