- Marsílea Gombata
- Direto de São Paulo
"A questão ambiental não é tratar de florestas. Essa á uma visão pequena". Assim se refere Guilherme Leal, vice da candidata à presidência da República Marina Silva (PV), ao projeto que o partido propõe para o Brasil. Para o fundador da Natura, que se aventura pela primeira vez na política partidária, quem acha que a agenda ambiental está limitada a um tema, ele explica: "Quando falamos de incorporar a questão ambiental, falamos sobre onde vivemos. São as cidades, é o transporte, é a saúde, é toda a nossa vida. (...) Na verdade, estamos falando de uma nova revolução industrial".
Ainda tentando se encontrar em meio ao que chama de "crise de identidade" - entre o meio empresarial e a política - Leal acredita em uma oportunidade única para o País se colocar como potência ambiental e aposta na sociedade civil como agente transformador e fiscalizador. "A questão do lobby é legítima, desde que feita de maneira clara e transparente, sujeita a controle social. A sociedade precisa poder avaliar se as contribuições são legítimas", disse ao Terra.
Leal foi um dos idealizadores do movimento Nossa São Paulo - inspirado no Bogotá, Como Vamos -, que na época das últimas eleições presidenciais buscou metas de sustentabilidade para a capital paulista, e se diz atraído pela posição de "se colocar a serviço de um projeto" que Marina mantém. Atento para o que chama de uma política de longo prazo, o vice condena a proposta do PT para os próximos anos e classifica o projeto como atrasado. "A nova candidatura que se coloca não demonstra uma visão de futuro que o Brasil precisa".
Terra - Desde o início, o movimento ambientalista e setores produtivos e econômicos têm estado em lados opostos. Levando em conta essa divergência, como o senhor se vê: um empresário dentro de uma chapa ambientalista ou um ambientalista dentro do mundo empresarial?
Guilherme Leal - Acho que meu papel talvez seja contribuir para mostrar que essa é uma oposição vencida. A minha história contribui para mostrar que empresar com uma visão, com uma consciência ambiental pode ser um caminho de muita prosperidade. A conciliação é possível. Aliás, o único caminho saudável é o que contempla um desenvolvimento que considera o ambiente que nos contém, que sustenta a vida.
Obviamente não posso negar a minha biografia, apenas ela me impõe uma certa disciplina, para que não haja mistura, uma confusão entre a pessoa jurídica e a pessoa física, no processo político. A pessoa física do Guilherme tomou essa decisão difícil, complexa, porque aos 60 anos é a primeira experiência na política institucional, e que obviamente faço questão de separar totalmente da pessoa jurídica.
Terra - O senhor espera que outros empresários de peso venham a apoiar Marina também? O senhor está trabalhando para isso?
Guilherme Leal - A proposta é de um diálogo amplo com a sociedade e a receptividade tem sido bastante positiva. Acho que existem muitos empresários no Brasil que têm uma visão de que existe uma sociedade do século 21 a ser construída e o Brasil como potência ambiental é uma grande oportunidade de negócios e inovação. Acho que uma grande parcela do empresariado nacional que se identifica com essa proposta e o que estamos buscando fazer é criar esse diálogo com essa sociedade que inclui, obviamente, o empresariado. Acho que existe simpatia, sim, com essas propostas. Se isso vai se transformar em apoio político ou não, o tempo vai dizer.
Terra - Marina já falou que não aceitará apoio de companhias, por exemplo, produtoras de tabaco ou ligadas à produção bélica. O senhor concorda com a postura da senadora? Que outros setores são incompatíveis com princípios de sua campanha?
Guilherme Leal - A Marina já teve oportunidade de dizer que essa é uma questão mais simbólica, pela cultura da paz que ela tem, e também da saúde. E aceitaremos contribuições sem maiores filtros. Tive uma experiência muito interessante quando a gente lançou o Instituto Ethos, onde se discutia essa política da inclusão ou da seleção na questão das empresas socialmente responsáveis. E a decisão nossa naquela época, como neste momento, foi pela inclusão.
