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O presidente que não chegou a assumir
Tancredo de Almeida Neves entrou para a História como aquele que não foi. Era para ter sido o primeiro presidente civil depois de 20 anos de ditadura militar, o homem que levaria o Brasil para a prometida Nova República, o articulador que governaria o país na sua fase de redemocratização. Não foi. Tancredo começou a morrer exatamente na véspera da posse. Internado às pressas no Hospital de Base de Brasília, morreu 38 dias depois, na noite de 21 de abril de 1985. O Brasil, que acompanhara tenso e comovido a agonia do político mineiro, promoveu um dos maiores funerais da história nacional. Calculou-se na época que, entre São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e São João del Rey, mais de 2 milhões de pessoas viram passar o esquife. Assumiu a Presidência da República aquele que era para ter sido apenas o vice, o maranhense José Sarney, ex-presidente da Arena, o partido governista durante o regime militar.
A articulação que elegera a dupla é tida ainda hoje como uma das mais complexas e bem-sucedidas na história política do país. Conta-se que Tancredo vinha silenciosamente trabalhando pela sua candidatura desde 1983. No ano seguinte, com a derrota da emenda das Diretas Já, rejeitada pelo Congresso, ele foi granjeando simpatias. Convenceu Ulysses Guimarães a não concorrer no Colégio Eleitoral, conquistou o apoio de Antônio Carlos Magalhães e montou a Aliança Liberal, que possibilitou a união do PMDB com dissidentes do PDS (sucessor da Arena) e deu corpo ao PFL. Com Sarney de vice, derrotou Paulo Maluf na última eleição indireta do país.
Tancredo vinha de uma longa carreira política, iniciada nos seus tenros 24 anos, em São João del Rey. Elegeu-se vereador e, em seguida, presidente da Câmara Municipal. Foi deputado estadual, deputado federal, ministro da Justiça no segundo governo de Getúlio Vargas, primeiro-ministro durante o governo parlamentarista, senador por Minas Gerais e governador daquele Estado. Participou da fundação do MDB e do PP.
Antes de ser internado, Tancredo já se sabia doente. Adiou o tratamento o quanto pôde. Durante os 38 anos dias de agonia, passou por sete cirurgias. A diverticulite anunciada pelos médicos ocultava um tumor no abdômen e uma infecção generalizada. Seu filho, Tancredo Augusto, aventou há três anos a possibilidade de que o pai tenha sido deliberadamente infectado. Nada foi provado. Aquele que deveria ser o arquiteto da redemocratização morreu no dia do 193º aniversário da execução de Tiradentes, o mártir da Inconfidência.
O epitáfio que o presidente eleito previra certa vez numa roda de amigos, em conversa no Senado, não chegou a ser gravado na lápide, em São João del Rey: “Aqui jaz, muito a contragosto, Tancredo de Almeida Neves”.
Fonte: Agência RBS
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