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A eleição difícil de esquecer
Difícil, difícil mesmo, imaginar outra eleição como a de 1989. Ah, 1989. Há a emoção do primeiro sutiã, do primeiro amor, do primeiro beijo, do primeiro jogo de futebol com fardamento na escola, do primeiro batom. E há, como não, o primeiro voto. Foi este o sentimento que embalou a primeira campanha presidencial depois de 29 anos sem eleição direta para presidente. Uma geração inteira experimentou o sabor de empunhar a bandeira do seu candidato, de gritar no comício no centro da cidade e depois discutir política bebendo um chope. Os jingles eram mais cantarolados do que aquela canção do Roberto. Há 11 anos.
Fernando Collor (PRN) era o governador de Alagoas. Apareceu dizendo que acabaria com os marajás, que era o candidato dos descamisados, que isso e que aquilo. Ancorado numa campanha milionária, virou fenômeno eleitoral. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Leonel Brizola (PDT) se engalfinharam na briga pela outra vaga no segundo turno. Brizola ignorou São Paulo, o maior eleitorado brasileiro, e apostou tudo no Rio e no Rio Grande do Sul, onde fez quase 80% dos votos. Em São Paulo, fez 2%. Lula teve resultados medianos em todo o país e venceu. Nenhum analista arriscaria, meses antes, os candidatos da reta final: Collor e Lula.
Na disputa entre os dois, o horário gratuito mostrou que os comícios viraram acessórios. O palco, agora, era a TV. Graças aos programas, o PT encostou em Collor nas pesquisas. A cada dia, um novo lance. Lula reuniu um número impressionante de artistas para cantar o “Lula-Lá”. Parecia uma jogada fulminante ver Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil pedindo votos. No dia seguinte, a resposta de Collor: juntou pedreiros, padeiros, mecânicos, operários e pôs todos a cantar. Em vez do nome, o rosto na tela era identificado como “um brasileiro”.
No final, quando as pesquisas mostravam o crescimento da candidatura Lula, Collor levou Mirian Cordeiro, ex-namorada do petista, à TV. Ela acusou Lula de pressioná-la a fazer aborto quando engravidou de Lurian, na década de 70. No dia seguinte, Lula apareceu chorando no horário eleitoral, abraçado à filha em questão. Depois, veio o último debate na TV. Visivelmente acossado, Lula saiu-se mal.
Em 1989, houve ainda o fracasso de Ulysses Guimarães (PMDB). A ascensão e queda em menos de um mês de Guilherme Afif Domingos (PL). As maluquices de Ronaldo Caiado (PSD, hoje PFL), líder da UDR, montado num cavalo branco, com complexo de Napoleão Bonaparte. O bordão “Meu nome é Enéas!”, do Prona, fez o país rir e, 11 anos depois está no ar outra vez. Os candidatos nanicos (Marronzinho, PG, Pedreira, Nívea) são lembrados até hoje como humoristas. Até os nanicos são lembrados.
Enfim, a primeira eleição direta a gente nunca esquece.
| Quem concorreu |
| Candidatos nas eleições de 1989 e a votação de cada um: |
| Fernando Collor (PRN) | 20.611.011 (28,53%) |
| Lula (PT) | 11.622.673 (16,08%) |
| Leonel Brizola (PDT) | 11.168.228 (15,45%) |
| Mário Covas (PSDB) | 7.790.392 (10,78%) |
| Paulo Maluf (PDS) | 5.986.575 (8,28%) |
| Afif Domingos (PL) | 3.272.462 (4,53%) |
| Ulysses Guimarães (PMDB) | 3.204.932 (4,43%) |
| Roberto Freire(PCB) | 769.123 (1,06%) |
| Aureliano Chaves (PFL) | 600.838 (0,83%) |
| Ronaldo Caiado (PSD) | 488.846 (0,68%) |
| Segundo Turno |
| Fernando Collor | 35.089.998 (42,75%) |
| Lula | 31.076.364 (37,86%) |
Fonte: Agência RBS | |
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