Memórias do Planalto Central
Foi preso em janeiro de 1942 no Rio um agente secreto da Gestapo que planejava assassinar o chanceler brasileiro Oswaldo Aranha. Acreditavam os nazistas que o diplomata gaúcho seria figura-chave na mobilização do continente americano contra os países do Eixo. Daí, a idéia de eliminá-lo. O espião alemão, que se chamava Franz Wasa Jordan, caiu numa operação-varredura feita em conjunto pela polícia brasileira e pelo FBI, e a história nunca veio a público.
O episódio é um dos muitos inéditos revelados em Testemunho Político, lançamento da editora Bloch. O livro revisa quase 40 anos de História do Brasil do ponto de vista de um observador privilegiado, o jornalista Murilo Melo Filho, que trabalhou ao lado de algumas figuras míticas da imprensa nacional – Assis Chateaubriand, Carlos Lacerda, Walter Clark – e conviveu intimamente com alguns dos maiores personagens políticos do país – Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart.
Numa sucessão de pequenas crônicas, Testemunho Político pode ser lido como um livro de memórias e uma obra de referência. Ao longo de 14 capítulos e mais de 400 páginas, vai alternando a vida pessoal do repórter com fatos decisivos do cenário nacional. Começa com a Revolução de 30 e a mordida que o menino Murilo levou de um sagüi. Chega à construção de Brasília, à deposição de Jango e às primeiras cassações do regime militar, que Melo Filho acompanhou como profissional, geralmente pelos bastidores e eventualmente como personagem. Foi ele, por exemplo, quem levou até a Câmara dos Deputados a carta-renúncia de Jânio Quadros.
Trechos
“Esse apaixonado radicalismo entre direita e esquerda já chegara também a Natal (nos anos 30). Famílias inteiras estavam dilaceradas entre irmãos comunistas e integralistas. Eu mesmo tinha dois primos – um vermelho e outro verde – que se agrediam mutuamente dentro de casa. Custava a acreditar na existência de tanta separação e apenas por motivos ideológicos.
Minhas preocupações, àquela altura, estavam voltadas para outro tipo de problema: é que eu, na infância, quis ser padre.”
“O casal visitante era hóspede do Palácio da Alvorada e dona Berta, mulher do presidente português, quando ambos se recolhiam para dormir procurou dona Sarah dizendo-lhe que precisava de um penico para ser colocado debaixo da cama do marido.
Foi um corre-corre danado. Como encontrar no incipiente comércio de Brasília, àquela hora da noite, um instrumento tão incomum?
JK e dona Sarah foram socorridos pelo prestativo Oswaldo Penido, que se apressou em ir até a distante Cidade Livre, conseguiu localizar o proprietário do maior armazém local e, triunfante, entrou de volta no Alvorada, exibindo o penico como um troféu de guerra. Parecia até Hannibal, o cartaginês, entrando em Cannes.
Na manhã seguinte, meio constrangida, dona Berta confessou a dona Sarah que o general Craveio não conseguira acertar uma só vez no penico. Molhara o tapete todo.”
Fonte: Agência RBS |