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Domingo, 10 de outubro de 2004, 05h45 
Reeleito, Cesar Maia nega interesse em 2006
 
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Reeleito no primeiro turno com 50,11% dos votos, o prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, mantém a agenda de campanha e, ao longo da semana, ensaiou como serão os próximos quatro anos do governo, que começa a assumir uma liderança política com vistas a 2006.

Embora fortalecido localmente e dentro do PFL, o prefeito nega que vá concorrer ao governo do Estado. "Temos de formar uma candidatura ampla", justifica. Com o governo federal, Cesar garante que mantém uma relação amistosa, melhor do que tinha com Fernando Henrique. Mas não pretende mudar o tratamento com o Planalto pelos próximos quatro anos. "Não preciso me submeter ao vexame de ficar numa fila".

Até o fim do ano a temperatura deste relacionamento ainda vai aumentar, com a promessa de devolver os hospitais municipalizados. "Ele (Humberto Costa) não me conhece. Não coloco mais um tostão nisso", garante.

Jornal do Brasil - Uma frente está se formando como oposição a Anthony Garotinho. Lindberg Faria comentou que Ciro Gomes seria um nome importante para trazer para o Rio. O senhor concorda?

Cesar Maia - Seria, mas a intervenção dele na campanha eleitoral - Ciro apareceu todos os dias no programa do deputado André Corrêa, que teve uma votação pífia (0,7%) - acabou por criar uma insegurança sobre sua competitividade. Não é possível uma candidatura de unidade sem um nome competitivo. O apoio em vão ao André Corrêa acabou criando um ponto de interrogação em relação a seu nome e ao da própria Denise Frossard.

Jornal do Brasil - Então, até o momento, além do senhor, não há um nome forte para 2006?

Cesar Maia - Meu nome está fora. O que vemos no Estado do Rio hoje é um aviltamento das instituições democráticas. Com Garotinho, estamos voltando à República Velha. Ele intervém avassaladoramente nos municípios, presta favores, usa a polícia como os coronéis. É uma situação de tamanha gravidade que tem que ser combatida por uma candidatura ampla, que tenha como compromisso a reconstrução do Estado. Os partidos políticos têm que se sentar e buscar um nome consensual, que pode vir de fora da política.

Jornal do Brasil - Pretende criar uma linha de diálogo com o Palácio do Planalto? Cesar Maia - Não tenho dificuldades de relação com Lula como tinha com Fernando Henrique, com o Collor ou com o Itamar Franco. Durante a campanha, recebi vários telefonemas do Aldo Rebelo (ministro da Articulação Política) e todas as vezes que o presidente veio ao Rio nos falamos. O que eles querem - não é o Lula, é o partido que está no poder - é a fotografia do pedinte, a submissão do prefeito, do governador. Eu me comporto como membro de um Estado federado e dou dignidade à representação da cidade. Quando Lula esteve no Rio, tivemos uma audiência informal. Do jeito de sempre, fala-se bem de uns, fala-se mal de outros e todos xingam o Garotinho.

Jornal do Brasil - Existe a preocupação com o atraso das obras do Pan-Americano de 2007 e o temor de se repetir o fracasso de Santo Domingo. O senhor deve estar debruçado sobre o tema... Cesar Maia - A única preocupação que se tem é com a Vila Pan-Americana. Todo o resto tem solução. Já a vila é caso de vida ou morte. Mas ontem à noite (terça-feira) eu senti que o governo federal está plenamente consciente disso. Telefonou-me o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Matoso, e perguntou se não poderíamos apressar o processo que está parado no cartório. E o que mais me preocupava parece estar resolvido.

Jornal do Brasil - Houve redução de verba?

Cesar Maia - Sim, tivemos que reduzir o número de prédios. Mas do ponto de vista do cronograma, isso até acelera a obra. Tem de começar no início de 2006.

Jornal do Brasil - Se a Caixa atrasar a liberação do financiamento, o que senhor pensa em fazer?

