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 Estilistas criticam, mas populares da Sé aprovam moda Dilma
07 de maio de 2010 15h07 atualizado às 15h38

Entre os pré-candidatos à presidência da República, o visual de Dilma Roussef é o que mais varia de um dia para outro. Foto: Roberto Stuckert Filho/Divulgação

Entre os pré-candidatos à presidência da República, o visual de Dilma Roussef é o que mais varia de um dia para outro
Foto: Roberto Stuckert Filho/Divulgação

Claudio Leal

Os estilistas podem esperar. Na Praça da Sé, em São Paulo, a maioria dos populares aprova o visual da pré-candidata do PT à presidência da República, Dilma Rousseff. Sem excluir as vestes havidas como cafonas e aberrantes. Na manhã desta sexta-feira, o paranaense Milton Ferreira Barbosa, 59 anos, ostenta a placa "Compro Ouro", mas parece ter garimpado uma síntese das opiniões da praça mais popular da capital: "Está bem vestida, tipo uma pessoa que mostra a personalidade".

Milton agarra as duas fotos apresentadas para julgamento - Dilma com um vermelhinho básico, outra de terninho creme. "Não tá mostrando peito, não tá mostrando nada. Mulher de bem não vai andar pelada. E o vermelho é o símbolo do PT", interpreta o eleitor de Lula. "Se tá lá e tá bom, vai botar outro pra mudar de ideia?".

Tanto quanto na imprensa, a popularidade do estilo Dilma passa por bombardeios e afagos num círculo de estudantes. Daiane da Silva, 19, elogia os quindins de iaiá:

"Pela profissão dela, está bem, sim".

"Mas está ridículo. Ridículo. Podia ser mais moderninha, se produzir melhor", contesta a amiga Bruna Reis, 17.

De babado, sim. De babado, não.

"Ué, vai de acordo com a idade dela!", rebate Ivani Alves, 18.

"É um social feio. Podia ter mais maquiagem", corta Bruna. "Dilma tem que se valorizar mais. Ela não se produz, não põe nada no rosto. Mais maquiagem".

Enquanto as mulheres se entrosam em esperanto, um violão joga notas sobre a barulheira da Sé. "Esse tá mais Lula (vermelho), aquele tá mais Fernando Henrique (terninho creme)", decifra o violeiro Crispo, o Canarinho, 41. "Essa roupa é pra dormir, essa é pra ir trabalhar", discorda o missionário paraibano Severino Carlos dos Santos. De calça e blusa preta com firulas verticais, Canarinho se preocupa com o próprio look: "Você acha que estou bem pra um cantor sertanejo?".

Lá vem o cabeleireiro "Veridiana" Nogueira, 29 anos, como quem estuda a praça, antes de aterrisar na beirada do canteiro. Descontente com Lula, ele anuncia o voto em Dilma e estuda as fotografias: "Gostei. Tá social pra uma ministra. Ótima. Em trajes finos... Quero ver uma mulher no poder". Nascido em Belém do Pará, mas residente em São Paulo, choca-se com quantidade de pessoas escarrapachadas nas vias paulistanas. "Ontem eu estava numa reunião e soube que existem 50 mil pessoas nas ruas em todo o território nacional. Lula fica aí falando no Fome Zero, mas o que eu vejo é gente comendo lixo".

"Eu vim aqui dizer a palavra de Deus...", prega um obreiro evangélico, bíblia equilibrada na mão, como quem, fortuitamente, só abre as páginas do Apocalipse.

Se a palavra é de Deus, vale. "Mulher bem comportada", atesta Benedito de Oliveira, metalúrgico aposentado, encontradiço em suas imprecações no Centro. "A roupa não significa o caráter da pessoa. Uma mulher deve se apresentar assim para governar. E não só ela. Um político não pode sair por aí todo maltrapilho, com a camisa rasgada. Nem você, repórter, vai com qualquer roupa entrevistar gente importante. Agora, tem também o seguinte: o sujeito pode andar arrumadinho, de paletó, e esconder uma metralhadora pra assaltar um banco. Não é verdade?". Vox Dei.

Outro montinho de gente no lado esquerdo da Catedral Metropolitana. Desempregados, sem beira nem eira, tocaiados para o almoço. "Minha conterrânea. De Minas", reconhece Adilson Olar, 37 anos, ex-operador de ar condicionado, natural de Vila Vargem do Amargoso (MG). "Vestido vermelho. Simples. Vestido ideal. Mas o que manda é as ideias, o que ela quer fazer. Meu voto é dela, porque nunca tivemos uma mulher na presidência". À sua frente, o mineiro Antonio Coelho, 62, teoriza sobre os trapinhos femininos. "Ela, sendo mulher, tem o direito a se vestir como quiser. No campo da cabeça, da psicologia, tem direito a andar com vestido decotado".

Na murada, Antonio vai a tempos idos, em Poços de Caldas (MG): "Conheci moça com vestidinho curto que dali não saía nada... No interior, eu investia, investia, e nada, sabe? De jeito nenhum. Agora, já vi mulherzona de vestido inteiro, grande, que não demorava pra gente jogar na cabeça". Distanciando-se, ele move os olhos, malandramente: "Mulher de saia curta não sai nada".

Turbante cerimonioso, Maria Aparecida do Santos, 67, chama Lula de "extraordinário". Dilma? "Bem composta". "Ela está certa, tem que botar uma roupa pra estar no meio do povão". Se quer saber, Aparecida prefere a blusa vermelha com babados, decerto a mais criticada pelos estilistas. (Nelson Rodrigues, uma vez mais, acerta a flechada: o homem comum gosta do prédio do Elixir de Nogueira, no Rio de Janeiro; a casa de Oscar Niemeyer não serve para "simplesmente estar"). "Não importa o que ela veste, não. Tem que ver o que ela vai fazer pro povo". "Fica decente pra idade dela", reforça a copeira Raimunda da Cunha, vizinha assumida de Lula. "Ele é de São Bernardo e eu sou de Diadema. Vizinhos".

A moradora de rua Luzia de Moraes Godói, 66 anos, não conhece Dilma Rousseff, mas Lula, sim, "de televisão". Antes de opinar sobre os ratos que roem a roupa da rainha de Roma, ela cobre os lábios com as mãozinhas, para segredar: "Aqui só tem ladrão. Tá empesteado, viu? Essa mulher aí, fique esperto, ela rouba pra comprar droga. Levou minha manta". Luzia perdeu pai, mãe e casa no Mato Grosso. Há um ano sofre as virações de São Paulo. "Ela tá como ela deseja se vestir", defende a ex-lavradora. "Tá ó...", e passa nos lábios o polegar e o indicador, grudados. Delícia. Devolve as fotografias, firme em sua melancolia: "Ninguém quer ver o bem de ninguém".

Terra Magazine