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As greves que ensinaram o país a vencer o medo
Começou como uma rotineira e localizada reivindicação de aumento salarial na fábrica Saab-Scania, uma das dezenas no triângulo compreendido entre as cidades operárias de Santo André, São Bernardo e São Caetano, em São Paulo. Terminou como o primeiro movimento organizado de trabalhadores capaz de abalar o regime militar implantado em 1964. Depois das greves na região do ABC paulista, o Brasil nunca mais foi o mesmo. O país aprendeu a não bater continência guiado pelo medo. O movimento redesenhou o cenário político, a partir do surgimento do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1979, e teve grande influência na redemocratização. Milhares de trabalhadores cruzaram os braços quando greve dava cadeia e a tortura pairava como uma sombra no país. Foi há 20 anos.
O período de terror do governo Emílio Garrastazu Médici já tinha terminado – entre 1970 e 1974 desapareceram, sem deixar rastro, centenas de opositores do regime –, mas o trauma das atrocidades cometidas nos porões ainda assombrava a alma nacional. Fazer greve, portanto, era um gesto um tanto corajoso. Primeiro, no dia 12 de maio de 1978, foram algumas centenas de trabalhadores da Saab-Scania. Três dias depois, mais 3 mil da Ford repetiram o gesto. No dia 16, Mercedes-Benz e Volkswagen. Ao final de uma semana, 50 mil brasileiros cruzavam os braços jurando só voltar ao trabalho com o atendimento de reivindicações que extrapolavam questões salariais e avançavam no terreno político.
O regime – antes de ser abalado pelo movimento que fez emergir Luiz Inácio Lula da Silva – tentou revidar. A Delegacia Regional do Trabalho (DRT) declarou a greve ilegal e definiu uma série de punições para quem não voltasse à linha de montagem. Lula foi preso, junto com dezenas de trabalhadores. Houve protestos reprimidos a cassetete e bombas de gás lacrimogêneo. Mas a força do movimento impressionava. Ninguém se atreveu a encostar o dedo em nenhum detido, todos libertados depois de interrogatório. A Polícia proibiu assembléias no Estádio da Vila Euclides. Fez o mesmo na Praça da Matriz. E na Igreja. Não adiantava proibir, as assembléias iam mudando de lugar, sempre com milhares de pessoas. Os empresários preferiram atender aos grevistas: pela primeira vez desde 1968, patrões e empregados sentaram-se à mesa e negociaram. Não houve punições. Era a vitória do movimento.
A retomada do diálogo adquiriu um significado maior do que os 20% exigidos pelos trabalhadores da Saab-Scania. Dezenas de acordos fechados em várias fábricas, ao final de julho, beneficiaram 280 mil empregados. Os índices de aumento não foram atendidos. O valor ficou em segundo plano. O fato a ser comemorado era a organização de uma categoria, agora capaz de negociar com os patrões sem a interferência do Estado e de se agrupar em torno de um partido.
E de fazer a ditadura balançar.
Fonte: Agência RBS | |
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