Para o educador Charles Watson, ensinar é um ato político

Watson diz que o professor deve ensinar o aluno a pensar, a promover a reflexão. Ele ainda defende que a criatividade está ligada à motivação

29 ago 2013
09h45
atualizado às 09h46
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O currículo do escocês Charles Watson é extenso. Na juventude, foi lutador de boxe por um breve período, já foi artista plástico, leciona na Escola de Artes Visuais do Parque Lage desde 1982, é graduado em belas artes e literatura pela Faculdade de Bath, na Inglaterra, foi diretor do Centro de Arte Hélio Oiticica, além de consultor da University of Arts London. Atualmente, além das classes no Parque Lage, também ministra cursos e constrói barcos.

O escocês Charles Watson durante curso em Porto Alegre (RS)
O escocês Charles Watson durante curso em Porto Alegre (RS)
Foto: Renan Sander / Divulgação

Por muito tempo, Watson esteve imerso no mundo das artes, e quando ainda era pintor, aos poucos foi se interessando cada vez mais em um tema complexo, que permeou toda a sua experiência profissional, mesmo depois de deixar de lado o pincel para se tornar educador: o processo criativo. Este é o nome do curso que ele leciona regularmente na Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage, no Rio de Janeiro, e esporadicamente em outras cidades brasileiras - em agosto e setembro, é a vez de Porto Alegre receber o módulo 2 (confira serviço ao final da entrevista). O workshop, que já foi apresentado em cidades de todo o País, é fruto de mais de 25 anos de pesquisa.

Para Watson, ao contrário do que dita o senso comum, o processo criativo não pode estar baseado somente em instinto, acaso e inspiração. Ele acredita que, para alguém poder confiar em seu instinto, é necessário trabalhar e ter muita informação internalizada sobre seu ramo. E se engana quem acha que a criatividade está ligada unicamente ao mundo das artes. De cantores de ópera a cientistas, todos têm pontos em comum em seus processos criativos. Sobre este e outros assuntos, Watson falou em entrevista ao Terra , confira:

Terra - Em entrevistas anteriores, o senhor já disse que dar aulas é um dos atos políticos mais poderosos que existe. Por quê?
Charles Watson - Porque dar aulas é promover a reflexão, e isso é um ato político. Para que a pessoa adquira autonomia, é preciso ensinar a pensar, e não o que pensar, são duas coisas diferentes. É preciso pensar sobre como ela vive, como poderia viver, pensar além.

Terra - É possível ensinar a ser criativo?
Watson -
Eu diria que é possivel ensinar uma pessoa a estar mais ciente do que a impede de ser criativa. Se eu ensino a ver o que impede, grande parte da batalha já está vencida, mas isso deixa a iniciativa com o outro. Depende muito da própria pessoa, envolve muitas posturas - não dá para ensinar alguém se esse alguém é preguiçoso ou não quer aprender. Há um ditado que ilustra bem o que eu quero dizer: “você pode levar um cavalo para a água, mas não pode obrigá-lo a beber”.

Terra - Como se pode estimular a criatividade?
Watson -
Não se pode estimular ninguém a ser criativo se esta pessoa não tiver uma forte motivação. Mas se tiver, com isso pode fazer tudo. Um grande número de pessoas querem ser criativas, mas não têm o desejo forte.

Terra - Então este desejo forte seria a chave para a criatividade?
Watson -
Não, não há chave. Mas há alguns pontos comuns entre pessoas que tendem a ser criativas. Elas tendem a ser motivadas, curiosas, têm capacidade de focar, de tolerar ambiguidades. São capazes de manter duas ideias conflitantes em mente, sem precisar descartar uma delas, tendem a ser muito persistentes. A curiosidade faz com que procurem novas experiências. Tudo isso está relacionado. Estas pessoas têm também algo muito importante: uma boa dose de coragem para entrar em áreas que são novas, para explorar.

Terra - Qual é a sua visão de educação? Como desenvolveu sua metodologia de ensino?
Watson -
Ao longo de 35 anos dando aulas e acompanhando jovens artistas e designers, gente de outras áreas também. Escrevendo sobre isso e lendo muito sobre isso. Não sai tudo da minha cabeça simplesmente, é uma bibliografia bastante grande.

Terra - O senhor continua pintando? Como a carreira artística o levou a se tornar um educador?
Watson -
Há 20 anos já não pinto. Isso aconteceu de uma maneira natural, comecei a ficar mais interessado nesse assunto aos poucos. Fiquei impaciente com o que acontecia, a pouca repercussão... Veja bem, adoro pintura, não deixei de gostar, mas, aos poucos, fui atraído por esta área que tem mais importância e mais repercussão social.

