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Escândalos avançaram com a carreira de Eduardo Cunha

20 ago 2015 17h18
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Denúncia na Lava Jato não é primeira acusação no currículo do deputado, que despontou na campanha de Collor e se envolveu em casos nebulosos no governo do Rio. Mas é a com maior potencial para interromper sua trajetória.

Apesar de viver o auge da sua influência, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) vai enfrentar um teste sobre o real alcance do seu poder. O Ministério Público Federal apresentou nesta quinta-feira (19/07) a denúncia ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra o presidente da Câmara por corrupção e lavagem de dinheiro.

Ainda é cedo para saber se a denúncia vai mesmo desestabilizar Cunha. Nos últimos meses, os vazamentos sobre o envolvimento com os escândalos da Lava Jato só acirraram seu radicalismo contra o governo Dilma Rousseff e não parecem ter afetado sua influência.

Líderes de pelo menos metade das bancadas da Câmara, que dependem ou temem o presidente, afirmaram que são contra o seu afastamento mesmo com a eventual abertura de uma ação no Supremo.

O escândalo da Lava Jato não é a primeiro em que o deputado figura como suspeito. Um sobrevivente, Cunha sempre conseguiu manter sua trajetória ascendente mesmo com um currículo repleto de acusações de irregularidades.

Início: PC, Collor e Silvio Santos

Cunha ganhou projeção nacional no início do ano, quando assumiu a presidência da Câmara ao derrotar a máquina do Planalto que favorecia o petista Arlindo Chinaglia. Mesmo sendo um político influente nos bastidores, já em seu quarto mandato, Cunha costumava ser lembrado pelo público apenas como um "atravancador" de pautas no Congresso e por posições conservadoras sobre aborto e casamento de pessoas do mesmo sexo.

Bastaram poucos dias na presidência para que Cunha se convertesse na mais nova bête noire do governo Dilma. Apelidado de "rei do blocão", Cunha deveu sua eleição aos deputados da base que estavam insatisfeitos com Dilma e uma combinação de distribuição de favores e de astúcia política sobre o funcionamento do regimento da Câmara. Na presidência, ele já forçou a demissão do ministro da Educação Cid Gomes, sabotou votações de interesse do Planalto e chegou a promover uma espécie de minirreforma política.

A fúria do deputado contra o governo aumentou na mesma proporção em que o peemedebista se viu mais e mais enrolado nas investigações da Lava Jato – o lobista Julio Camargo afirmou que Cunha cobrou propina de 5 milhões de dólares em um negócio da Petrobras com a Samsung envolvendo o aluguel de sondas marítimas.

Formado em economia, Cunha, de 56 anos, teve seu primeiro grande empurrão na política antes da eleição presidencial de 1989, quando se envolveu na candidatura de Fernando Collor. Ele chefiou o comitê financeiro da campanha no Rio e tratou com o tesoureiro Paulo César Farias, o PC. Durante a campanha, recebeu o crédito pela descoberta de uma falha no registro da candidatura de Silvio Santos, que acabou inviabilizando a campanha do apresentador e facilitou a eleição de Collor.

A recompensa pelo serviço veio logo depois. Indicado por PC, Cunha recebeu a presidência da Telerj, a antiga operadora de telefonia do Rio de Janeiro. No cargo, foi acusado de direcionamento e superfaturamento em licitações e contratação de servidores sem concurso. Em 1993, após o impeachment de Collor, foi exonerado e acusado de participação no “Esquema PC”.

Aproximação com evangélicos

Nos anos seguintes, Cunha trataria de reconstruir sua influência. Em um caso curioso de metamorfose, deixou os políticos tradicionais de lado e se aproximou de pastores neopentecostais, que a partir da metade dos anos 90 começaram a ter projeção nacional.

Nesta fase, Cunha virou um protegido do ex-deputado Francisco Silva, ligado ao eleitorado evangélico fluminense e dono da rádio Melodia FM. Acostumado com os bastidores, Cunha só tentou seu primeiro mandato em 1998, quando se candidatou a deputado estadual. Acabou ficando na suplência com 15 mil votos. Foi sua primeira e última derrota eleitoral.

No ano seguinte, o então governador do Rio, Anthony Garotinho, também ligado aos evangélicos, nomeou Silva para a Secretaria da Habitação do Rio. Este, por sua vez, acabou nomeando Cunha como subsecretário e posteriormente para a presidência da Cehab (Companhia Estadual de Habitação). Na mesma época, Cunha, aos 41 anos, abraçou de vez seu novo personagem e se converteu ao protestantismo.

Já na presidência da Cehab, Cunha durou cerca de seis meses no cargo. Deixou o posto quando se viu envolvido em um novo escândalo, mais uma vez de direcionamento de licitações. Nesse momento, se viu isolado politicamente.

Cunha conseguiu dar a volta por cima em 2001, ao deixar a suplência e assumir um mandato na Assembleia, que lhe permitiu usufruir do foro privilegiado. Na mesma época, entrou na mira da Receita Federal, que detectou movimentações financeiras incompatíveis com sua renda.

Séquito fiel

Em 2002, com o apoio pesado de rádios evangélicas, foi eleito deputado federal com 101.495 votos. Pouco depois, se filiou ao PMDB, do qual viraria líder na Câmara em 2013.

Ao contrário de outros políticos, Cunha não costuma ser visto em inaugurações de obras. Prefere circular em templos evangélicos dos subúrbios do Rio, sua cidade natal, e da Baixada Fluminense. Ainda assim, tem um trânsito fácil no meio empresarial.

O deputado mantém um séquito fiel de pelo menos algumas dezenas de deputados. Políticos ouvidos pela imprensa brasileira afirmam que Cunha serve de ponte entre eles e empresas que costumam fazer doações generosas. Em 2014, foi reeleito com 232.708 votos. Sua campanha custou 6,8 milhões de reais e contou com doações dos bancos Bradesco, Safra e Santander e de empresas como a Ambev e a Coca-Cola.

Conhecedor dos meandros do regimento interno da Câmara, Cunha é mestre em usá-los a seu favor. Em 2007, conseguiu segurar a votação da Medida Provisória que prorrogava a CPMF até forçar a indicação de um dos seus aliados para um cargo em Furnas. Como legislador, apresentou projetos duvidosos, como o a instituição de um “dia do orgulho heterossexual” e a criminalização da “heterofobia”. Certa vez, escreveu em sua conta no Twitter que os evangélicos estão "sob ataque dos gays, abortistas e maconheiros”.

Também atravancou a MP dos Portos, tentou alterar o Marco Civil da Internet e atuou como relator da MP que mudou a tributação sobre os lucros das multinacionais brasileiras no exterior. Em todas as ocasiões, foi acusado por adversários de agir como lobista de empresas com quem mantém uma relação de proximidade e que tinham interesses em jogo em cada uma das votações.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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