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 Plínio abrirá debates em Belém sobre a Amazônia e as eleições
12 de julho de 2010 14h40 atualizado às 14h46

Adalberto Veríssimo será o moderador dos debates organizados pelo Fórum Amazônia Sustentável. Foto: Divulgação

Adalberto Veríssimo será o moderador dos debates organizados pelo Fórum Amazônia Sustentável
Foto: Divulgação

Altino Machado
Direto de Rio Branco

O candidato à presidência da República Plínio de Arruda Sampaio (Psol) abrirá nesta terça-feira (13), das 16 às 18h, no auditório do edifício Metropolitan Tower, em Belém (PA), uma série de debates sobre Amazônia e as Eleições 2010, organizada pelo Fórum Amazônia Sustentável.

Fundado em Belém, em 2007, o Fórum Amazônia Sustentável se propõe a mobilizar lideranças de diversos segmentos sociais para promover diálogo, cooperação e articulação visando uma Amazônia mais justa e sustentável.

O pesquisador Adalberto Veríssimo, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e membro da Comissão Executiva do Fórum será o moderador dos debates. Em entrevista ao Terra, ele mencionou o seguinte cálculo do Instituto Mackenzie: se a Amazônia saísse da economia de alta emissão de carbono para uma economia de baixo carbono, teria que investir nos próximos 20 anos, em média, por ano, R$ 17 bilhões em ciência, tecnologia, assistência técnica, ordenamento fundiário e estruturas e serviços das cidades.

"Que fique claro que isso não significaria transformar a Amazônia numa Suíça, mas sair de um patamar de indicadores sofríveis, nivelados aos da África até, para um patamar mais compatível com o País, na potência que o Brasil já é hoje. Não dá para fazer essa transição sem dinheiro e sem visão política estratégica", afirmou Veríssimo.

O evento terá transmissão ao vivo pela internet e os internautas também poderão enviar perguntas. O próximo debate, previsto para agosto, será com Marina Silva (PV). José Serra (PSDB) tem interesse em participar, mas ainda não confirmou oficialmente a data.

A única incerteza envolve a presidenciável Dilma Rousseff (PT). Os organizadores do evento não receberam até agora nenhum sinal concreto de que ela participará do debate.

"Mas a gente espera que também venha. Sendo ela uma candidata do PT, apoiada por Lula, deveria estar presente no debate. Estamos tentando sensibilizar as pessoas do entorno dela para que compareça. Na verdade não é um debate, mas um encontro com os presidenciáveis, que terão um ambiente muito civilizado para se manifestarem. Não é um espaço panfletário ou palanque. Somos teimosos e vamos torcer pela presença dela até o fim".

Confira a entrevista com Adalberto Veríssimo, ex-consultor do Banco Mundial e autor de dezenas de livros e artigos sobre a Amazônia.

Terra - Está sendo difícil incluir a Amazônia na pauta da eleição presidencial?
Adalberto Veríssimo - Já havíamos tentado, na primeira eleição do Lula, abrir um debate sobre a Amazônia, mas não houve interesse dos candidatos. Acho que agora o contexto mudou. A Amazônia corresponde a 70% do território nacional, tem uma importância ambiental e estratégica. Ela é província hoje de energia, biodiversidade, serviços ambientais. É uma pauta dada já.

Terra - O que mais contribuiu para que a região esteja situada num horizonte melhor?
Veríssimo - Quando a gente olha a questão da conta de carbono que o Brasil tem, pois é hoje o quarto ou quinto maior emissor de gases do efeito estufa, essa posição é dada pelo desmatamento da Amazônia. Se o Brasil zerasse o desmatamento na Amazônia e também no cerrado, cairia para a décima quinta colocação. Essa posição não é uma posição desejada, embora o desmatamento tenha caído nos últimos anos. Mesmo assim, o que a gente desmata ainda é muito e nos deixa em posição vexatória.

O Brasil já assumiu compromissos de redução das emissões para 2020. A sua curva de emissão vai ser menor do que seria se nada fosse feito. O fato de o Brasil assumir um compromisso ousado, pois o País sempre recusou assumir metas de redução de gases do efeito estufa, foi baseado basicamente no comportamento que terá que ter em relação à Amazônia. O presidente Lula assumiu o compromisso de redução do desmatamento em 80% até 2020. Isso só vai acontecer quando o Brasil conseguir controlar o desmatamento e trazê-lo para taxas muito reduzidas. Ele não conseguirá fazer isso nesta década se ele não investir na Amazônia. Para alcançar taxas civilizadas de desatento, não basta só a repressão ou comando de controle, que chegou num teto. O Brasil agora precisa ter agenda econômica, agenda de desenvolvimento para a região, em substituição a esta que está morrendo, de pecuária extensiva, exploração predatória de madeira, agricultura de corte e queima. Isso precisa ser substituído por uma agropecuária moderna, intensificada, que só usa áreas abertas, uma indústria de madeira manejada e que agrega valor, reflorescimento, mineração que faça uma contribuição efetiva para o desenvolvimento regional e não a velha mineração.