Cesar Maia - Vou chamar o senador (Marcelo) Crivella, para pedir o auxílio de Jesus. Não há alternativa. Se houver problema no financiamento, temos de ir à organização dos jogos e dizer que não há condições de realizar o Pan.

Jornal do Brasil - A cidade está pronta para o Pan?

Cesar Maia - Os jogos vão acontecer na segunda quinzena de julho, durante as férias escolares. Isso reduz drasticamente o movimento de veículos no corredor Barra-Zona Sul. E com gerência de tráfego você consegue resolver tranqüilamente os problemas de trânsito.

Jornal do Brasil - O senhor elegeu a área de transporte como uma das prioridades de seu governo. Quais projetos vão sair nos próximos quatro anos?

Cesar Maia - Estamos tendo um sucesso maior do que se imaginava na integração metrô-ônibus. Começamos na Zona Sul e depois as empresas de ônibus aceitaram integrar Tijuca, Muda, Grajaú e Andaraí. Agora, aceitaram integrar Del Castilho ao Fundão. Estamos trabalhando toda a Linha 2 para ver onde é possível fazer novas integrações. Com isso, a gente teria um corredor gigantesco - Zona Sul, Zona Norte e Fundão - um transporte integrado metrô-ônibus sem subsídios. Outro, é o corredor T5, com ônibus em canaleta. As empresas de ônibus dizem que agora têm interesse no corredor (Barra, Jacarepaguá, Madureira, Irajá, Penha). Acho que é um projeto que vai sair.

Jornal do Brasil - E a ligação Barra-Zona Sul?

Cesar Maia - É o ponto de interrogação. Vamos oferecer garantias (recebíveis da dívida ativa) por lei municipal, que somam cerca de R$ 200 milhões por ano e ver no que dá.

Jornal do Brasil - Quanto às linhas de ônibus, é possível corrigir a justaposição?

Cesar Maia - Isso depende de autorização judicial. O Tribunal de Justiça do Rio autorizou licitar linhas de ônibus, que são 400. Isso é fundamental. Depois houve um recurso e foi prorrogado o prazo para mais 90 dias, que termina no fim do ano. Estamos nos preparando para licitar inicialmente 170 linhas, depois mais 170, até o fim. Se as empresas de ônibus não conseguirem derrubar essa decisão, aqui ou em Brasília, vamos licitar.

Jornal do Brasil - A licitação é a única forma de retirar o enorme número de ônibus das ruas?

Cesar Maia - Sem licitar, consegui retirar da Zona Sul apenas 200 ônibus, e os transferi para a Zona Oeste. Mas a gente não tinha força na Justiça para impor a redução de linhas. Toda vez que impomos uma mudança, eles revertem a decisão na Justiça. Talvez a legislação que permitiu a operação das linhas tenha dado tantos direitos que eles conseguem vencer sempre.

Jornal do Brasil - O senhor já disse que tinha R$ 2 bilhões em caixa, o que seria uma situação financeira parecida com a do Canadá. E hoje, estamos caminhando para a realidade da Suíça?

Cesar Maia - Essa cifra foi de uma declaração minha do começo do ano passado. Estamos muito melhor. A Agência Moody's - de classificação de risco - requalificou o Brasil de B2 para B1, o Rio também. Mais importante do que isso foi que a agência Moody's só aceitou requalificar o risco de quatro entes do Brasil: o governo federal, o Rio, Curitiba e o Estado do Ceará. O Rio de Janeiro é tão solvente quanto o Banco Central.

Jornal do Brasil - Mas o endividamento da Prefeitura está no teto...

Cesar Maia - O ministério do Planejamento usa um conceito de endividamento que não está mais em lei, que é de uma Medida Provisória de 1998 e já expirou. A Lei de Responsabilidade Fiscal veio logo depois e definiu outro conceito: da receita corrente líquida. Pelo antigo, que não existe mais, o Rio está no limite do endividamento. Mas se o governo federal aplicasse o conceito da LRF, nós podemos ter acesso a mais empréstimos.

