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Luiz Inácio Lula da Silva
O caminho de 22 anos que levou o PT à Presidência

Foto: Reuters
A bandeira é uma das principais armas dos militantes petistas
 
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A conquista da Presidência da República simboliza a vitória trajetória incomum que o Partido dos Trabalhadores tem reaçado na história política brasileira ao longo dos últimos 22 anos. Pouco mais de duas décadas depois de sua fundação, o partido surgido das greves do final dos anos 1970 levou um ex-sindicalista ao Palácio do Planalto com com votação recorde.

Luiz Inácio Lula da Silva, um dos fundadores do PT e seu presidente de honra, sucede o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, ao lado de quem esteve na luta contra a ditadura militar, obteve nas urnas mais de 50 milhões de votos.

Muita coisa mudou nos 22 anos que separam a criação oficial do PT até a vitoriosa campanha deste ano. O discurso do PT foi suavizado, em um processo que, de certa forma, acompanhou as transformações do país e do mundo, mas num ritmo próprio. O atual "PT Light", do "Lulinha paz e amor", é o mesmo que em suas primeiras eleições, em 1982, pedia "vote no três que o resto é burguês" (o número do partido ainda não era o 13) - slogan hoje readaptado pelo PSTU, de extrema-esquerda, como "contra burguês vote 16".

O País, por outro lado, viu o fim formal do regime militar em 1985, com a posse do primeiro presidente civil desde 1964, e da hiperinflação quase dez anos depois. No exterior, o Muro de Berlim caiu em 1989 e dois anos depois a União Soviética se autodissolveu, acabando com mais de quatro décadas de Guerra Fria e com o confronto político-econômico entre o capitalismo e o socialismo.

A semente da criação de um novo partido que representasse os trabalhadores surgiu a partir das greves dos metalúrgicos em 1978. A idéia ganhou corpo no ano seguinte, embalado por mais greves e pela perspectiva de reforma partidária que abriria espaço para a criação de novas siglas.

Entre os líderes sindicais que mais trabalharam para a criação do PT, além de Lula, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, estavam o atual governador do Rio Grande do Sul e então presidente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, Olívio Dutra, e o presidente do Sindicato dos Petroleiros de Campinas e posteriormente prefeito da cidade, Jacob Bittar.

O ato de fundação envolveu também importantes intelectuais e tradicionais militantes de esquerda, como o crítico de arte Mario Pedrosa e o historiador Sérgio Buarque de Holanda. O novo partido englobava ainda grupos católicos com atuação social, especialmente nas Comunidades Eclesiais de Base, e partidos e movimentos então ilegais de esquerda, com tendências trotskistas e leninistas. Naqueles primeiros anos, não eram poucos os integrantes do PT que viam no jogo eleitoral algo desnecessário no objetivo de conquista do poder.

Crescimento constante

Os resultados do pleito de 1982 pareceram dar razão a esses setores. A eleição de apenas oito deputados federais, ou 1,7% das cadeiras da Câmara, 12 deputados estaduais e dois prefeitos - nenhum senador ou governador - não foi exatamente animadora. Mas o partido nunca abriu mão de participar dos pleitos, e a insistência no jogo eleitoral acabou dando frutos. Elegeu seu primeiro prefeito de capital em 1985, senador em 1990 e governadores em 1994.

Este ano, o partido conseguiu seu melhor desempenho já no primeiro turno. Foram eleitos 91 deputados federais, a maior bancada da Câmara, 147 deputados estaduais, também o maior número nos Legislativos estaduais e 10 senadores.

Rumo ao Centro

As transformações que atingiram o PT desde sua fundação atingiram também o perfil de sua composição. Um exemplo disso pode ser visto na composição da primeira comissão provisória. De seus 16 membros, 12 eram sindicalistas. Oito anos depois, dos 20 membros efetivos da Comissão Executiva Nacional, apenas 10 eram sindicalistas, e desses, somente quatro de origem operária.

Hoje, entre as atuais estrelas petistas estão advogados, como seu presidente, o deputado José Dirceu, economistas, como os senadores eleitos por São Paulo, Aloizio Mercadante, e pelo Distrito Federal, Cristovam Buarque, e psicanalistas, como a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy.

Embora alguns grupos radicais de esquerda tenham deixado o PT para formarem seus próprios partidos, como o PSTU e o PCO, vários deles seguem na legenda, representando cerca de um terço dos militantes. De qualquer modo, Lula e Dirceu, da corrente majoritária Articulação, conseguiram imprimir uma mudança em direção ao centro nos últimos anos, resultado do passar do tempo e das derrotas e vitórias eleitorais.

Do PT que via na construção do socialismo um de seus principais objetivos, que defendia a moratória da dívida externa e o rompimento com o FMI - que expulsou deputados por terem votado em Tancredo Neves pelo fato de o partido ser contrário às eleições indiretas - pouco ou quase nada restou.

É verdade que a hoje tão propalada responsabilidade fiscal na administração pública sempre foi uma marca do partido, como visto em várias prefeituras administradas pelo PT. Não foi isso que mudou. O PT defende agora o cumprimento dos contratos e o pagamento das dívidas e as negociações com o Fundo Monetário Internacional, para ficar apenas em alguns exemplos.

Para aqueles que vêem essa mudança como algo meramente eleitoral, analistas contrapõem dois argumentos: ela já que vem ocorrendo há alguns anos e repete movimento semelhante dos partidos de esquerda no mundo inteiro, cujos exemplos mais conhecidos são os dos partidos Trabalhista britânico e Social-Democrata alemão.

"A moderação é um movimento que o PT vem fazendo já há algum tempo em direção ao centro, incorporando outras classes sociais, a classe média, os profissionais liberais", argumenta Francisco Fonseca, cientista político da PUC-SP e FGV. "Isso é claramente percebido em diversas prefeituras e governos do Estado petistas. Não é apenas discurso."

Há anos o economista e deputado Delfim Netto, ministro em vários dos governos militares, tem dito que o destino histórico do PT era deixar de lado seu perfil socialista e se transformar em um grande partido social-democrata. As eleições deste ano podem significar o marco de inflexão nesta direção.

Redação Terra




 
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