
Nos morros da Cordilheira dos Andes, vive um morcego do tamanho de uma framboesa. Em Cingapura, há um verme nematoide que habita apenas os pulmões de um inconstante lagarto. O morcego e o verme têm algo em comum: ambos são novos para a ciência. Cada um recebeu recentemente seu nome científico oficial: Myotis diminutus para o morcego e Rhabdias singaporensis para o verme.
Essas certamente não são as últimas espécies que os cientistas descobrirão. Todo ano, pesquisadores relatam mais de 15 mil novas espécies e sua carga de trabalho não mostra sinais de que vá parar. "Pergunte a qualquer taxonomista em um museu e eles dirão que há centenas de espécies esperando descrição", diz Camilo Mora, ecologista marinho na Universidade do Havaí.
Cientistas nomearam e catalogaram 1,3 milhão de espécies. Quantas espécies mais existem para serem descobertas é uma pergunta que paira como uma nuvem sobre a cabeça de taxonomistas por dois séculos. "É impressionante que não saibamos a coisa mais simples sobre a vida", disse Boris Worm, biólogo marinho na Universidade Dalhousie em Nova Escócia.
Em agosto, Worm, Mora e seus colegas apresentaram a última estimativa de quantas espécies existem, baseada em um novo método que desenvolveram. Eles estimam que haja 8,7 milhões de espécies no planeta, variando 1,3 milhão para mais ou para menos.
O novo artigo, publicado na revista PLoS Biology, está provocando fortes reações de outros especialistas. "Na minha opinião, é um artigo muito importante", disse Angela Brandt, bióloga marinha na Universidade de Hamburgo, na Alemanha. Porém, críticos dizem que o método do novo artigo não funciona e que a diversidade real da Terra é muito maior.
Em 1833, um entomólogo britânico chamado John Obadiah Westwood fez a primeira estimativa conhecida de biodiversidade global, adivinhando quantas espécies de insetos havia. Ele estimou quantas espécies de insetos vivam em cada espécie de planta na Inglaterra, e então extrapolou esse número para todo o planeta. "Se dissermos 400 mil, devemos, talvez, não estar muito longe da verdade", ele escreveu.
Atualmente cientistas sabem que o número de Westwood é muito baixo. Eles já descobriram mais de 1 milhão de espécies de insetos e seu índice de descobertas não mostra sinais de desaceleração.
Em décadas recentes, os pesquisadores procuraram caminhos melhores para determinar quantas espécies faltam para serem descobertas. Em 1988. Robert May, biólogo evolucionista da Universidade de Oxford, observou que a diversidade de animais terrestres aumenta quanto menores eles se tornam. Ele concluiu que nós provavelmente já descobrimos a maioria das espécies de animais grandes, como mamíferos e aves, e então usou sua diversidade para calcular a diversidade de animais menores. Ele acabou com uma estimativa de 10 a 50 milhões de espécies de animais terrestres.
Outras estimativas iam de 3 milhões até 100 milhões. Mora e seus colegas acreditaram que todas essas estimativas eram falhas de uma forma ou de outra. Ainda mais sério é o fato de que não havia forma de validar os métodos utilizados para ter certeza sobre sua confiabilidade.
Para a nova estimativa, os cientistas apareceram com um método próprio, baseado em como os taxonomistas classificam as espécies. Cada espécie pertence a um grupo maior, chamado gênero, que pertence a outro grupo maior, chamado família, e por aí vai. Humanos, por exemplo, pertencem à classe dos mamíferos, junto a aproximadamente 5.500 outras espécies.
Em 2002, pesquisadores na Universidade de Roma publicaram um artigo no qual usaram esses grupos maiores para estimar a diversidade das plantas na Itália. Em três diferentes lugares, eles marcaram o número de gêneros, famílias etc. Havia menos grupos de alto nível do que de baixo nível em cada lugar, assim como as camadas de uma pirâmide. Os cientistas puderam estimar quantas espécies havia em cada lugar, assim como é possível estimar o tamanho da base de uma pirâmide baseando-se no resto dela.
O artigo chamou pouca atenção na época, porém Mora e seus colegas se apropriaram dele, esperando usar o método para estimar todas as espécies da Terra. Eles mapearam a descoberta de novas classes de animais desde 1750. O número total subiu abruptamente nos primeiros 150 anos e depois começou a se estabilizar - um sinal de que estávamos perto de descobrir todas as classes de animais. Eles descobriram que o índice de descobertas de outros grupos de alto nível também veio diminuindo. Os cientistas construíram uma pirâmide taxonômica para estimar o número total de espécies em grupos bem estudados, como mamíferos e aves. Eles realmente fizeram boas previsões.
Confiantes com seu método, os cientistas então o usaram em todos os grupos maiores de espécies, chegando à estimativa de 7,7 milhões de espécies de animais, por exemplo, e 298 mil espécies de plantas. Apesar de a terra seca cobrir apenas 29% da superfície do planeta, os cientistas concluíram que é lar de 86% das espécies do mundo.
"Acredito que seja uma nova abordagem interessante e imaginativa para a importante questão do número de espécies que de fato vivem na Terra hoje", disse May. Contudo, Terry Erwin, entomólogo no Instituto Smithsoniano, diz que há uma grande falha no estudo. Não há razão para afirmar que a diversidade em grupos pouco estudados seguirá a regra daqueles bem estudados. "Eles estão medindo a atividade humana, não a biodiversidade", disse.