Aqueles que quisessem se reunir a nós para buscar um caminho e construir uma cultura de responsabilidade social e ambiental das empresas eram muito bem-vindos. Neste momento, a contribuição à campanha de Marina Silva é muito bem-vinda por todos. E nós entendemos isso como desejo de ajudar a construir essa proposta desse novo Brasil. Não significa que Marina esteja dando certificando de bom comportamento para ninguém que venha a contribuir para a campanha.
Terra- Então não haveria mais restrições?
Guilherme Leal - Não há restrições, nem concessões. Há um compromisso de transparência nas contribuições, a total lisura. Aliás, achamos que a questão do lobby é legítima, desde que feita de maneira clara e transparente, sujeita a um controle social. A sociedade precisa poder avaliar se as contribuições são legitimas e os atos dos políticos e dos partidos são feitos dentro da legislação e no interesse público.
Terra - Como o senhor enxerga o governo Lula?
Guilherme Leal -Enxergamos com bastante respeito, como a senadora tem dito. Em primeiro lugar, teve o bom senso de preservar políticas, o compromisso com estabilidade que recebeu do governo anterior, e de dar seguimento a políticas importantes, que propiciaram uma condição de estabilidade tão indispensável a qualquer país civilizado. E também pelos avanços importantes que conquistou, na ampliação de políticas sociais, no crescimento do salário mínimo, no Bolsa Família, e na inclusão social de 25 milhões de pessoas que saíram da pobreza. E vemos também que é um ciclo que se encerra. Enxergamos com olhar crítico algumas questões, claramente com divergência - a questão de como olhar esse século 21, e a necessidade de entender a questão ambiental como oportunidade e não como empecilho ao desenvolvimento.
Terra - Quais as diferenças fundamentais entre o projeto para o Brasil do governo atual e o que Marina e o senhor pretendem?
Guilherme Leal - A nova candidatura que se coloca não demonstra, ao nosso ver, uma visão de futuro que o Brasil precisa. A visão que Marina traz é a de que temos uma grande janela de oportunidade. O Brasil vive um momento de prosperidade, como já viveu em outras épocas de sua história, como nos anos 70, por exemplo, na década de 60, com Juscelino. E nós perdemos essa oportunidade de inserir o Brasil no rol dos países considerados desenvolvidos.
Acho que a principal medida de um país desenvolvido é a oferta de oportunidade para todos cidadãos expressarem de maneira plena seu potencial de desenvolvimento. E isso chama-se educação. Nós temos um potencial de desenvolvimento fantástico, nosso patrimônio natural nos dá condição comparativa fantástica, mas para isso precisamos adicionar conhecimento. E nós temos uma carência enorme na formação do nosso capital humano, o que nos torna um país injusto, com reduzida capacidade competitiva - o apagão de mão de obra está aí.
Terra - A proposta de Marina, até agora, não tem ficado muito em torno da agenda ambiental?
Guilherme Leal -Acho que é uma visão simplista, como se a questão ambiental fosse tratar de florestas ou tomar conta de bagrinhos. É uma visão pequena. Na verdade, quando falamos de incorporar a questão ambiental, falamos sobre onde nós vivemos. São as cidades, é o transporte, é a saúde, é toda a nossa vida. A agricultura, a maneira como nós produzimos, a maneira como nós consumimos, como vivemos. Na verdade, estamos falando de uma nova revolução industrial. O mundo está consumindo e produzindo de uma maneira que não se sustenta. Todo o mundo.
Que bom que o mundo está conseguindo reduzir a sua pobreza. Não é apenas o Brasil que diminuiu o número de cidadãos abaixo da linha da pobreza. A China reduziu, a Índia está reduzindo, a Indonésia está reduzindo. Só que está reduzindo de uma maneira que o planeta não consegue regenerar o que está sendo absorvido desse patrimônio natural, que garante as condições de vida no planeta.
A era dos combustíveis fósseis está terminando. Portanto, existe uma grande transformação em curso que é uma oportunidade enorme para as diversas sociedades, diversos países. Há oportunidade de redesenhar nossas cidades. Temos um déficit habitacional de 5 milhões de moradias, e podemos fazer essa melhoria de uma maneira inteligente ou equivocada. Temos uma infraestrutura a ser feita de ferrovias ou rodovias ou hidrovias que depende de escolhas que precisam ser feitas agora. Fazer a escolha correta vai impactar a qualidade de vida dos brasileiros pelos próximos 50, 100 anos. O que nós estamos falando é de fazer as escolhas certas para entrarmos no século 21 da maneira correta e nos tornamos uma potência ambiental, com qualidade de vida para todos os brasileiros. Isso não é tratar de florestas, não é tratar de bagrinhos, é tratar da qualidade de vida do cotidiano de todos os brasileiros.
