Xangai: qualidades e falhas do melhor sistema educacional do mundo

10 dez 2013
10h58
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Os estudantes da cidade chinesa de Xangai obtiveram os melhores resultados do mundo nas provas do último relatório mundial do Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (PISA), mas seu exigente sistema educacional cria ao mesmo tempo vantagens e carências para a formação dos alunos chineses.

O relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que entrevistou mais de meio milhão de adolescentes em 65 países, muitas vezes fornece uma referência influente para que os governos possam corrigir ou melhorar seus programas de educação, e Xangai também tirará uma lição dele.

Assim como outros sistemas de ensino asiáticos, o chinês (representado no relatório desde 2009 por Xangai, dadas as fortes diferenças socioeconômicas das diferentes zonas do imenso país oriental) tende a privilegiar o cálculo e a memorização sobre a criatividade, a análise e a capacidade de expressão.

Ao lado deste sistema de ensino se acrescenta na China uma grande pressão dos pais, professores e da sociedade em geral, para que os jovens, quase sempre filhos únicos, alcancem o sucesso acadêmico que lhes permita competir por um bom trabalho no país mais povoado do mundo.

Essa pressão, combinada com um grande número de horas de estudo tão intenso que não deixa tempo livre para qualquer outra coisa, pode prejudicar o desenvolvimento saudável da sua personalidade e de suas habilidades sociais, uma crítica constante do Ocidente a esse sistema educacional, que o professor de psicologia Sun Shijin qualifica como "razoável".

"É verdade que na Ásia se costuma promover mais o cálculo e a memorização de conteúdos ao invés de habilidades analíticas, a imaginação e a iniciativa pessoal", admitiu à Agência Efe Sun, professor da Universidade de Fudan em Xangai, uma das mais famosas da China.

"Que Xangai tenha tirado os melhores resultados nas provas do PISA é uma boa notícia, mas por outro lado, os alunos chineses estão dedicando mais tempo estudando do que os de outras partes do mundo, e estão fazendo um grande sacrifício", disse ele.

Os cerca de 6.400 estudantes de 155 escolas de Xangai que participaram da prova alcançaram os melhores resultados mundiais em matemática (613 pontos de média sobre mil), ciências (580) e compreensão de leitura (570). Eles costumam dedicar 13,8 horas semanais estudando e fazendo deveres, em comparação com as 4,9 horas da média mundial.

Os estudantes chineses se veem obrigados a serem muito bons em cálculo e na memorização de conteúdos, mas não são ensinados a se expressar, comunicar suas ideias ou raciocinar em equipe.

"Essas críticas são razoáveis, embora a opinião da sociedade esteja começando a mudar, mas ainda não o suficiente", disse Sun.

"As provas do PISA fazem sentido para uma sociedade em desenvolvimento industrial, mas não para uma sociedade informatizada e de serviços como começa a ser a chinesa", explicou.

Em uma sociedade contemporânea desenvolvida é claramente muito mais importante desenvolver as habilidades de criatividade e comunicação que as de cálculo e memorização de conteúdos, disse Sun, que acredita que a sociedade chinesa está tomando consciência disso.

"É bom ver que nossos estudantes nos representaram tão bem (no PISA), mas vale a pena questionar se necessitamos de tantos alunos tão bons em Matemática", disse à imprensa local, Zhang Minxuan, presidente da Universidade de Professores de Xangai.

Zhang foi também o diretor das provas do PISA em Xangai, realizadas em abril e maio do ano passado.

Os estudantes de Xangai traduziram bem problemas práticos reais em exercícios matemáticos, mas tiveram dificuldades no PISA para expressar e raciocinar os resultados obtidos.

"Descobrimos que os que passaram mais de 11 horas semanais estudando em casa não obtiveram um resultado melhor por conta deste fato, mas isso os impediu de descobrir outros talentos", lamentou Zhang.

"É necessário um equilíbrio entre o estudo e o tempo livre para o desenvolvimento pessoal", ressaltou Sun, que deu como exemplo de sucesso a Finlândia: "Alcança bons resultados no PISA, mas não há uma competitividade tão forte entre seus alunos e eles também não passam tantas horas estudando".

"Sabem respeitar seus estudantes, a China tem algo para aprender com eles", concluiu.

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EFE   
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