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Guerra no Iraque
Terça, 27 de maio de 2003, 11h05 
Xiitas impõem nova moral em Basra
 
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O comerciante Naji Meyou costumava ganhar um bom dinheiro vendendo bebidas alcoólicas na época em que os bares, cassinos, cabarés e bordéis de Basra eram famosos em todo o Oriente Médio. Agora, ele teme que seus negócios tirem sua vida. "Não me importo em vender nada", disse o comerciante cristão de 56 anos, ao beber um copo de arak na janela de sua casa. "Não quero ser assassinado."

A militância islâmica está ganhando força no sul do Iraque. Clérigos xiitas, que durante muito tempo foram reprimidos por Saddam Hussein, formam agora a força política mais poderosa da região. Muitos querem importar as duras regras morais do Irã.

Moradores de Basra, segunda maior cidade do Iraque, receberam mensagens para evitar o álcool e os jogos, com ameaças de severas punições. Dois vendedores de álcool cristãos foram mortos a tiros em suas lojas por homens armados neste mês. Meyou não quer ser o próximo.

Durante a batalha de Basra, suas duas lojas foram incendiadas por saqueadores. Dois dedos de seu pé esquerdo foram arrancados quando um morteiro atingiu o prédio onde estava escondido. Agora, ele passa os dias na cama, sob um crucifixo preso na parede, imaginando o que pode acontecer com sua família. "Tenho três filhos e uma filha", disse, esfregando a testa. "Nenhum de nós trabalha há meses. Não podemos continuar assim, ou ficaremos pobres."

Em seus dias de glória nos anos 1960 e 1970, Basra era uma cidade de comércio cosmopolita e parque de diversões para kuwaitianos e sauditas ricos que se divertiam em suas casas noturnas. Mas a cidade sofreu muito durante a guerra Irã-Iraque nos anos 1980, que destruiu seu turismo. A Guerra do Golfo, em 1991, apressou a pobreza, o isolamento e a obscuridade da cidade. Suas casas noturnas foram fechadas faz tempo.

Meyou disse que Saddam fechou os últimos bares de Basra em 1994, mas empresários cristãos ainda podiam vender álcool para consumo privado. Agora, ninguém se arrisca. O aiatolá Mohammad Baqir Al-Hakim, chefe do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, disse nesta semana que seus seguidores não atacarão comerciantes de bebidas alcoólicas. "Não acho que qualquer grupo religioso fará ações deste tipo", disse o poderoso clérigo xiita. "Há um monte de gangues por aí e remanescentes do regime que estão realizando ações para desestabilizar a situação de segurança."

Os moradores de Basra, porém, não se arriscam. Os cinemas da cidade receberam mensagens para não exibir filmes com conteúdo "romântico". As mulheres da cidade usam vestidos pretos e cobrem a cabeça em público, em contraste com as saias curtas das décadas passadas. "Antigamente, você poderia fazer o que quisesse em Basra", disse Meyou. "Era chamada a Veneza do Oriente Médio. É um lugar diferente agora e não me sinto mais em casa aqui."
 

Reuters

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