Terra - Qual a sua militância política na juventude e ao longo da sua vida?
Guilherme Leal - Eu ingressei no mundo do trabalho muito cedo. E entrei na universidade no auge da repressão, em 1969, época do AI-5, e acabei não tendo uma militância política muito intensa, até porque a repressão era muito grande naquela época. E fui e me dediquei fortemente ao trabalho, comecei as atividades com a Natura nos idos de 79. E minha atividade no terceiro setor começou no inicio da década de 90, quando comecei a participar do pensamento nacional das bases empresariais e não parei mais. Comecei a exercer minha atividade pública, seja através da própria empresa e na construção do que depois descobri que se chamava responsabilidade social das empresas, como na Fundação Abrinq, Instituto Ied, Ethos, que ajudei a fundar, o Movimento Nossa São Paulo, Fundação Dom Cabral. Há 20 anos que venho discutindo o Brasil, a sociedade civil e as empresas, e responsabilidade como agente de transformação social e uma sociedade articulada e atuante, como instrumentos de construção de uma sociedade mais próspera, mais justa. Essa tem sido minha trajetória.
Terra - E como é estar agora dentro de um partido?
Guilherme Leal -É uma experiência nova e importante. Sempre acreditei que uma sociedade para prosperar, para se tornar uma sociedade mais civilizada, com qualidade de vida para todos seus cidadãos, ela precisa de três pilares funcionando em uma dinâmica muito intensa. Precisa de um Estado eficiente que provê as condições básicas do serviço pleno da cidadania; de uma sociedade muito articulada e empreendedora e ativa; e de um mercado com capacidade de inovar, para servir essa sociedade. Então é como se faltasse dar a minha parcela de contribuição para essa terceira parte. E estou ainda achando a forma de melhor contribuir com esse setor, mas eu me entusiasmo bastante.
Terra - O senhor demorou um tempo para confirmar a pretensão de se lançar como vice de Marina. Com quais dilemas e dúvidas teve de lidar?
Guilherme Leal - Eu nunca tive pretensão de me lançar como vice. Eu demorei para ceder à convocação (risos). Sempre fez parte dos meus planos discutir o Brasil, contribuir de alguma forma para esse projeto-país, isso sempre me entusiasmou muito. Mas a convocação de Marina foi se tornando impossível de se recusar. E essa impossibilidade ela vai se tornando total na medida em que o convívio com ela, o exemplo cotidiano que ela dá de servir, de se colocar a serviço de um projeto de um país, vai provocando um tal incômodo em nós por não fazermos o mesmo, que uma hora você não consegue dizer não.
Acho que foi esse o processo que aconteceu comigo. Eu, em uma determinada hora, disse: "não dá para dizer não". E aí eu entendi essa aceitação como espécie de serviço civil voluntário, um espaço de tempo da minha vida que estou, com toda a modéstia, disponibilizando para essa contribuição a serviço do país.
Terra - O senhor mencionou movimentos como Nossa São Paulo. Esse movimento e o Bogotá, Como Vamos seriam modelos de atuação da sociedade civil, na sua opinião?
Guilherme Leal - Sem dúvida nenhuma. Aliás, tenho muito orgulho e satisfação de ter participado da gestação do Nossa São Paulo, em um momento de frustração do processo político brasileiro. Isso era nos idos das eleições de 2006, em que o ambiente que cercava era pouco nobre, cheio de dossiês e questões mais diversas, onde se discutia menos o futuro do país e mais questões menores. E, com alguns companheiros, cheguei à convicção de que um processo político saudável depende de uma sociedade bem atenta e articulada e que define os seus desejos de longo prazo e coloca-os para a classe política.
