| Veja também |
|
|
 |
|
|
 |
|
|
O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva vai ser reconhecido como doutor. O título honoris causa será concedido pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) em maio do ano que vem, quando Lula ministrará a aula inaugural da universidade, já na condição de professor doutor.
A proposta de conceder a homenagem ao retirante nordestino que se elegeu presidente da República partiu da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) e foi ratificada por decisão unânime do Conselho Universitário da instituição, em reunião realizada na tarde de ontem. De acordo com o reitor da Ufba, Naomar Almeida, Lula já demonstrou sua satisfação em receber o título concedido pela universidade baiana.
Apesar de ter sido uma decisão unânime, o assunto rendeu acaloradas discussões na sala dos conselhos e, em determinados momentos, os ânimos ficaram bastante acirrados, após alguns membros fazerem ressalvas à concessão do título. Ninguém, entre os 41 integrantes do Conselho Universitário da Ufba, contestou o mérito do homem de origem humilde que chegou à Presidência da República, mas alguns discutiram se o título seria apropriado e se o momento para a sua concessão seria o mais adequado.
O diretor da Faculdade de Ciências Econômicas, Luís Filgueiras, chegou a dizer que um título de doutor iria de encontro a tudo o que Lula de fato representa. "Não é preciso um título de doutor para exercer uma liderança política no país. Lula chegou à vitória como metalúrgico, imigrante e representante das classes mais pobres. É espetacular que a universidade queira fazer uma homenagem a este homem, mas a considero equivocada porque trata-se de reconhecê-lo com algo que o penalizou durante muitos anos, que é o fato de não possuir formação acadêmica", opinou.
Oportunismo
Outra ressalva levantada por alguns membros do conselho, a exemplo de Nelson Pretto, diretor da Faculdade de Educação, e Nice Americano, diretora do Instituto de Física, é o temor de a universidade baiana ser apontada como oportunista pela crítica nacional. "Preocupado com a Universidade Federal da Bahia, eu considero o momento impróprio, vislumbrando a possibilidade de a instituição ser acusada de oportunismo pela opinião pública nacional", disse. "Não escaparemos de ser imputados por uma tentativa de se aproximar do presidente para receber benesses", ponderou Nice Americano.
O representante dos estudantes, Gion Brun, e da comunidade, vereador Juca Ferreira (PV), contestaram as opiniões anteriores, alegando que o título de honoris causa, apesar de concedido pela academia, representa o reconhecimento ao saber popular. "Concordo com o que foi colocado, mas acho que a universidade tem condições de enfrentar esse desafio. Acho que o título poderia ser concedido em outro momento, mas antes tarde do que nunca", argumentou o estudante, apoiado pelo representante da comunidade.
Os servidores técnico-administrativos da Ufba também se mostraram favoráveis à concessão do título desde o início. "Defendemos a concessão do título pelo reconhecimento ao metalúrgico, sindicalista e fundador do maior partido de esquerda da América Latina. E também pelo conhecimento que ele possui acerca da realidade nacional e internacional, passando por todos os campos do saber. Por tudo isso, nossa categoria gostaria de honrar Lula com o título de doutor honoris causa", declarou.
De acordo com Antonio Fernando Guerreiro, diretor da FCCH, unidade que propôs a concessão do título, é preciso reconhecer que, em diversas questões, Lula é um professor e não mais um aprendiz. "Sua trajetória pessoal é extremamente singular, pois mesmo sendo de origem humilde, ele se mostrou um grande organizador político e mobilizador social. Esse é um título que serve justamente para reconhecer o saber popular e isso está acima do fato de Lula ser um dirigente político", afirmou.
Unanimidade
Após muita discussão, a proposta foi submetida à votação pelo conselho, que decidiu por unanimidade pela concessão do título de doutor honoris causa a Luiz Inácio Lula da Silva. "Minha posição pessoal, desde o início, foi favorável à concessão do título. As críticas apresentadas aqui, no meu entender, são infundadas e injustas, e na minha opinião esse é o momento mais oportuno para a homenagem", declarou o reitor Naomar Almeida. "Como reitor, eu considero um privilégio enorme o fato de Lula ter aceitado o título e ele já disse que vai ficar muito feliz em recebê-lo e em ministrar a aula inaugural do próximo semestre", acrescentou.
O Conselho Universitário da Ufba é constituído de 29 diretores, quatro membros da reitoria, nove estudantes, um membro do Conselho de Pesquisa e Extensão, dois representantes dos servidores técnico-administrativos e da comunidade. No total, foram 41 votantes. Todos disseram sim à concessão do título ao presidente eleito.
Outro título, o de professor emérito da Universidade Federal da Bahia, foi concedido pela instituição, ontem, ao antropólogo Pierre Verger, francês que escolheu a Bahia para viver durante mais de 50 anos e cujo centenário está sendo comemorado este ano. Verger foi professor adjunto do Departamento de Antropologia da Ufba, de 1974 a 1996, pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Além de antropólogo, Verger, morto em 11 de fevereiro de 1996, é reconhecido como um grande fotógrafo e um dos maiores conhecedores da cultura popular baiana, sobretudo de origem afrobrasileira.
|