Os grande projetos de estrutura, de energia, precisam lidar com essas novas demandas, isto é, de gerar infraestrutura na Amazônia sem desmatar. Isso coloca uma pressão muito grande sobre as políticas públicas. Como é o governo que tem o caixa, que define as macro-políticas, esta eleição tem um significado muito importante para a Amazônia. O Brasil está se comprometendo com muita coisa no cenário internacional que só consegue cumprir com a Amazônia.

Terra - Embora seja um entusiasta do desenvolvimento sustentável, você costuma reconhecer que a economia rural na Amazônia não decolou até agora.
Veríssimo - Existe a Amazônia 1.0, que foi a Amazônia do velho extrativismo, cujo ciclo acabou mais ou menos no final dos anos 50, início dos anos 60. Existe a Amazônia 2.0, que foi a do dinheiro público financiando o processo de ocupação. A gente ainda colhe frutos podres desse período. Temos que inaugurar uma nova economia, que não pode ser baseada apenas na economia de recursos naturais rural. Vamos precisar ter dinamismo econômico nas cidades, indústria de serviços. Se a gente olhar a Amazônia após 2020, a gente vai precisar agregar valor muito maior à produção que temos hoje.

Estou falando na verdade de uma transição. O debate que a gente está propondo é olhando essas eleições, que nos dará um presidente até 2014. A partir disso, a gente consegue visualizar que essa geração política está assumindo até 2020. E ela está muito baseada na redução do desmatamento e pra isso teremos que ter uma agenda que compensaria o desenvolvimento regional. Teremos que investir na Amazônia. O Instituto Mackenzie fez o seguinte cálculo: se a gente saísse da economia de alta emissão de carbono para para uma economia de baixo carbono, nesses próximos 20 anos, a gente teria que investir na Amazônia, em média, por ano, R$ 17 bilhões em ciência, tecnologia, assistência técnica, ordenamento fundiário que permita investir no bom uso da terra e melhor estruturas e serviços das cidades. Que fique claro que isso não significaria transformar a Amazônia numa Suíça, mas sair de um patamar de indicadores sofríveis, nivelados aos da África até, para um patamar mais compatível com o País, na potência que o Brasil já é hoje. Não dá para fazer essa transição sem dinheiro e sem visão política estratégica.

Terra - O que vocês esperam mesmo com esse debate sobre a Amazônia?
Veríssimo - Todos reconhecem que essa velha economia já está ultrapassada e que a gente precisa de uma outra economia, precisa nivelar os indicadores sócio-ambientais, reduzir drasticamente o desmatamento e a degradação e integrar a região à economia do século 21. Ela é super importante para o País. É provedora de chuva, de energia, de matéria prima... Queremos saber dos quatro candidatos que visão eles têm da Amazônia e qual o compromisso que cada um vai lanças nestas eleições.

Terra - Quem já aceitou participar dos debates?
Veríssimo - O debate com Plínio de Arruda Sampaio será nesta terça-feira (13). A candidata Marina já aceitou participar em agosto e as conversas estão adiantas com José Serra, cuja assessoria tem nos indicado que ele virá também, embora não tenha comunicado isso oficialmente.

Terra - E a candidata Dilma Rousseff?
Veríssimo - Em relação a ela não temos nenhuma manifestação muito concreta de que venha. Mas a gente espera que também venha porque boa parte desses compromissos mencionados até aqui foram assumidos pelo PT, pelo governo Lula. Sendo ela uma candidata do PT, apoiada por Lula, deveria estar presente no debate. Estamos tentando sensibilizar as pessoas do entorno dela para que compareça. Na verdade não é um debate, mas um encontro com os presidenciáveis, que terão um ambiente muito civilizado para se manifestarem. Não é um espaço panfletário ou palanque. Somos teimosos e vamos torcer pela presença dela até o fim. É meio tardio, mas finalmente a Amazônia pode aparecer na agenda, talvez entre os cinco ou seis assuntos mais importantes para o País. Caso isso não ocorra, estará mais evidente que o País continua com um debate equivocado sobre as prioridaes.

Terra - Como funciona o Fórum?
Veríssimo - Ele reúne 205 entidades, incluindo empresas privadas de grande porte, como Vale, Alcoa, Phillips, organizações do movimento social e ambientalistas, incluindo nacionais e internacionais. Portanto, é um grupo bastante diverso, um espaço onde esses diferentes segmentos, alguns com visões diferentes sobre a Amazônia, mas que compartilham alguns princípios: da prioridade da Amazônia, de mudar e criar uma economia de qualidade. O debate com Marina Silva, por exemplo, pode acontecer em Manaus ou Rio Branco. Não estamos fechando em Belém. Pensamos em Rio Branco não apenas pelo fato de ter sido lá onde nasceu Marina Silva, mas porque o Acre é um estado de um dinamismo político muito bom, tem um histórico muito bom.

Especial para Terra