Esse posicionamento da sociedade civil é um fator decisivo para uma boa evolução social. Acredito muito que uma sociedade civil bem articulada pode promover, sim, transformações importantes. Porque a lógica da política está muito voltada para a lógica de curto prazo da manutenção do poder e das eleições, e a sociedade tem que fazer um contraponto para essa lógica de curto prazo. Tem de estar focada numa visão de mais longo prazo.
Terra - O PV agrega, em suas alianças e apoios partidários, gente de esquerda e de direita. Como conseguir levar até o fim ideias da bandeira ambientalista com ideologias tão distintas, como a do DEM e do PSDB contra o PV?
Guilherme Leal - A situação no Rio de Janeiro, como já foi colocado mais de uma vez, é uma situação até bastante tranquila para o PV. O Gabeira é uma figura nacional, carioca apoiado por todo o Brasil e com uma biografia respeitável, que ganhou projeção quando se indignou eticamente contra situações do Congresso Nacional, que realmente não enobrecem aquela casa parlamentar. Ao ter essa figura do PV no Rio de Janeiro ele acabou recebendo apoio de outros partidos. Essa é a situação e convivemos muito bem com isso.
Terra - Futuramente não poderia haver conflito de interesses ou ideologias?
Guilherme Leal - Não vejo como, não vejo problemas maiores. Aliás, Marina vem com essa proposta, que acho importante. Todos sabem que o PV é um partido pequeno. É um partido importante, o quarto em termos de parlamentares, mas obviamente não tem pretensão de ter quadros para um governo isolado. Aliás, nem os maiores partidos têm isso hoje. E Marina tem dito que ao assumir um governo convocará as melhores lideranças desse país para governar, o que eu acho que é um diferencial altamente positivo. Então eu não vejo problemas, nem no Rio de Janeiro nem no governo federal. E que ela tenha realmente capacidade de convocar os melhores quadros do Brasil, seja do PT, seja do PSDB, seja do PMDB, seja do DEM, porque em todos os partidos existem bons e maus quadros, e Marina saberá recrutar os melhores em torno de seu projeto.
Terra - Sei que Marina repete "Segundo turno se discute no segundo turno", mas caso Marina não vença quais são os seus planos? Pretende voltar a concorrer?
Guilherme Leal -Estou focado nesse serviço civil voluntário até dezembro de 2015, que como Marina diz que é contra segundo mandato, eu a apoio nisso e espero estar em Brasília até 2015.
Caso isso não venha acontecer, tenho muitos planos de continuar discutindo o Brasil. Eu já tinha e continuarei e dar curso a esses planos de pensar e desenhar e discutir esse Brasil do século 21 de diversas maneiras. Tenho um instituto pessoal de educação e desenvolvimento sustentável, que mistura experiências territoriais com uma rede de conhecimento. É coerente com o que estou fazendo na política: procurar gerar conhecimento em torno desta nova sociedade que sonhamos em construir.
Terra - O senhor esteve na reunião de Copenhagen, que fracassou. O que fazer para isso não se repetir em encontros futuros?
Guilherme Leal - Acho que Copenhagen foi frustrante, sem dúvida nenhuma, naquilo que tange no resultado das negociações entre os chefes de Estado. Acho que os chefes de Estado não estiveram à altura da expectativa que sobre eles se colocou. Seja na preparação que deveria ter antecedido o encontro, seja na capacidade de lá mesmo de articular os resultados esperados.
Do ponto de vista do que decorreu de Copenhagen, a frustração se reduz. Porque mais uma vez o empresariado e a sociedade civil estão avançando. Porque a consciência se amplia e as mudanças são inevitáveis. Portanto, a pressão social forçará para que haja mudanças nos processos produtivos das mais diversas naturezas. As empresas se antecipam, fazem contas, avaliam as oportunidades e acabam tomando posições que antecedem as mudanças dos chefes políticos, de Estado. Portanto, nesse aspecto Copenhagen serviu como catalisador para que esses movimentos do empresariado e da sociedade civil ganhassem uma nova dinâmica. Nesse sentido não foi tão frustrante assim. O que a gente espera é que os governantes percebam isso e estejam à altura do que a sociedade está demonstrando ser necessário.
- Especial para Terra






Assista agora »
Assista agora »