Jornal do Brasil - Seus adversários na campanha o criticavam por um "isolamento político". Como conseguir apoio do governo federal para tantos projetos que dependem dele?

Cesar Maia - Não sei se o que eles chamam de isolamento. Não preciso ficar de pires na mão, me submetendo ao vexame de ficar numa fila, porque não preciso disso. A prefeitura não precisa da ajuda desesperada do governo federal para pagar folha de pagamento, como fez o governo do Estado. Já conseguimos liberar os depósitos judiciais. Se algum golpe sofremos, foi na época do ministro Pedro Malan (da Fazenda, no governo Fernando Henrique), que numa interpretação draconiana, elevou o custo de nossa dívida de 6% para 9% ao ano.

Jornal do Brasil - Pretende renegociar a dívida do município?

Cesar Maia - Estamos cumprindo etapas. Quando estive na reunião de prefeitos em Goiânia, entreguei um documento ao presidente Lula em que enumerava dois pontos que já são lei e não são cumpridos. Primeiro, era o acesso aos depósitos judiciais presos no Banco do Brasil. O outro era o Ministério da Fazenda aceite o conceito de receita corrente líquida conforme diz a LRF.

Jornal do Brasil - Quanto custou sua campanha?

Cesar Maia - Não sei porque é o PFL que trata disso. Mas foi uma campanha barata, perto de R$ 2 milhões. Os espaços grandes que tive na entrada do túnel Rebouças e na Barra foram sorteados. Os financiadores, vamos apresentar na data em que o TRE definir.

Jornal do Brasil - Sua administração é marcada por grandes obras no último ano de governo. O senhor vai repetir a estratégia?

Cesar Maia - Não é uma estratégia eleitoreira. Isso acontece porque não é possível fazer uma grande obra em um ano. Para fazê-la, são necessários três anos. Um Favela-Bairro leva dois anos. No Brasil, só há uma alternativa para fazer obra sem dinheiro: não pagar o empreiteiro. Como o município não pode se endividar, ou você tem dinheiro - uma poupança - ou não consegue dar seqüência. Para mim, tanto faz inaugurar depois da eleição ou em outro governo. Se eu posso inaugurar antes da eleição, eu faço.

Jornal do Brasil - A área da saúde é outra prioridade eleita pelo senhor nesta gestão e foi o ponto mais criticado pelos adversários durante a campanha.

Cesar Maia - Quando no meio da campanha eu disse que a saúde era meu telhado de vidro, foi um truque, porque quando descobri que o eleitor não estava decidindo o voto por causa da saúde, eu atraí os adversários para falarem do tema. A população achava que a crise da saúde só poderia ser enfrentada por mim. Eles erraram ao usar esse tema. A saúde está em crise e só pode ser superada por um administrador. Eles não tinham esse perfil, eu tenho.

Jornal do Brasil - Existem hospitais que nunca foram federais e passam por problemas semelhantes. O teto do Paulino Werneck, na Ilha, está desabando, há andaimes por toda a emergência.

Cesar MaiaPrédio público em reforma deve ser recebido com aplausos, é uma coisa elogiável. Ninguém saiu do Paulino Werneck e foi à emergência do Hospital do Fundão, porque está fechada há três anos. O Paulino Werneck é um posto de saúde que foi ampliado e, no entanto, tem que cobrir as funções do hospitalzão, o do Fundão, que tem a base científica da UFRJ e o dinheiro do Ministério da Educação.

Jornal do Brasil - Acha possível inverter o quadro e evitar a devolução dos hospitais municipalizados à União?

Cesar Maia - Não faço a menor idéia, depende do Ministério da Saúde. Já fiz uma primeira notificação, vou fazer uma segunda e vou lá dizer para ele: "Humberto, você não me conhece, não. Pergunta a quem me conhece se eu faço ou não faço. Eu paro os hospitais". Vai morrer gente? Eu não quero saber, não boto mais nem um tostão.
 

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