Porto Alegre (RS)

Sábado, 30 de agosto de 2008, 10h15 Atualizada às 11h00

Doação da Gerdau ao Psol abre debate ideológico na esquerda

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Sinara Sandri

Os R$ 100 mil doados pela empresa Gerdau à campanha de Luciana Genro (Psol) à prefeitura de Porto Alegre abriu uma batalha ideológica entre integrantes de partidos de esquerda.

"Recebemos (o dinheiro) e já estamos gastando", disse Roberto Robaina, coordenador de campanha e principal assessor de Luciana Genro, à Reuters.

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Para Robaina, não há qualquer problema em aceitar a doação da Gerdau já que todo o processo teria sido público, legal e sem a imposição de qualquer compromisso de favorecimento da empresa em um suposto governo.

"Em Porto Alegre, estamos em uma situação de disputa de massa para tentar ganhar (a eleição). Não é possível ser ingênuo. Para ser socialista, não precisa ser burro e rasgar dinheiro", disse Robaina.

A previsão de despesas registrada pelo Psol junto ao TRE é de R$ 700 mil, mas não há expectativa de que este volume de dinheiro seja efetivamente arrecadado. A doação da Gerdau representaria cerca de 15% de todo o orçamento.

Contrariando a versão do Psol de que a Gerdau teria procurado os candidatos à prefeitura para oferecer financiamento, o grupo declarou à Reuters, por meio de nota, que "apoiou de forma igualitária" doando 100 mil aos "candidatos à Prefeitura de Porto Alegre que procuraram a empresa."

"Se todas as empresas tivessem essa política (doar o mesmo valor), a campanha eleitoral seria muito diferente", disse Robaina.

A questão se transformou em disputa ideológica já que o financiamento de campanha é apontado como origem das práticas de corrupção e vem sendo criticado por políticos de esquerda. No caso de Luciana Genro, a doação já serve como combustível para seus adversários. "A Luciana era vista como alguém que não se entregava (aos interesses econômicos). Infelizmente, ela aceitou o financiamento da Gerdau", disse Fernando Correa, assessor de imprensa do PSTU em Porto Alegre.

Foi o PSTU que veiculou, em caráter de denúncia, a informação sobre a doação da Gerdau durante o horário eleitoral da última quarta-feira. O partido está coligado com o PCB e apresenta Vera Guasso como candidata à prefeitura. "Condenamos porque o financiamento (para campanhas) dos partidos de trabalhadores deve ser feito pelos próprios trabalhadores", disse Correa.

Muitos integrantes do PSTU e do Psol partilham de uma trajetória comum e estiveram juntos em organizações de esquerda que, durante anos, fizeram parte do PT. Foi exatamente esta proximidade que permitiu ao PSTU acompanhar a discussão sobre o assunto entre os adversários.

"Após a decisão do diretório municipal (do Psol), passamos a questionar os militantes deles até o momento em que não tinham mais como negar", disse Correa.

As primeiras reações vieram dos próprios integrantes do Psol, como o deputado federal e candidato a prefeito do Rio, Chico Alencar, que teria considerado um erro aceitar a doação.

O debate entre PSTU e Psol deve constituir uma segunda linha de fogo entre antigos aliados, reproduzindo a batalha travada entre Manuela D'Ávila (PCdoB) e Maria do Rosário (PT), que, após o rompimento da tradicional Frente Popular, disputam a chance de estar no segundo turno das eleições municipais.


Reuters