Pais apostam em intercâmbios para estimular autonomia dos filhos

Pais apostam em intercâmbios para estimular autonomia dos filhos

26 fev 2012
16h56

Anna Letícia Velasco tinha 15 anos quando partiu rumo a uma temporada na pequena Glencoe, no estado americano de Minnesota, para uma experiência de high school, equivalente ao ensino médio brasileiro. A pouca idade da carioca não foi motivo de ansiedade - nem dela, nem da família. "Eu era filha única, e minha mãe queria que eu aprendesse a me virar", diz.

Rechear o passaporte com destinos é uma opção para os pais que buscam maneiras de desenvolver a autonomia de seus filhos. Quem já participou de um intercâmbio garante: um período fora do país pode ajudar na hora de lidar com problemas e imprevistos. "Eu amadureci 10 anos em seis meses", garante Anna.

A estudante conta que a ideia era ficar em uma cidade pequena - daí a escolha de Glencoe, que tem apenas 5 mil habitantes. "Tive sorte, fiquei na casa de uma família muito boa. Falo com eles até hoje", conta. Além da busca por autonomia, um dos objetivos era fortalecer o inglês, tarefa que ela garante ter desempenhado bem. Entre as maiores dificuldades, ela lembra a mudança brusca de temperatura - saiu do 40°C comuns no Rio de Janeiro para uma temporada de fortes nevascas nos Estados Unidos.

Anna aponta outro fator que pode tê-la impedido de aproveitar ao máximo a experiência: a imaturidade. "Poderia ter feito mais amigos, mas acabei ficando muito em casa, com a família. Não saía muito. Eu era tímida", lembra. Mesmo assim, garante que a experiência é válida. "Tive de ajudar nas tarefas domésticas, precisava manter meu quarto arrumado. Eu cresci", afirma.

Programas curtos podem ser 'primeiro gostinho'
A temporada de high school é apenas uma das alternativas apresentadas aos adolescentes por agências de intercâmbio. Com a crescente demanda por pacotes para o exterior, as empresas vêm apostando cada vez mais no público jovem. Segundo o gerente de intercâmbio teen da Central de Intercâmbio, Gabriel Canellas, viajar sozinho ainda na adolescência - normalmente a partir dos 14 anos - pode ajudar quem planeja se aventurar por temporadas mais longas quando mais velho. Para essa faixa etária, os programas mais tradicionais variam de duas a quatro semanas. "É uma primeira experiência de intercâmbio, o primeiro gostinho", diz. De acordo com Canellas, entre os destinos mais procurados estão Inglaterra, Estados Unidos e Canadá.

Diferente da escolha de Anna, para que decide por um programa de seis meses, Canellas explica que as opções de curta duração equilibram estudo e lazer. O monitoramento dos jovens é constante. Com a opção de ficar em acomodações estudantis ou em casas de família, os grupos participam de uma programação que prevê aulas e passeios. "O estudante se torna responsabilidade do monitor e da família que o hospeda. Eles têm horários estipulados, precisa dar satisfações. Muitos gastos também estão incluídos, para que eles não precisem se preocupar tanto com o dinheiro", afirma.

Os programas mais curtos são os preferidos dos pais justamente por haver menos liberdade, já que, em experiências de high school, o estudante vai sozinho, sem o acompanhamento de um grupo de jovens e monitores. Para Canellas, uma temporada mais longa exige maturidade. "É muito mais ele com ele mesmo. Ele precisa ter ciência de que, se não cumpre as regras, volta para o Brasil na mesma hora", enfatiza.

O gerente de intercâmbios teen garante que a pouca idade não é motivo para adiar uma viagem a outro país. "Quando você é jovem, a absorção da cultura é maior. Em um programa curto, certamente você não vai adquirir fluência, mas ele quebra a maior barreira, que é soltar a língua para falar", diz. Aprender a lidar com situações inusitadas longe dos pais é outro aspecto que o gerente da CI destaca. "Não é uma questão de aproveitar mais, mas de aproveitar diferente", destaca.

Anna faz parte do grupo dos que, depois de um intercâmbio na adolescência, sonha com uma nova experiência no exterior. Aos 20 anos, ela planeja uma temporada de estudos em uma universidade de Salamanca, na Espanha. Para o gerente de intercâmbio teen da CI, a experiência anterior vai contar pontos a seu favor. "Ao viajar na fase adulta, esses adolescentes já vão ter superado barreiras que provavelmente seus colegas que nunca viajaram vão encontrar", afirma.

A professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB) Fátima Guerra aponta a vivência cultural como um dos maiores motivos para estimular as experiências internacionais ainda na adolescência. "Vale a pena abrir os horizontes, ter uma visão diferente do mundo. Nesses programas, é possível ter contato com pessoas de vários países, o que é muito positivo para se distanciar da realidade com a qual o jovem está acostumado", afirma.

Para a PhD em educação infantil, ter maturidade não é decisivo. "O intercâmbio é uma maneira diferente de chegar à maturidade. Essa experiência pode dar outra direção ao processo de desenvolvimento do jovem", opina. A professora recomenda, no entanto, que o planejamento da viagem tenha o acompanhamento dos pais. "É muito importante saber para onde ele vai, quais serão os contatos e onde vai estar o suporte", aconselha.

Anna Letícia passou seis meses nos Estados Unidos e disse que amadureceu 'dez anos'
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Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação
Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra
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