RJ: crescimento da China leva escolas a ensinarem mandarim

10 dez 2012
08h00
atualizado às 09h55
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Paula Bianchi
Direto do Rio de Janeiro

No número 95 da Avenida São Francisco Xavier, na zona norte do Rio, toda a quarta-feira é dia de mandarim. A professora de inglês Priscila De Augustinis busca os alunos no pátio enquanto o tímido Xu Lu, professor do idioma, sobe a rampa até a sala de aula dividida entre conjugações do verbo to be e ideogramas. Ainda escorregando no português, Xu, no Brasil há dez meses, conta com a ajuda de Priscila, que faz às vezes de interprete, e diverte-se com as tentativas dos alunos de acompanharem as declinações do idioma, em que as palavras mudam de significado de acordo com a entonação dada as vogais e o contexto.

O professor Xu Lu, nascido e criado nos arredores de Pequim, leciona mandarim em três escolas da rede municipal do Rio
O professor Xu Lu, nascido e criado nos arredores de Pequim, leciona mandarim em três escolas da rede municipal do Rio
Foto: Mauro Pimentel / Terra

A inocente Jiu (escrita no alfabeto fonético), por exemplo, pode significar tanto nove, cerveja e vinho quanto tio e velho de acordo com a forma em que é pronunciada. "Na china muitas palavras soam a mesma coisa significando diferente", repete Xu com frequência enquanto os alunos se esforçam para diferenciar um som do outro. Entre as estratégias de Xu para prender a atenção dos alunos estão desde jogos - a equipe do Terra acompanhou uma animada competição de 'escrever ideogramas com feijão e hashis' - até a apresentação de vídeos que mostram um pouco da cultura chinesa atual. "Se ficar só na gramática eles se desinteressam", explica Priscila.

Além da Orsina da Fonseca, na Tijuca, o professor, nascido e criado nos arredores de Pequim, leciona mandarim em outras duas escolas da rede municipal da cidade que tem aulas em tempo integral como parte de uma parceria do governo da China com a Secretaria de Educação da Prefeitura do Rio através do Instituto Confucius de São Paulo.

O projeto faz parte de um movimento de crescimento do interesse em aprender mandarim no Brasil, identificado pela professora e diretora do Instituto Confucius (centro para ensino da língua e cultura mandarim) carioca, Silvia Becher, como uma reação a nova posição da China no mundo atual.

O próprio Confucius do Rio de Janeiro, resultado de uma parceria entre a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e a Universidade de Hedei, foi criado no ano passado e desde então já dobrou o número de alunos regulares - atualmente cerca de 100 pessoas tem aulas na instituição. "Os alunos querem ampliar suas possibilidades de trabalho a longo prazo e também tem muita curiosidade pela cultura chinesa", explica Silvia, que estima que ao todo existam ao menos 2 mil pessoas estudando o idioma no país hoje.

Na Orsina o pequeno grupo de alunos que acompanha as aulas de mandarim regularmente - a matéria é eletiva e a evasão é grande devido à dificuldade em aprender o idioma - divide-se entre o desejo de conhecer o país e o diferencial de falar mandarim. "No futuro a gente vai precisar se comunicar em outras línguas", diz Vitória Rufino, 13 anos, aluna do sétimo ano.

Também do sétimo ano, Michele Karem, 12, lembra o desejo de estudar um idioma diferente. "Tem tanta gente que gostaria de aprender, mas não pode."

Melhor aluno da turma, Thales Renan, 15, do oitavo ano, senta na primeira classe e não desgruda os olhos das explicações. Ele sonha em conhecer a China e apesar da dificuldade está determinado a falar mandarim. "Gosto do jeito como eles falam, estou sempre estudando. Quero ir para lá", diz.

Em setembro o próprio secretário de Educação do Estado do Rio, Wilson Risolia, em visita a Pequim, fechou um acordo com a prefeitura para a instalação de uma escola bilíngue Português/Mandarim no Rio de Janeiro e outra na capital chinesa. Ainda na fase propositiva, a escola deve ser inaugurada, segundo a secretaria, no começo de 2014.

O desejo de expandir o idioma e a cultura chinesas foi reafirmado ainda pelo governo da China durante o 18º Congresso do Partido Comunista, realizado no começo do mês. "A China tem um deficit cultural com o mundo; introduzimos muito menos cultura do que exportamos", afirmou a vice-ministra da Cultura da China, Zhao Shaohua, em entrevista coletiva durante o Congresso divulgada pelo Jornal Folha de S.Paulo. "Isso nos exige libertar nossas mentes e procurar novas formas de intercâmbio cultural, para que as pessoas no mundo saibam que a cultura chinesa tem mais de 5 mil anos."

Segundo números divulgados pelo governo chinês, desde 2004 o país abriu 398 Institutos Confucius em 108 países, inclusive no Brasil, onde, além do Rio, está presente em São Paulo, Brasília e Porto Alegre. A China também mantém acordos culturais com mais 146 países.

Fonte: Especial para Terra

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