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Da resistência à crise de identidade
Em 1966, era mesmo difícil de acreditar em um partido inventado pela ditadura para brincar de oposição no Congresso. Ainda mais se o primeiro presidente era, ironia suprema, um coronel, o carioca Oscar Passos. Toda vez que um desafeto insinuasse totalitarismo, os generais de plantão sacariam o atestado do bolso:
– Como assim? E o MDB, hein, hein? – indagariam.
Era para ser assim, mas não foi. Trinta e dois anos depois da sua fundação, é impossível contar a história da resistência à ditadura sem reservar um espaço cativo ao Movimento Democrático Brasileiro, convertido em PMDB com a reforma partidária de 1979. A legenda ordeira e servil imaginada pelo regime se revelaria abrigo generoso para os mais variados matizes de críticos do arbítrio e porta-voz da redemocratização.
Nos primeiros anos do regime, os militares estavam firmes no poder. Com as cassações em massa do Ato Institucional nº 5, no final de 1968, vários parlamentares temiam o futuro da sigla. Dos 129 deputados do MDB, a ditadura usurpara o mandato de 64. Nas eleições de 1970, auge do terror do presidente Emílio Garrastazu Médici, o desempenho nas urnas foi raquítico: só dois senadores eleitos. Em 1966, eram 12. O momento mais complicado, entretanto, foi também o da virada. Como abrigo das organizações políticas ilegais, surgiu uma aliança entre a clandestinidade e os líderes da resistência pacífica, contrários à guerrilha. Inicialmente tratado com desdém pela esquerda, o MDB passou a ser reconhecido como um instrumento de luta contra a ditadura.
Em novembro de 1974, já com Ulysses Guimarães na presidência, o MDB aplica uma surra histórica na Arena. Elege 16 senadores. Ulysses percorre o país como anticandidato à Presidência da República. Perde. Faz 76 votos contra 400 do general Ernesto Geisel, mas o MDB fica ainda mais forte nas ruas. Com medo de outra derrota em 1978, Geisel fecha o Congresso e altera as regras eleitorais para favorecer a Arena. A Lei Falcão, assinada pelo ministro da Justiça Armando Falcão, limita o acesso dos candidatos à tevê e ao rádio. Mesmo com a saída dos trabalhistas de Brizola, que fundam o PDT, e os grupos à esquerda, que formam o PT, o partido ainda segue forte, liderado por Ulysses e com a bandeira da Constituinte e das Eleições Diretas. O declínio começa mesmo em 1987.
O Plano Cruzado fracassa. José Sarney, ex-Arena, era o presidente do país, depois da morte de Tancredo Neves, que vencera Paulo Maluf no Colégio Eleitoral graças ao racha no PDS, batizado de PFL. A inflação volta. Inchado por adesões oportunistas no auge do Cruzado, o PMDB vive crises sucessivas. Descontentes com o poder interno do ex-governador Orestes Quércia, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas e outros políticos criam o PSDB. A partir daí, o clientelismo quercista transforma o PMDB, antes decisivo na luta pelo fim da ditadura, no que é hoje: um punhado de grupamentos regionais adversários entre si. Alguns fortes, é verdade, mas sem nenhuma unidade nacional.
Fonte: Agência RBS | |
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