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Guia do Eleitor
Aula de política
Jânio Quadros deixou o Brasil sem explicação

O professor de português Jânio da Silva Quadros escreveu um dos capítulos mais extravagantes da história da política nacional. Empossado na Presidência da República, na esteira de uma bem-sucedida campanha eleitoral, ele renunciou misteriosamente apenas sete meses depois, em 25 de agosto de 1961. Na definição de um ex-prefeito de São Paulo, o brigadeiro Faria Lima, Jânio “deu um salto mas esqueceu de colocar a rede”. O próprio ex-presidente nunca se preocupou em esclarecer o porquê de sua decisão. No bilhete de renúncia, disse que era pressionado por “forças terríveis”. Tempos mais tarde, tripudiou:

– Fi-lo porque qui-lo.

Mais adiante, negou que tivesse proferido tal frase e chegou a corrigir a gramática:

– Fi-lo porque o quis.

Hoje, a tese mais aceita entre historiadores e cientistas políticos é a de que Jânio Quadros esperava fortalecer o seu poder. Segundo essa versão, o presidente não acreditava que dariam posse a seu vice, João Goulart, que estava em visita à China comunista. O Congresso não aceitaria a renúncia, uma movimentação popular garantiria a sustentação do renunciante e ele ficaria com poderes mais amplos para governar.

A versão de Jânio foi enterrada com ele, em fevereiro de 1992. O ex-presidente morreu aos 75 anos, vítima de uma infecção pulmonar. Vinha amargando problemas de saúde havia três anos, desde que sofrera seu primeiro derrame.

Jânio fez fama como autoritário, personalista e antidemocrático. Começou na vida pública como vereador e passou por praticamente todos os cargos eletivos. Foi deputado estadual, deputado federal, prefeito, governador e presidente da República. Na campanha presidencial, tinha como símbolo uma vassoura, com a qual prometia “limpar” o governo. Nos comícios, encantava as massas com uma imagem populista: exibia fartos flocos de caspa pelos ombros, sofria desmaios de fome e se recuperava devorando sanduíches de mortadela retirados do bolso.

Acabou eleito pela aliança PTB-UDN, com quase 6 milhões de votos – uma vitória esmagadora sobre o general e ex-ministro Henrique Lott, segundo mais votado. Empossado, o homem da vassoura tomou medidas inusitadas, sempre despachadas em bilhetinhos: proibiu o uso de maiôs em concursos de beleza, restringiu as corridas de cavalos aos domingos, combateu as rinhas de galos, decretou a ilegalidade das rifas e dos bingos, pregou contra o hipnotismo e determinou que os trajes do tipo safári seriam uniforme em repartições públicas.

Cassado pela ditadura pós-64, o político nascido em Campo Grande (MS) chegou a elogiar os militares. Voltou à cena política em 1985, ao se eleger prefeito de São Paulo. Ao tomar posse, fez questão de desinfetar a cadeira na qual, durante a campanha, certo de sua vitória, havia sentado e posado para fotografias o candidato do PSDB, Fernando Henrique Cardoso.

Fonte: Agência RBS

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