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Os xiitas iraquianos, que invadiam esta terça-feira a cidade santa de Karbala para festejar sua recuperada liberdade de culto, formam hoje uma comunidade não-monolítica, majoritária e desejosa de afirmar seu peso político após vários anos de opressão por parte do deposto regime de Saddam Hussein.
Os xiitas constituem mais da metade da população iraquiana (cerca de 55% segundo as estimativas, com a falta de estatísticas), mas seu peso político era ridículo, já que os postos chaves estavam reservados, salvo raras exceções, ao clã sunita dos Takriti, do qual provinha Saddam Hussein. Até o momento em que a cidade iraniana de Qom recuperou a fama, depois de 1920, Najaf (ao sul de Bagdá) era o centro xiita de estudos e teologia mais importante.
O Iraque ocupa um lugar considerável no xiismo, já que os acontecimentos fundadores deste ramo da fé muçulmana se desenrolaram no território desse país, onde estão enterrados oito de seus doze irmãos. Entre eles se destacam Ali, sobrinho e genro do Profeta, o primeiro imã do xiismo, cujo mausoléu está em Najaf, e Hussein, filho de Ali e neto do Profeta, terceiro imã, enterrado em Karbala.
Os xiitas, principalmente estabelecidos nas regiões compreendidas entre Bagdá e o sul, ocuparam durante muito tempo um lugar preponderante no comércio, devido aos principais lugares de peregrinação xiitas e a sua presença em Basra, principal porto do Iraque. As nacionalizações realizadas pelo Partido Baath, que assumiu o poder em 1968, minaram seu peso econômico mas, pondo fim ao feudalismo, favoreceu - pelo menos até a guerra no Irã - os mais despossuídos dos xiitas, camponeses pobres e sem-terra.
Foi na região do sul que explodiu uma insurreição popular em 1991, logo depois da derrota iraquiana na Guerra do Golfo em fevereiro desse ano. Esse amplo movimento de hostilidade ao poder foi reprimido de forma brutal pelas autoridades. Os aliados estabeleceram em 1992 uma zona de exclusão aérea sobre o sul iraquiano para proteger a população xiita, mas esta medida teve um efeito limitado.
Os xiitas do Iraque têm uma longa tradição contestadora. Foi na região de Basra onde ocorreram, nos séculos IX e X, a revolta dos Zendj (escravos) e o levante dos Qarmates, que preconizavam a igualdade social. No século XX, foi no sul onde se iniciou a luta contra os colonizadores britânicos.
Os xiitas constituíam nos anos 50 o grosso das tropas do Baath e do Partido Comunista Iraquiano, um dos mais poderosos do mundo árabe na época. Entre 1952 e 1963, os xiitas formavam a maioria do comando do Baath no Iraque, antes de serem progressivamente afastados do poder após a ascensão dentro do partido do clã de Saddam Hussein nos anos 70.
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