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Campanha da Legalidade I: Resistência fez da Matriz uma trincheira

A Praça da Matriz, em Porto Alegre, virou uma trincheira de guerra nos últimos dias de agosto de 1961. O presidente da República havia renunciado, os ministros militares queriam impedir a posse do vice, e o Rio Grande do Sul decidiu que não ficaria de braços cruzados. O então governador do Estado, Leonel Brizola, lançou discursos provocadores, criou comitês de resistência e ameaçou distribuir armas à população. Para garantir a nomeação de João Goulart, homens, mulheres e crianças marcharam pelas ruas da capital gaúcha.

No dia seguinte ao da renúncia de Jânio Quadros, começou a mobilização popular. No domingo, 27, uma multidão se concentrou em frente ao Piratini, na Praça da Matriz. Em dezenas de cidades do Interior, pipocaram comitês de alistamento. Garotos de 14 anos chegaram a se apresentar como voluntários para uma possível resistência armada.

As torres da Catedral Metropolitana viraram nichos de metralhadoras. Pilhas de sacos de areia e rolos de arame farpado transformaram a Praça da Matriz numa cidadela. Dentro do palácio, começava a distribuição de armas. Até o cozinheiro recebeu um revólver.

Más notícias vinham da capital federal. O ministro da Guerra, Odílio Denys, ordenou que tropas militares marchassem sobre o Piratini – “com o emprego da força e do bombardeio pela Aviação, se necessário”. O Rio Grande que se calasse.

No mesmo dia, segunda-feira, 28, Brizola requisitou o equipamento da Rádio Guaíba, a única da Capital que não tivera seus transmissores confiscados pelo 3º Exército. Nos porões do palácio, foi improvisado um estúdio. Estava no ar a Rede da Legalidade.

O jornalista Hamilton Chaves e o engenheiro Homero Simon trabalharam para que pequenas emissoras do Estado retransmitissem a campanha. Logo, as ondas curtas alcançariam outros Estados. Brizola faria um discurso emocionado:

    – Não pretendemos nos submeter. Que nos esmaguem. Que nos destruam. Que nos chacinem.

O governador gaúcho pediu que as escolas fossem fechadas e as crianças mantidas em casa. Também recomendou ao povo que se concentrava na Praça da Matriz que se afastasse daquela área.

Nada feito. Uma multidão – que o próprio Brizola calcularia mais tarde em cem mil pessoas – não arredou da praça. Mais gente rumou para lá

    – Mulheres do povo com os filhos ao colo, jovens e velhos subiam às pressas a Rua General Câmara (ou Rua da Ladeira, como era mais conhecida) dispostos a resistir e morrer com o governador do Rio Grande – lembraria tempos depois o jornalista Adaucto Vasconcellos, então repórter do diário Última Hora.

Da outra ponta da praça, avançava o general Machado Lopes e um grupo de oficiais do 3º Exército.

Fonte: Agência RBS
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