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Guia do Eleitor
Aula de política
A literatura na política

Os livros de História não são o único meio para se conhecer a trajetória política do Brasil. Os romances, contos, crônicas e poemas produzidos pelos escritores brasileiros compõem um painel sobre os principais acontecimentos da vida nacional quase tão fiel – e muito mais saboroso – quanto o traçado pelos historiadores. Relatos de eleições, sátiras sobre políticos, denúncias de corrupção e violência, caricaturas de governantes e críticas produzidas no calor dos fatos fazem da literatura brasileira um teatro no qual a vida política do Brasil é encenada na prosa mais engomada ou nos mais caprichados versos.

Na série que se inicia hoje, dentro da seção Aula de Política, ZH reproduz passagens sobre a política brasileira extraídas da obras de alguns dos mais expressivos nomes da literatura nacional.

Com seu hibridismo entre a literatura e o jornalismo, a crônica responde por alguns dos melhores textos políticos no panorama das letras brasileiras. A reputação do capixaba Rubem Braga (1913-1990) deve-se exclusivamente a suas incursões pelo gênero. Nascido em Cachoeiro do Itapemirim, cronista célebre pelo lirismo que imprimiu à prosa, não deixou de ser também um astuto observador dos acontecimentos políticos. No texto reproduzido a seguir, escrito em 1957, comenta a predileção do então presidente Juscelino Kubitschek pelas viagens. Com ironia, Braga insinua que o ocupante do Palácio do Planalto faz mais pelo país – ou atrapalha menos – preferindo o papel de atração em festas no Interior ao de administrador da nação.


O presidente voador

Olhem, para falar a verdade, eu acho bom essa coisa de viver o nosso presidente a esvoaçar para um lado e outro do Brasil. Não sei por que, mas anima o interior e conforta o país, esse presidente volante que sorri cada dia em um município, dá abraços, come seu frango ao molho pardo e angu, inaugura um troço qualquer, diz coisas otimistas. Na minha opinião isso só pode exaltar, como é uso dizer agora.

O Brasil já é de natural triste, com sua gente perdida pelas imensidões melancólicas, ficaria pior com um presidente casmurro e imóvel dentro do palácio. A oposição, que é mal-humorada por princípio, diz que assim o presidente não tem tempo para se concentrar no estudo de nossos problemas, não pode governar. Por mim, eu prefiro um presidente voando a dois na mão. Voando, ele é um anjo federal, que não faz mal a ninguém, obriga a festinhas com banda de música e champanha. Sempre sobram uns docinhos para as crianças.

Ah, eu fui criança no interior e jamais peguei sequer uma visita de presidente do Estado; lembro-me, entretanto, de minha alegria quando apareceu lá em Cachoeiro o secretário da Educação do Estado. Era o velho Ubaldo Ramalhete, alto, ereto, bem vestido. Foi a primeira personalidade que eu vi. E achei ótimo aquilo, os foguetes na estação, a formatura do Grupo Escolar e das escolas, nós todos ali, e banda de música, Hino Nacional, guaranás grátis, o prefeito, o juiz, todos os locais bem vestidos, cumprimentando, sorrindo, dizendo por favor, por obséquio, tenha a bondade, Vossa Excelência, todos felizes. E quando Sua Excelência falou de Cachoeiro de Itapemirim só disse coisas a nosso favor, senti-me importante pela importância de minha cidade, indubitavelmente ou inquestionavelmente (não me lembro mais, era um desses advérbios de modo assim bonitos, um advérbio de discurso) um grande centro progressista industrial e cultural, outros adjetivos em al, e uma alusão delicada ao sorriso e à graça da mulher cachoeirense. (...)

Por que roubar uma alegria tão grande às crianças humildes do interior do Brasil? E os senhores da oposição têm certeza de que seria melhor para o Brasil se o doutor Juscelino voasse menos e pensasse mais? Tenho minhas dúvidas.

Voai, presidente, voai!


