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Guia do Eleitor
Aula de política
Nelson Rodrigues

Em 13 de junho de 1979 a seção de cartas do Jornal do Brasil publicava uma carta aberta ao general João Baptista Figueiredo, o último presidente da ditadura militar. O texto, assinado pelo escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980), clamava pela sorte de seu filho. Xará do pai, Nelsinho, como era chamado pela família, estava condenado a 72 anos de prisão. Com essa carta, da qual o Jornal da Eleição reproduz um trecho hoje na última reportagem da série A Literatura no Ritmo da Política, Nelson Rodrigues assumia seu engajamento à campanha pela anistia total e irrestrita, iniciada em maio de 1978, no final do governo Geisel.

A voz de Nelson na campanha era duplamente incômoda para os militares. Era a voz de um pai que tinha todo acesso a mídia e, ao mesmo tempo, a de um escritor que nunca escondera seu apoio ao regime. Apoio que terminara em 1972, quando Nelson se convenceu da existência de torturas, das quais seu filho era uma das vítimas.

O projeto de lei do governo foi aprovado no Congresso a 21 de agosto, excluindo da anistia os que haviam participado da luta armada. Nelsinho entre eles. Sua libertação só ocorreu em 16 de outubro, beneficiado com a liberdade condicional. Mas não reencontrou o pai. Naquele dia, Nelson Rodrigues estava inconsciente em uma casa de saúde, com insuficiência respiratória e coronariana.

Carta ao general

     (...) Eu quero falar de presidente. Trata-se do general João Baptista de Figueiredo, que todos nós chamamos de Figueiredo. É certo que muitos falam mal do presidente. Não importa, nada importa. A glória é a soma de palavrões que uma certa figura vai provocando. E, assim, apedrejado por uns, acaba sendo aplaudido de pé, como nos finais de ato.

     De Figueiredo, poucas vezes falo. Mas vou falar agora. Gosto de Figueiredo. Vou lhes contar como o conheci. Foi num jogo de escrete, em 1970. Médici convidou-me para ver o jogo da tribuna de honra. Entre parênteses, eu sou um sujeito que fica tenso numa tribuna de honra. “Convencional”, dirão. E eu próprio direi: “convencional”.

     O Brasil ganhou e voltei para o Palácio das Laranjeiras na comitiva presidencial. Foi aí que a fatalidade pôs o general Figueiredo no meu caminho. Com ele, estava Andreazza, que se juntou a nós. Tomamos o automóvel. Nada mais doce do que esta carona do Figueiredo. Ele era, então, chefe do Gabinete Militar de Médici. (...)

     O presidente tem o rosto dos Figueiredos. Nunca me passou pela cabeça que o destino do meu filho Nelson Rodrigues Filho pudesse depender de João Baptista. E, então, esta carta deixa de ser dirigida ao Jornal do Brasil, e passa a ser dirigida ao presidente Figueiredo.


     Figueiredo,

     O que eu queria te dizer é que é estranho ser bem tratado pelo presidente da República. (Um dia, eu, doente, precisei falar com o presidente. Ainda vacilei. (...) Acabei ligando. Disse quem era e ele veio me atender. Admirável a recepção que nos fez. Em grandes brados, me tratou na palma da mão. Eu tinha um pedido e o fiz. Se ele me atendeu, permitam uma certa discrição).

     Bom. É chegado o momento de falar de anistia. Eis o que eu queria dizer, a você mesmo, meu querido João Baptista:

     Quis o destino que meu filho, Nelson, na altura dos 24 anos, entrasse na clandestinidade. Talvez um dia, eu escreva todo um romance sobre a clandestinidade e a prisão de meu filho. A prisão não é tudo. (Preciso chamar você, novamente, de senhor). O senhor precisa saber que meu filho foi torturado. Isso me foi ocultado pelo Nelsinho, por causa do meu estado de saúde.

     Ora, (...) há uma anistia. Tem que ser uma anistia histórica. O que não é possível, presidente, é que seja uma anistia pela metade. Uma anistia que seja quase anistia. O senhor entende, presidente, que a terça parte de uma misericórdia, a décima parte de um perdão não têm sentido. Imagine o preso chegando à boca de cena para anunciar:

     – Senhoras e senhores: comunico que quase fui anistiado.

     Não se faz isso para uma platéia internacional abismada. Que se dirá em todas as línguas e sotaques? E que dirá o próprio Deus? Bem, nunca se acreditou tão pouco em Deus. Mas não importa, nada importa, o que importa é o que disse Dostoievski, certa vez:

     – Se Deus não existe, então tudo é permitido.

     Estou dizendo tudo isso, Figueiredo, de coração para coração, de alma para alma. Dirão os Lorpas e Pascácios:

     – O presidente não está sozinho.

     Está. Se der a anistia que Deus quer.

     João Baptista, meu filho Nelsinho vai ter o filho na prisão, em agosto. Deus te ame eternamente, Figueiredo.

Fonte: Agência RBS

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