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Amaro Juvenal
O poema Antonio Chimango, escrito por Amaro Juvenal, narra em versos a trajetória de um jovem desajeitado, burro e subserviente, acolhido por piedade pelo padrinho estancieiro, o Coronel Prates. Apesar de ser um incapaz, Antonio Chimango é escolhido pelo padrinho para ser o capataz de sua propriedade, a Estância de São Pedro. A intenção do coronel é colocar no comando da fazenda uma pessoa obediente e sem iniciativa, para continuar governando. Com a morte do coronel, Chimango leva a fazenda à bancarrota.
Por trás desse enredo prosaico, esconde-se uma das mais brilhantes sátiras políticas já produzidas no país. Amaro Juvenal é, na realidade, pseudônimo do político gaúcho Ramiro Barcelos (1851-1916). No poema publicado em 1915, ele transforma o Rio Grande do Sul na Estância de São Pedro para ridicularizar o então presidente do Estado, Antônio Augusto Borges de Medeiros, transfigurado em Antonio Chimango. O Coronel Prates não é outro senão o presidente anterior, Júlio de Castilhos.
Para compreender o poema, é preciso conhecer um pouco da política da época. Ao deixar o governo gaúcho, em 1898, Castilhos escolhe para suceder-lhe Borges de Medeiros. Com Borges sob suas rédeas, Castilhos continua, porém, sendo o mandachuva do Estado até sua morte, em 1903. Morto o chefe, Borges torna-se o principal líder gaúcho, boicota Ramiro e se perpetua no poder por quatro mandatos seguidos, por meio de eleições suspeitíssimas.
C’o tempo o coronel Prates
Se foi sentindo pesado;
Tinha muito trabalhado
Naquela vida campestre,
Onde ele, com mão de mestre,
Tinha tudo preparado.
Um dia chamou o Chimango
E disse: “Escuta, rapaz,
Vais ser o meu capataz;
Mas, tem uma condição:
As rédeas na minha mão,
Governando por detrás.
(...)
Sei que tu és maturrango,
Porém, dou-te a preferência.
Nisto está minha ciência,
Escolhendo-te entre os outros;
Eles sabem domar potros,
Mas, tu tens a obediência.
(...)
Então chamou o Aureliano,
Pardo velho muito antigo,
Que conservava consigo
Assim como secretário;
Espécie de relicário
De família, muito amigo.
“Tu, que és um conhecedor
De como tudo se faz,
Ensina-me a esse rapaz
As manhas de governar,
Que ele vai desempenhar
O cargo de capataz.”
(...)
À sombra de uma figueira
Sentados num cabeçalho,
O Aureliano, sem atalho,
Disse: “Agora, meu menino,
Eu te vou dar o ensino
Do que aprendi no trabalho.
(...)
Quando um erro cometeres
(O que bem se pode dar)
Não deves ignorar
Como se sai da rascada:
A culpa é da peonada;
O patrão não pode errar.
Quando vires um peão,
Mesmo o melhor no serviço,
Ir pretendendo por isso
Adquirir importância...
Bota pra fora da Estância,
Mas, sem fazer rebuliço.”
(...)
Um dia..., ansim de repente,
Esta notícia correu:
– O coronel Prates morreu!
(...)
Pobre Estância de São Pedro
Que tanta fama gozaste!
Como assim te transformaste
Dentro de tão poucos anos,
De destinos tão tiranos
Não há ninguém que te afaste!
(...)
Na mão do triste Chimango
O arvoredo está no mato;
O gado... é só carrapato;
O campo... cheio de praga.
Tudo depressa se estraga,
No poder de um insensato.
(...)
E ansim, tudo na Estância
Vai mermando devagar,
Tudo de pernas pra o ar,
Nem tem mais vergonha a gente;
Mas, o Chimango... contente
Que é coisa de admirar!
Fonte: Agência RBS | |
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