Parceria alerta sobre limites da iniciativa privada nas universidades

UFRGS e Tramontina firmaram acordo de cooperação. Com a assinatura do contrato, foi criada a cátedra Tramontina Eletrik na universidade, ficando encarregado pelo projeto o Grupo de Pesquisa sobre Marketing e Consumo

25 fev 2014
09h17
atualizado às 09h21
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A doação de R$ 288 mil da empresa gaúcha Tramontina à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) resultou na criação da cátedra Tramontina Eletrik, onde serão desenvolvidas pesquisas na área de marketing e comportamento do consumidor. A ação inaugura o modelo na instituição, ainda que ela já tenha firmado mais de 350 parcerias com empresas nos últimos quatro anos. A diferença entre a cátedra e os projetos anteriores está na forma como acontece o investimento privado. No primeiro caso, a empresa doa à universidade, para financiar um grupo de pesquisa específico - no caso o Grupo de Pesquisa sobre Marketing e Consumo (GPMC) -, sem que nenhum produto ou serviço seja criado exclusivamente para a doadora. Vinicius Brei, professor responsável pelo GPMC, destaca ainda que já há duas cátedras na UFRGS. No entanto, a instituição que doa a elas é a Unesco, ou seja, não é privada.

O ineditismo da novidade reavivou o debate sobre o limite da aproximação entre empresas e universidades públicas. Secretária do Desenvolvimento Tecnológico da UFRGS, Raquel Mauler não vê nenhuma desvantagem no processo. Para a UFRGS, é importante o investimento externo para avançar nas pesquisas e formar os alunos. A Tramontina se beneficiaria pelos resultados adquiridos, ainda que não possam ser exclusivos da empresa.

Segundo o presidente da seção do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN), professor Carlos Alberto Gonçalves, para o projeto dar certo é preciso que o lucro não seja a sua única e principal diretriz. “A qualificação pessoal, a formação dos alunos e o desenvolvimento de novos produtos também são fatores que devem ser observados”, destaca.

O Andes-SN defende que o investimento em universidades públicas seja responsabilidade do Estado, ainda que isso não exclua a possibilidade de haver investimentos privados. Gonçalves ressalta, porém, que a autonomia da universidade nos rumos da pesquisa e em sua difusão deve ser preservada – seria esse o limite da aproximação privada das universidades. “Os resultados não podem ser somente de uma empresa. Ela estaria se apropriando de uma instituição pública para benefício individual”, diz.

A opinião é compartilhada pelo Diretório Central Estudantil (DCE) da UFRGS. “A universidade deve ter liberdade para escolher o que pesquisar. No momento em que há gerência de pesquisa pelas empresas, isso se torna maléfico para toda a comunidade acadêmica”, afirma o presidente do DCE, Lucas Jones. No entanto, o estudante confia na boa relação entre a academia e o setor privado para tornar a iniciativa produtiva nos dois sentidos. “Essa interação possibilita que nossas pesquisas cheguem mais facilmente ao mercado e melhorem a vida das pessoas”. O acordo também gera bolsas e estágios e favorece o contato com a iniciativa privada, um “setor mais dinâmico” nas suas palavras.

Ainda que julgue ser muito cedo para justificar qualquer desconfiança em relação ao projeto, o presidente do sindicato afirma que há algumas preocupações. De acordo com ele, professores e alunos não podem ficar sobrecarregados nos seus ofícios ou deixar prioridades em segundo plano. “Os professores não podem abandonar algumas atividades, não podem deixar de atuar em sala de aula para se dedicarem a projetos, por serem financiados. Isso seria uma precarização do ensino, prejudicaria a área principal da universidade, a graduação”, alerta. As mesmas condições devem ser respeitadas quanto ao trabalho dos alunos que participarem da cátedra.

Estudantes de graduação, doutorado, mestrado ou cursos de especialização da Faculdade de Administração podem fazer parte da cátedra. Segundo Brei, a equipe será formada por professores e alunos orientados por eles, além de voluntários (por meio de seleção). As pesquisas começaram, oficialmente, em 10 de janeiro.

O retorno costuma ser baixo para a iniciativa privada

Para o presidente da seção sindical, os investimentos privados não são comuns no país pelas características dos estudos e pelo comportamento da indústria nacional. Segundo ele, o retorno das pesquisas costuma ser baixo, demorado e caro. “Na área de biologia, por exemplo, às vezes são testados mil remédios para determinada doença e apenas um ou dois são selecionados como eficazes. Isso após muitos testes”, explica.

Por isso, Gonçalves observa um mercado menos interessado em produção de conhecimento local do que deveria. “A indústria nacional é tradicionalmente de colônia, não de matriz. Ou seja, prefere comprar tecnologia do exterior e produzir no Brasil a desenvolver o conhecimento através de pesquisas”. Porém, ainda que o processo seja mais difícil, caro e demorado, os resultados são muito maiores, afirma. “Dessa forma, a soberania (sobre a tecnologia) está garantida”.

Raquel Mauler percebe avanços em relação à adesão de modelos de cátedras no Brasil. “O governo vem incentivando essa troca. Está se dando conta da necessidade de parcerias entre empresas e universidades para o desenvolvimento do país. A pesquisa evita a compra externa de tecnologia”.

Acordo limita investimentos de concorrentes

UFRGS e Tramontina firmaram um acordo de cooperação em 16 de dezembro de 2013. Com a assinatura do contrato, foi criada a cátedra Tramontina Eletrik na universidade, ficando encarregado pelo projeto o Grupo de Pesquisa sobre Marketing e Consumo (GPMC). O estudo será concluído em dois anos, contados a partir de 2 de janeiro deste ano.

Conforme o documento, a UFRGS tem “total independência técnico-científica, sem qualquer interferência, exclusividade e/ou monodependência econômica” da Tramontina. Além disso, a instituição pode agregar outras doações ao projeto, desde que não tenham origem de empresas concorrentes da empresa na área de produtos elétricos. A universidade pode utilizar livremente os resultados acadêmicos da pesquisa, desde que os direitos autorais sejam preservados.

Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra

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