A chapa de caixão

O voto de cabresto – aquele em que o eleitor é forçado a escolher um determinado candidato em troca de um benefício – tem longa tradição no país. Se hoje esse tipo de voto sobrevive como fruto do coronelismo ainda vigente em certas regiões, houve um tempo em que ele atingia também o funcionalismo público. Quem não votava no candidato oficial perdia o cargo, como revela o texto a seguir, no qual o político e escritor Joaquim Nabuco (1849-1910) narra um episódio ocorrido em uma das suas campanhas para eleger-se deputado pelo Partido Liberal, nos tempos do Segundo Reinado. Nabuco dedicou suas melhores energias à causa abolicionista, que o levou a ingressar na política e a concorrer em diversas eleições parlamentares. Em 1889, com a proclamação da República, o monarquista Nabuco abandonou a política.

Doía ver o quanto custava a essa gente crédula a sua política. Diversos desses episódios gravaram-se-me no coração. Uma vez, por exemplo, entrei na casa de um operário, empregado em um dos Arsenais, para pedir-lhe o voto. Chamava-se Jararaca, mas só tinha de temível o nome. Estava pronto a votar por mim, tinha simpatia pela causa, disse-me ele: mas, votando, era demitido, perdia o pão da família; tinha recebido a “chapa de caixão” (uma cédula marcada com um segundo nome, que servia de sinal), e, se ele não aparecesse na urna, sua sorte estava liquidada no mesmo instante. “Olhe, senhor doutor”, disse-me ele, mostrando-me quatro pequenos, que me olhavam com indiferença, na mais perfeita inconsciência de que se tratava deles mesmos, de quem no dia seguinte lhes daria de comer... E depois, voltando-se para uma criancinha, deitada sobre os buracos de um antigo canapé desmantelado: “Ainda em cima, minha mulher há dois meses achou essa criança diante da nossa porta, quase morrendo de fome, roída pelas formigas, e hoje é mais um filho que temos!” “No entanto, estou pronto a votar pelo senhor – recomeçava ele, cedendo a sua tentação liberal – se o senhor me trouxer um pedido do brigadeiro Floriano Peixoto.” Esse foi talvez o primeiro florianista do país... “Pode vir por telegrama... Ele está no engenho, nas Alagoas... E o que ele me pedir, custe o que custar, eu não deixo de fazer... Telegrafe a ele...” “Não, não é preciso, respondi-lhe, vote como quer o governo, não deixe de levar a sua ‘chapa de caixão’..., não arrisque à fome toda essa gentinha que está me olhando... Há de vir tempo em que o senhor poderá votar por mim livremente; até lá, é como se o tivesse feito... Não devo dar-lhe um pretexto para fazer o que quer, invocando a intervenção do seu protetor...” E saí, instando com a mulher, suplicando, com medo de que esse se arrependesse e votasse em mim.


Apelo

Durante a ditadura militar instaurada no país em 1964, era comum artistas serem presos por expressarem idéias contrárias ao regime. Compositores como Chico Buarque, Geraldo Vandré e Caetano Veloso são exemplos. Quando, em 1966, a doce Nara Leão (1942-1989), musa da bossa nova, lançou críticas aos militares, muitos temeram que tal ousadia teria como castigo uma temporada no cárcere. Entre eles estava o mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1989), que resolveu interceder com a melhor arma de que dispunha: a poesia. O apelo é dirigido diretamente ao presidente da época, o marechal Castelo Branco. E, mineiramente, Drummond desferiu sutis alfinetadas no regime. Ninguém ousou encarcerar Nara Leão.

Meu honrado marechal
dirigente da nação,
venho fazer-lhe um apelo:
não prenda Nara Leão (...)
A menina disse coisas
de causar estremeção?
Pois a voz de uma garota
abala a Revolução?
Narinha quis separar
o civil do capitão?
Em nossa ordem social
lançar desagregação?
Será que ela tem na fala,
mais do que charme, canhão?
Ou pensam que, pelo nome,
em vez de Nara, é leão? (...)
Que disse a mocinha, enfim,
De inspirado pelo Cão?
Que é pela paz e amor
e contra a destruição?
Deu seu palpite em política,
favorável à eleição
de um bom paisano – isso é crime,
acaso, de alta traição?
E depois, se não há preso
político, na ocasião,
por que fazer da menina
uma única exceção? (...)
Nara é pássaro, sabia?
E nem adianta prisão
para a voz que, pelos ares,
espalha sua canção.
Meu ilustre marechal
dirigente da nação,
não deixe, nem de brinquedo,
que prendam Nara Leão.

Fonte: Agência RBS

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