Atualizada às 01h12
Aos 67 anos, Fernando Gabeira não usa mais tanga de crochê. Opera como ninguém seus dois BlackBerrys (celulares com internet). Os cabelos grisalhos e as marcas de expressão no rosto não são apenas sinais de envelhecimento, mas testemunhas de uma rica história de vida. Entre 1941, quando nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, e 2008, no Rio de Janeiro, Gabeira passou por uma longa jornada: tornou-se jornalista, escritor, militante contra a ditadura, seqüestrador e exilado. Já foi baleado e testemunhou, no Chile, em 1973, o golpe militar que derrubou Salvador Allende e que transformou em roteiro de um especial para a TV sueca. Na Suécia, aliás, exerceu uma outra atividade inusitada: a de condutor de metrô. O ex-guerrilheiro virou zen e tornou-se um dos líderes do movimento ecológico e pacifista que deu origem ao Partido Verde.
Mas o candidato zen à Prefeitura do Rio não é imune a rompantes de mau humor. O homem que, numa manhã da década de 70, na Praia de Ipanema, deixou a esquerda tradicional chocada ao desfilar com uma tanga de crochê com detalhes na cor roxa é capaz de soltar gritos que não são lá muito agradáveis. Em poucos minutos, o político que passou a vida defendendo a liberação da maconha se recompõe e coloca, de novo, o sorriso no rosto.
Assim como não consegue se livrar da história da tanga, Gabeira carrega mais uma pecha: a de ter perdido o paletó que serviu de pista para os militares encontrarem a casa que, em 1969, serviu de cativeiro para o seqüestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Elbrick. A ação lhe rendeu os 10 anos no exílio e também o enredo do livro que escreveu no retorno ao Brasil, O que é isso, companheiro?, depois transformado em filme. Por conta da participação no seqüestro, Gabeira até hoje é proibido de entrar no Estados Unidos, o que pode fazer com que o Rio de Janeiro tenha, pela primeira vez, caso ele seja eleito, um prefeito impedido de botar os pés na América.
Maconha
Nada, no entanto, é tão polêmico na vida do candidato quanto sua posição favorável à legalização da maconha. Gabeira, que sempre apoiou a legalização da erva e seu uso industrial mais amplo possível, na campanha deu um passo atrás. Antes defendia a plantação da maconha até como uma saída para os problemas econômicos do Nordeste. Mas, na sabatina no Jornal do Brasil, atenuou sua posição. Disse que hoje o Rio não vive uma situação para a legalização da droga. E assim, ciente do tamanho da briga que pode comprar com o eleitorado conservador, o tema tem passado ao largo de toda a campanha. Sempre que perguntado, Gabeira se esquiva. Diz que não é um tema central para a solução dos problemas da cidade e que não entende a insistência da imprensa.
A carreira político-parlamentar começou pouco depois da volta do exílio. Em 1986, candidatou-se ao governo do Estado do Rio de Janeiro pelo PV (em coligação com o PT). Não venceu, mas deixou marcas. A partir daquela campanha, os comícios caretas passaram a ter novos formatos. Em um dia histórico, Gabeira fez uma passeata no Centro e coloriu a avenida Rio Branco de flores rosas. Foi ele também o idealizador do primeiro Abraço à Lagoa Rodrigo de Freitas, em que centenas de pessoas deram-se as mãos em torno do espelho d'água.
Em 1994, elegeu-se deputado federal pelo Partido Verde. Foi reeleito em 1998 e 2002. Em 2003, rompeu com o PT. Três anos mais tarde, foi o deputado federal mais votado do Estado, com 293.057 votos. Sua atuação parlamentar foi marcada por um embate com Severino Cavalcanti, o que acabou levando à destituição do deputado da presidência da Câmara.
Hoje, no entanto, suas alianças políticas são consideradas por muitos como uma verdadeira agressão ao seu passado. No primeiro turno, a união com o PSDB lhe roubou alguns votos dos esquerdistas radicais. Depois da vitória sobre Marcelo Crivella (PRB), o que já era ruim ficou ainda pior.
JB Online