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Aula de política
Patrulha ideológica exigia engajamento

Houve um tempo em que o Brasil inteiro era de esquerda. E ai de quem não fosse. Conta Nelson Rodrigues que até as grã-finas da zona sul do Rio se diziam marxistas. Em uma de suas crônicas para o jornal O Globo, em 1968, o dramaturgo e jornalista pernambucano anotou que “só um herói, ou um santo, ou um louco” ousaria confessar publicamente que não se afinava com a esquerda. O cineasta Carlos Diegues, 10 anos depois, em agosto de 1978, se investiu do tal heroísmo, ou santidade, ou loucura. Em entrevista a O Estado de S. Paulo, denunciou a existência de uma rede de informação que “fiscalizava” o quão engajados ou não eram os filmes, os discos e os livros produzidos sob a ditadura militar. Diegues batizou o suposto movimento de “patrulhas ideológicas”.

A expressão pegou feito doença contagiosa, e em todas as rodas de intelectuais se discutia o assunto. A grande imprensa investiu no tema e passou a identificar patrulheiros e patrulhados. Havia pelo menos 10 anos que artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil eram malvistos pelo PCB. Paulo Pontes e Chico Buarque ostentavam a pecha de populistas e demagogos por terem escrito a peça Gota D’Água, transposição da tragédia grega Medéia para uma favela carioca. Cacá Diegues, que estava lançando Chuvas de Verão, já fora malhado por Xica da Silva, tido como filme “alienado”.

As críticas vinham de semanários alternativos, como Movimento, Opinião, Pasquim e até de colunas de grandes diários. O cartunista Henfil foi dos poucos que assumiram a carapuça de “patrulheiro”. No seu cemitério dos mortos-vivos, onde já havia enterrado Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector e outras figuras que ele julgava entreguistas, meteu Cacá Diegues, Glauber Rocha, Belchior e Rita Lee. Henfil batizou a turma de “patrulha odara” (citação a uma canção de Caetano) e criou um lema para eles: “Quer parar de ficar me cobrando”.

Caetano ficou ainda mais furioso quando a revista IstoÉ chamou o seu novo disco, Muito, de “amadorístico e relaxado”. Acusou os jornalistas José Ramos Tinhorão, Maria Helena Dutra e Maurício Kubrusly de “patrulheiros” e reservou um “canalha” para Tárik de Souza. Os críticos devolveram. Disseram que Caetano havia se transformado em censor e confundia crítica e patrulha.

A refrega foi longa e só teve trégua em 1979. Com a abertura política – lenta, gradual e restrita –, patrulheiros e patrulhados se aproximaram. Num seminário de arte, em Sergipe, chegaram a fazer as pazes. Henfil e Caetano ainda trocaram farpas pela imprensa por mais dois anos, mas acabaram desistindo da briga.

Fonte: Agência RBS
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