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Guia do Eleitor
Aula de política
Lima Barreto

Negro, pobre e inconformado, Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) foi o escritor que retratou com maior ferocidade os primeiros anos de República no Brasil. Vítima do preconceito racial e do desprezo da elite da época, renovou a literatura brasileira ao tomar como personagens os habitantes dos subúrbios cariocas. O texto abaixo, extraído de sua obra-prima, o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, é um exemplo da sua habilidade como caricaturista dos poderosos da época.

A vítima é o marechal Floriano Peixoto, presidente do País entre 1891 e 1894. No trecho reproduzido, o nacionalista major Quaresma vai ao palácio do governo para manifestar seu apoio a Floriano, que enfrentava a Revolta da Armada – rebelião de setores da Marinha ocorrida em 1892. Leva consigo um memorial contendo as medidas necessárias para o “levantamento da agricultura” nacional.

Trecho do livro Triste fim de Policarpo Quaresma:

O palácio tinha um ar de intimidade, de quase relaxamento, representativo e eloqüente. (...) Tudo nele era desleixo e moleza.(...) Ficara Quaresma a um canto vendo entrar um e outro, à espera que o presidente o chamasse. Era cedo, pouco devia faltar para o meio-dia, e Floriano tinha ainda, como sinal do almoço, o palito na boca. (...)

     – Então, Quaresma? – fez ele familiarmente.

O major ia aproximar-se, mas logo estacou no lugar em que estava. Uma chusma de oficiais subalternos e cadetes cercou o ditador e a sua atenção convergiu para eles. (...) Quaresma pôde então ver melhor a fisionomia do homem (...). Era vulgar e desoladora. O bigode caído; o lábio inferior pendente e mole a que se agarrava uma grande “mosca”, os traços flácidos e grosseiros; não havia nem o desenho do queixo ou olhar que fosse próprio, que revelasse algum dote superior. (...)

Com uma ausência total de qualidades intelectuais, havia no caráter do marechal Floriano uma qualidade predominante: tibieza de ânimo, e, no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça comum, essa preguiça de nós todos; era uma preguiça mórbida, como que uma pobreza de irrigação nervosa, provinda de uma insuficiente quantidade de fluido no seu organismo. (...)

Dessa sua preguiça de pensar e de agir, vinha o seu mutismo, os seus misteriosos monossílabos, levados à altura de ditos sibilinos, as famosas “encruzilhadas dos talvezes”, que tanto reagiram sobre a inteligência e imaginação nacionais, mendigas de heróis e grandes homens. (...)

A sua preguiça, a sua tibieza de ânimo e o seu amor fervoroso pelo lar deram em resultado esse “homem-talvez” que, refratado nas necessidades mentais e sociais dos homens do tempo, foi transformado em estadista (...), despertando até entusiasmo e fanatismo. (...)

O presidente, porém, ficara só e Quaresma avançou.

     – Então, Quaresma? – fez Floriano.

     – Venho oferecer a Vossa Excelência os meus fracos préstimos. (...)

     O presidente considerou um instante aquela pequenez de homem, sorriu com dificuldade, mas, levemente, com um pouco de satisfação:

     – Agradeço-te muito... Onde tens andado? Sei que deixaste o arsenal. (...)

Quaresma explicou-lhe a sua vida e aproveitou a ocasião para lhe falar em leis agrárias, medidas tendentes a desafogar e dar novas bases à nossa vida agrícola. O marechal ouviu-o distraído, com uma dobra de aborrecimento no canto dos lábios:

     – Trazia a Vossa Excelência até este memorial...

O presidente teve um gesto de mau humor, um quase “não me amole” e disse com preguiça a Quaresma:

     – Deixa aí...

Depositou o manuscrito sobre a mesa e logo o ditador dirigiu-se ao interlocutor de ainda agora:

     – Que há, Bustamante? E o batalhão, vai? (...)

     – Vai bem, marechal. Precisamos de um quartel! (...)

     – É exato. Fala ao Rufino em meu nome que ele pode arranjar... Ou antes: leva-lhe este bilhete.

Rasgou um pedaço de uma das primeiras páginas do manuscrito de Quaresma, e assim mesmo, sobre aquele ponta de papel, a lápis azul, escreveu algumas palavras ao seu ministro da Guerra.

Fonte: Agência RBS

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