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Sexta, 4 de outubro de 2002, 18h55 
Garotinho sai como a grande surpresa das eleições
 
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Quando Anthony Garotinho renunciou ao governo do Estado do Rio de Janeiro em abril para disputar o Palácio do Planalto, muitos acreditavam que seu papel na corrida presidencial seria de mero figurante.

Agora, a dois dias das eleições, o ex-radialista nascido em Campos, no Norte fluminense, provou que sua campanha era mais que um simples ensaio para as próximas eleições presidenciais de 2006.

Garotinho, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), ganhou terreno nas pesquisas de opinião e ameaça o candidato da aliança governista, José Serra, que tenta garantir o segundo lugar para um embate com o líder nas pesquisas Luiz Inácio Lula da Silva, caso o petista não vença as eleições no primeiro turno. Um cenário que parecia improvável meses atrás.

Prometendo elevar o salário mínimo em 40% a partir do ano que vem e retomar o crescimento econômico, o candidato conseguiu tocar nos corações e mentes da população de baixa renda.

"Garotinho é o candidato para baixar os juros, fazer justiça aos aposentados, para colocar o mínimo em R$ 280 a partir de maio de 2003", disse ele em um comício no centro do Rio esta semana.

Membro da Igreja Presbiteriana, Anthony William Garotinho Matheus de Oliveira, 42, construiu sua carreira política com a ajuda da comunidade evangélica, que representa cerca de 15% da população ou 26 milhões de brasileiros.

Ateu até 1994, Garotinho ou Bolinha, como foi chamado ao nascer com 5,5 kg, converteu-se depois de sofrer um acidente de carro durante sua primeira tentativa de se eleger governador do Rio.

A base evangélica deu a ele não apenas votos mas também apoio financeiro, o que permitiu que o candidato viajasse pelo país na reta final da campanha e se projetasse fora do Rio de Janeiro.

Os evangélicos nunca o abandonaram, mesmo quando seus aliados políticos mais próximos chegaram a duvidar da viabilidade de sua campanha e cogitaram sua renúncia.

"Com seus laços sólidos na rede evangélica, ele conseguiu ganhar terreno na periferia das grandes cidades", disse Marcus Figueiredo, cientista político do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj).

O gosto pela política, porém, começou bem antes da descoberta da fé. Garotinho deu seu pontapé na vida pública junto ao Partido dos Trabalhadores (PT) em Campos, que ele ajudou a fundar em 1980. Aproveitando-se da fama como locutor de rádio, disputou as eleições para vereador em 1982, com Garotinho - apelido que ganhou no rádio - no nome, mas não saiu vitorioso das urnas apesar de ter sido o mais votado, porque o partido não alcançou o coeficiente eleitoral necessário.

Garotinho mudou para o Partido Democrático Trabalhista (PDT), legenda pela qual se elegeu deputado estadual em 1986. Em 1988, disputou a prefeitura de Campos, ganhou e depois foi secretário de Agricultura do Estado do Rio durante sete meses na gestão do então governador Leonel Brizola.

A frustrada campanha para o governo do Rio em 1994 não o desanimou. Obstinado, Garotinho conseguiu chegar ao Palácio Laranjeiras quatro anos depois.

Como governador, agradou o eleitorado com restaurantes e hotéis oferecendo refeições e hospedagem a R$ 1, assim como construindo casas populares.

Com um discurso fortemente nacionalista e de oposição, Garotinho saiu ganhando com a desilusão dos eleitores com os deslizes do intempestivo candidato da Frente Trabalhista, Ciro Gomes, que depois de uma escalada meteórica viu suas intenções de voto despencarem nas recentes pesquisas.

Garotinho, sua mulher Rosinha e seus nove filhos - cinco deles adotivos - têm motivos para celebrar. Rosinha, candidata ao governo do Rio, pode vencer no primeiro turno, de acordo com as pesquisas. Já Garotinho conseguiu chegar até onde poucos imaginavam.

"Ele não é uma carta fora do baralho", avalia Figueiredo, do Iuperj.
 

Reuters

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