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Guia do Eleitor
Aula de política
João Ubaldo Ribeiro

Nas mãos do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro (1941), o Brasil dos anos 70 se transforma na Borengânia, uma república de bananas governada ditatorialmente pelo atrapalhado Vencecavalo Santos Bezerra. Driblando a censura do período militar ao utilizar-se de um país fictício para retratar a situação nacional, Ribeiro satiriza a carnavalização do poder, a retórica vazia dos políticos, o palavreado complicado e sem sentido dos burocratas e a pretensa esperteza dos nossos governantes, pintando um retrato de surpreendente atualidade. Zero Hora reproduz a seguir um trecho do conto Vencecavalo Santos Bezerra, do livro Vencecavalo e o Outro Povo.

Vencecavalo

Assim escrupulosamente preparado para defender o Produto Interno Bruto, Vencecavalo convocou uma assembléia geral e expôs seus pontos de vista, concluindo com um volteio de frase que terminou em latim. Depois do vibrante pronunciamento, em que diversos doutores o apartearam para oferecer o seu apoio e levantar fracas dúvidas retóricas, Vencecavalo enfrentou as perguntas da assembléia transmitidas através do Comitê Saneador de Perguntas e Perguntadores da Assembléia Geral, ali reunido especificamente para esse fim.

– Como poderemos micremaconar ratudamente o problema criado pela defasagem entre a dirilação epimêndica e a nova estrutura das obrigatáveis ressulações aparentes, considerando ainda o know-how, o underwriting e o holding?

– Não deixe a peteca cair! – verberou Vencecavalo, agitando os braços.

– É possível que o Bralono Nacional de Norlonga Pública e seus aderentes venham a obstripular, mesmo que protrosamente, o nosso beteletimento regional?

– Não me traga problemas, me traga soluções! – retrucou célere Vencecavalo, levantando energicamente o queixo para a frente e para o alto.

– Como equacionar o problema da marculização elementar, entre todas estas fobrinas, em meio a todas as monaidículas, por gerutras e angerutras, quando não há sursos nem alomendas?

– É fazendo força que a gente faz força! – gritou Vencecavalo, as veias intumescidas pela paixão.

Diante desta última exortação, prorrompeu em aplausos a multidão reunida, não sendo difícil para Vencecavalo liderar a todos, na guerra que se declarou, entre o Produto Interno Bruto da Borengânia e inúmeros outros produtos internos brutos das circunvizinhanças. Mesmo porque Vencecavalo mandava dar uma martelada na cabeça de quem discordava; se a discordância prosseguia, ele mandava dar duas marteladas; se não adiantava, ele mandava dar umas machadadas, essas coisas. Depois de algum tempo, ninguém mais discordava, porque dava muita dor de cabeça discordar. (...)

À medida que o tempo passava, a situação de Vencecavalo se firmava, com exceção de um ou outro incidente esporádico, que não chegava a empanar-lhe o brilho dos inúmeros feitos que já o consagravam. Por exemplo, o Produto Interno Bruto começou a ressentir-se de uma certa inflação.

Reunido com os seus principais assessores, Vencecavalo rapidamente denunciou a inflação ao país, chamou-a de filha da puta, veada, etc, e, em seguida, inquiriu sobre o que era inflação. (...)

Vencecavalo resolveu tudo de forma muito brilhante. Chegou lá ao Eximbank e falou, disfarçando para ninguém desconfiar:

– O senhor podia me arranjar novecentos dólares, por favor?

– Pois não – disse o homem do Eximbank. – Aqui está.

– Muito obrigado – disse Vencecavalo pensativamente. – Pensando bem – falou ele de novo – o senhor tome aqui os novecentos dólares e me dê a mesma coisa em marcos alemães.

– Pois não – disse o homem do Eximbank. – Aqui está.

– Muito obrigado – disse Vencecavalo, e foi saindo.

– Um momento, cavalheiro! – falou o homem do Eximbank. – O senhor não pagou os marcos!

– Eu troquei pelos dólares – explicou Vencecavalo, chocado.

– Mas o senhor não pagou os dólares – insistiu o homem do Eximbank.

– Francamente, meu amigo – retrucou Vencecavalo – o senhor vai querer que eu pague uma coisa que não vou levar?

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