Graciliano Ramos
Muitos escritores imprimiram a suas obras literárias conotações políticas. O alagoano Graciliano Ramos (1892-1953), maior expoente do chamado Romance de 30, fez o caminho inverso: transformou a mais árida política em literatura. Prefeito de Palmeira dos Índios de 1928 a 1930, redigiu as mais bem-escritas prestações de contas de que se tem notícia. Um editor do Rio de Janeiro, em cujas mãos caiu um desses relatórios do obscuro alcaide, enviou-lhe um recado: “Mande o livro que você tem guardado na gaveta”. E, de fato, a intuição do editor não o enganava. Graciliano concluía então seu primeiro romance, Caetés, que viria a público em 1933.
O romancista saiu-se na política quase tão bem quanto na literatura. A atenção que deu à educação quando prefeito rendeu-lhe o convite para assumir a direção da Instrução Pública de Alagoas. No cargo, revolucionou os métodos de ensino utilizados no Estado. Zero Hora reproduz nesta página um dos relatórios do prefeito Graciliano.
Graciliano Ramos
Relatório ao sr. governador Álvaro Paes
Receita – 96:924$985
No orçamento do ano passado houve supressão de várias taxas que existiam em 1928. A receita, entretanto, calculada em 68:850$000, atingiu 96:924$985.
E não empreguei rigores excessivos. Fiz apenas isto: extingui favores largamente concedidos a pessoas que não precisavam deles e pus termo às extorsões que afligiam os matutos de pequeno valor, ordinariamente raspados, escorchados, esbrugados pelos exatores. (...)
Administração – 22:667$748
Figuram 7:034$558 despendidos com a cobrança das rendas, 3:518$000 com a fiscalização e 2:400$000 pagos a um funcionário aposentado. Tenho seis cobradores, dois fiscais e um secretário.
Todos são mal remunerados. (...)
Cemitério – 243$000
Pensei em construir um novo cemitério, pois o que temos dentro em pouco será insuficiente, mas os trabalhos a que me aventurei, necessários aos vivos, não me permitiram a execução de uma obra, embora útil, prorrogável. Os mortos esperarão mais algum tempo. São os munícipes que não reclamam.
Iluminação – 7:800$000
A prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser o negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá. (...)
Instrução – 2:886$180
Instituíram-se escolas em três aldeias: Serra da Mandioca, Anum e Canafístula. (...) Presumo que esses estabelecimentos são de eficiência contestável. As aspirantes a professoras revelaram, com admirável unanimidade, uma lastimosa ignorância. Escolhidas algumas delas, as escolas entraram a funcionar regularmente, como as outras.
Não creio que os alunos aprendam ali grande coisa. (...)
Miudezas
Não pretendo levar ao público a idéia de que os meus empreendimentos tenham vulto. Sei perfeitamente que são miuçalhas. Mas afinal existem. E, comparados a outros ainda menores, demonstram que aqui pelo interior podem tentar-se coisas um pouco diferentes dessas invisíveis sem grande esforço de imaginação ou microscópio.
Quando iniciei a rodovia de Sant’Ana, a opinião de alguns munícipes era de que ela não prestava porque estava boa demais. Como se eles não a merecessem. E argumentavam. Se aquilo não era péssimo, com certeza sairia caro, não poderia ser executado pelo município. (...)
Projetos
Tenho vários, de execução duvidosa. Poderei concorrer para o aumento da produção e, conseqüentemente, da arrecadação. (...) Iniciarei, se houver recursos, trabalhos urbanos. (...)
Empedrarei, se puder, algumas ruas.
Tenho também a idéia de iniciar a construção de açudes na zona sertaneja.
Mas para que semear promessas que não sei se darão frutos? Relatarei com pormenores os planos a que me referia quando eles estiverem executados, se isto acontecer.
Ficarei, porém, satisfeito se levar ao fim as obras que encetei. É uma pretensão moderada, realizável. Se não realizar, o prejuízo não será grande.
O município, que esperou dois anos, espera mais um. Mete na prefeitura um sujeito hábil e vinga-se dizendo de mim cobras e lagartos.
Fonte: Agência RBS |