Terra - O senhor afirma que só talento não basta, é preciso muito trabalho. Mas o trabalho pode suprir a falta de talento, chegando ao mesmo resultado?
Watson -
Não acredito muito em talento. Não quer dizer que não existe, não tenho como dizer se existe ou não, só não sei bem o que se quer dizer com isso, não é um conceito que eu compreenda muito bem. Por exemplo, algumas pessoas têm tendência a gostar mais de música, mas sem persistência e sem um contexto favorável, não acontece nada. Para pesquisar sobre talento precisa levar em conta muitas outras coisas, há um contexto muito mais complexo que deve ser levado em conta. É impossível mensurar o quanto é facilidade natural, talento, ou estímulo externo, contexto familiar, social, econômico, cultural, etc.

Em minha experiência como professor, sempre lembrei que, se esse talento quer dizer facilidade, o que acontece quando uma coisa é muito fácil: a gente relaxa, e se relaxa já não é mais tão bom. Por isso essa “facilidade natural” não garante nada.

Na verdade, eu não concordo com os termos que você usa. Não é uma questão de talento ou de trabalho. Se você gosta de uma coisa, faz mais e com isso faz melhor, insiste em estar em maior contato com a coisa, vai aprender mais rápido, ter mais êxito, se concentrar no fazer, e não no resultado. Hoje em dia se usa muito uma expressão à qual eu tenho horror. “Chegar lá” é uma expressão horrivel. O que é “chegar lá”? “Lá” onde? Não se quer chegar a lugar nenhum, apenas fazer, por isso se faz melhor.

Terra - A criatividade costuma ser ligada ao mundo da arte, mas se aplica igualmente às outras áreas?
Watson -
Sim, se aplica, mas há diferenças entre os sistemas de pensamento, como entre arte e ciência, por exemplo. Mas uma vez que se ultrapassa isso, os processos criativos são tão mais parecidos que se sobressaem mais do que as diferenças entre os temas.

Por exemplo, se Picasso não tivesse existido, não teríamos Guernica. Por outro lado, se Newton não tivesse vivido, outras pessoas teriam descoberto a gravidade, talvez não no mesmo momento, não da mesma forma, mas teriam descoberto. Mas os processos de criação são muito parecidos: ambos envolvem capacidade de trabalhar intensamente, investimento de muito tempo, grande curiosidade.

Terra - Por que a criatividade é tão fortemente ligada ao mundo da arte?
Watson -
Acho que o motivo pelo qual a criatividade é tão associada à arte é que a arte tende a envolver pensamento divergente.

Terra - O senhor pode explicar melhor?
Watson -
O pensamento convergente é quando há só uma resposta. Se eu lhe perguntar quando Getúlio Vargas morreu, você não vai responder que acha que foi no ano passado, a menos que seja louca. Não é uma questão de achar, é um fato concreto, a resposta é uma data e apenas aquela data. Já o pensamento divergente tem várias respostas possíveis, variando em diversos quesitos. A produção de arte em geral tem a ver com o pensamento divergente. Quem faz a diferença em toda área são os que conseguem envolver uma boa dose de pensamento divergente no que fazem, indo além das normas de sua área, das fronteiras do usual em seu modo de pensar.

Terra - Em uma sociedade em que tudo é mais acelerado, se exigem resultados cada vez mais rápidos e que os profissionais sejam multitarefas, em vez de se aprofundar em um único tema. Como manter o processo criativo nestas condições?
Watson -
Não existe isso de "chegar mais rápido". O aumento da tecnologia mudou muita coisa, mas não muda o tempo que leva para o cérebro assimilar informações. Cognitivamente, pode até haver certas diferenças recentes, mas o que estamos falando é algo diferente, que envolve milhares de anos, e não muda assim tão rápido. Uma pessoa costuma levar cerca de 10 mil horas para internalizar os conhecimentos necessários para ter intimidade suficiente com um assunto para ser capaz de perceber nuanças diferentes, para inovar. Não sou eu que estou dizendo isso, da minha cabeça, é o que apontam diversos estudos sobre aprendizagem. Isso vale em qualquer área, cantores de ópera, cientistas, todos os que fizeram a diferença são os que se empenharam e dedicaram um bom tempo, que estiveram focados na área, que primeiro trabalharam duro, para depois fazer a diferença.

Terra - Qual a sua visão sobre a educação no Brasil?
Watson - No Brasil, a educação recebe muito pouco investimento, só que eu acho que educação é fundamental. A falta de investimento em educação é um erro colossal do Brasil, o futuro do País são as pessoas que o país produz, e não o pré-sal ou soja, como muitos parecem pensar, o futuro de um país não está nisso. A capacidade de inovar nunca foi tão importante quanto é atualmente, e isso cada vez aumenta mais. O investimento em educação é o que vai fazer a diferença no futuro, sem dúvidas, e quem negligenciar isso vai ficar para trás.

Serviço:
O Processo Criativo - Estratégias e estruturas recorrentes - módulo 2
Data: 29, 30, 31 de agosto e 1 de setembro
Horários: 29 e 30 de agosto, das 18h30min às 22h30min; 31 de agosto e 1 de setembro, das 14h às 18h (16 horas/aula)
Local: Auditório Barbosa Lessa do Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1.223 - Centro Histórico, Porto Alegre/RS)
Mais informações: processocriativopoa@gmail.com

Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra

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