David Pollock, biólogo evolucionista na Universidade do Colorado que estuda fungos - um grupo particularmente pouco estudado - concorda. "Isto parece ser uma abordagem incrivelmente pouco fundada", disse. Existem 43.271 espécies catalogadas de fungos mas, baseado no que Mora e seus colegas estimam, existem 660 mil espécies de fungos na Terra. Porém, outros estudos sobre a diversidade de fungos sugerem que o número possa chegar a 5,1 milhões de espécies.
Os autores no novo estudo admitem que seu método não funciona bem com bactérias. Cientistas acabaram de começar a investigar mais aprofundadamente a biodiversidade de micróbios, o que significa que estão descobrindo grupos de alto nível de bactérias em ritmo acelerado. Mora e seus colegas escrevem que sua estimativa - cerda de 10 mil espécies - deveria ser considerada um "limite inferior".
Microbiologistas, por outro lado, estão razoavelmente certos de que a diversidade de micróbios fará a diversidade de animais parecer pequena. Uma só porção de terra pode conter 10 mil espécies diferentes de bactérias, muitas das quais são novas para a ciência.
Jonathan Eisen, especialista em biodiversidade microbial da Universidade da Califórnia, Davis, disse que achou o novo artigo decepcionante. "É como dizer que dinossauros andavam pela Terra há mais de 500 anos", disse. "Por mais que seja verdade, pra que dizer isso?".
- Durante pesquisas encerradas em 2009, cientistas da Conservação Internacional descobriram 200 novas espécies de animais e plantas na Papua Nova Guiné. Considerada pelos cientistas a espécie mais bonita localizada, o gafanhoto de olhos rosa vive nas árvores mais altas, o que o torna difícil de ser estudado Foto: Conservation International / Divulgação
- A Strumigenys bateu o recorde de altitude em que vive dentre todas as formigas já encontradas na Papua Nova Guiné. Ela vive a 2,9 mil metros Foto: Conservation International / Divulgação
- Anteriormente já visto, mas nunca descrito, este morcego se alimenta de frutas e é natural de Papua. Não possui nome ainda, mas já foi encontrado em outras regiões do país além das montanhas Nakanai Foto: Conservation International / Divulgação
- Pequeno o suficiente para sentar em uma unha do polegar humano, este sapo camufla-se facilmente em pedras Foto: Conservation International / Divulgação
- Este sapo vive 30 metros abaixo do nível da terra e seus machos anunciam sua presença com alto coaxado Foto: Conservation International / Divulgação
- O Mossula, nova espécie de gafanhoto, possui interessante sistema de defesa. Suas garras posteriores são grandes e espinhosas, e quando o gafanhoto é atacado as coloca por cima da cabeça, dando golpes para se proteger Foto: Conservation International / Divulgação
- As formigas líderes desta espécie descoberta possuem cabeças sete vezes maiores do que as formigas operárias. As grandes mandíbulas são controladas por poderosos músculos, que as permitem partir alimentos mais facilmente Foto: Conservation International / Divulgação
- Uma das espécies encontradas em 2010 foi este colorido sapo. Os machos são mais vistos quando produzem som para atrair fêmeas da vizinhança Foto: Conservation International / Divulgação
- Entre as plantas descobertas, um novo gênero de Rhododendron foi encontrado em abundância nas montanhas, o que sugere que há muito o que explorar ainda Foto: Conservation International / Divulgação
- O pequeno Ceratobratrachid vive em elevadas regiões das montanhas e pode representar um novo gênero Foto: Conservation International / Divulgação
- Este sapo do gênero Platymantis mede apenas 25 mm e é visto entre 5h e 11h e no pôr do sol, ao contrário da maioria dos sapos, que costumam aparecer à noite Foto: Conservation International / Divulgação
- O pequeno rato descoberto na possui apenas 2 cm representa uma nova espécie e novo gênero. Segundo os cientistas, há diversas outras áreas da Papua Nova Guiné que seguem inexploradas, pois não há como acessá-las Foto: Conservation International / Divulgação
- O gafanhoto Spinisternum sp. 4 mede entre 30 e 35 mm Foto: Conservation International / Divulgação
- Perereca "Pinóquio" foi encontrada durante expedição a Nova Guiné em 2008. Os resultados desse trabalho foram apresentados nesta segunda-feira Foto: Reuters
- Uma fotografia distribuída em 2010 pelo Museu de História Natural de Chiba, no Japão, mostra uma nova espécie de enguia encontrada em uma caverna submarina. A descoberta ocorreu em uma caverna a 35 m de profundidade próxima a uma olha de Palau, no Oceano Pacífico Foto: AFP
- O censo marinho durou dez anos e resultou na descoberta de milhares de novas espécies exóticas, entre elas a Alviniconcha sp, que vive no Japão Foto: Reuters
- No primeiro caso de espécie de anaconda encontrada desde 1936, a Eunectes benienses foi vista na região amazônica no nordeste da Bolívia e também nas várzeas bolivianas da região de Pando. Ela tem 4 metros de comprimento e acreditava-se que fosse fruto da relação entre anacondas amarelas e verdes - ou seja, um híbrido. Porém, foi determinado que é, sim uma espécie única Foto: Jose Maria Fernandez / AFP
- Entre os animais das fotos divulgadas pela WWF, talvez este sapo (Ranitomeya amazonica) seja o mais bonito, com manchas que lembram chamas em sua cabeça e manchas de cor azulada brilhante pelo corpo e patas. Seu habitat é em Iquito, no Peru Foto: Lars K. / AFP
- O golfinho Inia boliviensis recebeu este nome científico em 2006, quando evidências provaram que se tratava de uma espécie separada do Inia geoffrensis. Ele vive na região boliviana da Amazônia. Possui mais dentes do que os golfinhos da outra espécie comparada, cabeças menores e corpo menor porém mais largo e arredondado Foto: Fernando Trujillo / AFP

