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Entrega do Nobel da Paz elogia luta das mulheres e homenageia Primavera Árabe

10 dez 2011
14h22

A cerimônia de entrega do Prêmio Nobel da Paz de 2011, que pela primeira vez distinguiu três mulheres, se transformou neste sábado em uma homenagem à luta das mulheres de todo o mundo e aos movimentos populares da chamada Primavera Árabe.

A presidente da Libéria, Ellen Johnson-Sirleaf, e sua compatriota Leymah Roberta Gbowee, evocaram os movimentos feministas da África e Ásia e lembraram todas as mulheres que obtiveram antes o Nobel da Paz, com especial atenção à queniana Wangari Maathai - falecida neste ano - a primeira africana a obtê-lo, em 2004.

Sem deixar de destacar a luta das mulheres, a iemenita Tawakul Karman, a última das três a falar na cerimônia em Oslo, focou seu discurso na defesa das revoltas do mundo árabe, que reivindicam regimes democráticos.

As três foram agraciadas pelo Comitê Nobel da Noruega "por sua luta não violenta pela segurança das mulheres e seus direitos a uma participação plena no trabalho de construção da paz".

As mulheres foram um dos temas principais dos discursos das vencedoras do prêmio, incluindo aquelas que, "com sua luta privada e silenciosa, ajudaram a formar nosso mundo".

"Não tenham medo de condenar a injustiça, embora estejam em minoria. Não tenham medo de buscar a paz, embora falem com voz fraca. Não tenham medo de exigir a paz", disse Ellen, de 72 anos, que em 2005 se transformou na primeira presidente africana eleita de forma democrática.

Sua compatriota Leymah, de 39 anos, começou a falar lembrando os inícios do movimento pacifista e multiétnico Women of Liberia Mass Action for Peace, que impulsionou em 2002 ao lado de outras seis mulheres, "com nossas próprias convicções e dez dólares". A mobilização contribuiu depois para pôr fim à segunda guerra civil no país.

"Usamos nossa dor, nossos corpos destruídos e nossos sentimentos feridos para confrontar a injustiça e o terror em nosso país. Estávamos cientes de que só através da não violência poderíamos acabar com a guerra", disse Leymah, lembrando que as mulheres foram "brinquedos de guerra" no conflito.

Ela destacou que a escolha das premiadas ocorre no melhor momento. "Mulheres que antes eram vítimas silenciosas e objetos de poder dos homens derrubam os muros das tradições opressoras com a força invencível da não violência".

O poder da resistência pacífica também foi mencionado pela jovem iemenita Tawakul, de 32 anos, homenageada por seu papel central na luta pelos direitos das mulheres e pela democracia no Iêmen.

Usando hijab e dirigindo-se à audiência em árabe, Tawakul aceitou o prêmio "em nome da juventude revolucionária do Iêmen e outros países árabes", que lutam contra "a guerra conduzida por líderes despóticos que oprimem seu próprio povo".

Essa "revolução juvenil" é pacífica, popular, conta com a participação de milhares de mulheres e tem "exigências justas e objetivos legítimos", ressaltou Tawakul, que a comparou com os processos políticos surgidos no Leste da Europa após a queda da União Soviética.

"A consciência humana não pode estar tranquila vendo como a juventude árabe, que está florescendo, é cegada pela máquina de morte que os tiranos soltam contra ela", disse a ativista iemenita, reivindicando o apoio do "mundo democrático".

Ela defendeu que os processos no mundo árabe devem incluir obrigatoriamente a deposição dos ditadores, de seus órgãos de segurança e de sua "rede de nepotismo", a criação de instituições para uma fase de transição e a criação de um Estado "moderno, civil e democrático".

O discurso de Tawakul encerrou a cerimônia, que durou quase duas horas, contou com a presença da família real e do governo da Noruega e teve um variado repertório musical, incluindo homenagens peculiares às vencedoras do Prêmio por incluir apresentações das cantoras Miatta Fahnbulleh (Libéria) e Angelique Kidjo (Benin) e do egípcio Ahmed Fathi.

As três ganhadoras deste ano sucedem no histórico do prêmio o ativista chinês Liu Xiabo, que não pôde viajar a Oslo no ano passado por estar preso.

O Comitê Nobel norueguês não elegia três pessoas no mesmo ano desde 1994, quando o prêmio foi ao então primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, ao ministro das Relações Exteriores do Estado judaico, Shimon Peres, e ao presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat.

Ellen, Leymah e Tawakul repartirão as 10 milhões de coroas suecas (R$ 2,7 milhões) do Prêmio, da mesma forma que os outros cinco Prêmios Nobel entregues em Estocolmo, também neste sábado.

EFE   
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