- Celso Bejarano
- Direto de Campo Grande
Um livro de 204 páginas produzido por um aluno de 16 anos de idade que cursa o 3º ano do Ensino Médio em uma escola particular de Campo Grande (MS) tem gerado polêmica entre educadores e pais de alunos. A obra, aplicada no projeto didático para alunos do 6º ano do Ensino Fundamental cuja idade varia de 10 a 11 anos de idade, tem palavras de baixo calão completamente inadequadas para a idade.
A polêmica surgiu nesta terça-feira quando a publicitária Ângela Govea, tia de uma aluna do 6º ano da Escola Olivia Enciso mandou para a imprensa local trechos da obra a qual ela tem tratado como "lixo literário". O livro intitulado Dia 4, de Vithor Torres, contém palavras como "putinha, caralho e biscatinha" e foi incluído pela direção da CNEC (Campanha Nacional de Escolas da Comunidade) na escola pelo projeto "Conhecendo o Autor".
Vithor Torres afirma que o livro lançado em novembro passado reproduziu diálogos de passageiros de um ônibus que seguiu de Campo Grande a São Paulo. O propósito do autor, segundo ele, era reproduzir as conversas dos passageiros, exibir o modo de comunicação das pessoas. "As tevês e a internet bombardeiam com palavrões bem piores do que aparecem em meu livro. Não fiz apologia a nada, apenas reproduzi diálogos", disse o jovem escritor.
A publicitária Ângela Govea disse que em 19 das 204 páginas havia expressões que, segundo ela, seriam impróprias às crianças. Entre outras frases consideradas inadequadas, fazem parte do livro: "Era ou puta semi-aposentada ou cafetina"; "Não era um bebê e sim dois. Eles gritavam, riam e gemiam em coro. Minha vontade era de pegar os dois e dar uma bela duma bica"; "Enquanto passavam pelo meu banco, as putas já estavam fora do ônibus"; "Caraaaaaaaaalho! - Exclamava ao ler a carta"; "Cê fala isso de novo que eu te dou uma porrada".
"Ccomo vocês podem perceber, a linguagem poética do livro é bem profunda, nossas crianças precisam mesmo disso? A meu ver demonstra caráter racista, preconceituoso, com palavras de baixo calão e de pouco (pra não dizer nenhum) teor educativo/cultural. Isso fere os princípios éticos básicos de qualquer instituição de ensino", afirma a publicitária.
Já a coordenadora pedagógica da escola, Célia Regina Tavares Rino, considera que a publicitária teria se precipitado na crítica ao observar apenas as "frases soltas" do livro. E, mesmo sob o protesto da tia da aluna, Célia defende a permanência do livro como fonte de pesquisa dos estudantes do 6º ano. "A leitura e a análise do livro (Dia 4) possibilitarão desvelar situações postas, tais como a linguagem e termos tão usados irrefletidamente no cotidiano, disseminando preconceitos, racismo, situações inadequadas a boa vivência social".
Célia Regina disse que debateu o assunto ontem à noite com os pais de alunos de uma das salas do 6ª ano. "De 27 pais, apenas quatro refutaram o propósito do livro. Hoje à noite vamos discutir com os pais dos estudantes da outra sala, mas creio que a obra será mantida", disse a pedagoga.
O assunto mexeu também com deputados estaduais, que leram trechos do livro em sessão política, na manhã desta quarta-feira. Como resultado, opiniões contrárias e favoráveis à proposta da escola.
A publicitária prometeu recorrer ao Ministério da Educação (MEC) caso a escola insista no projeto. A impressão do livro custou R$ 2 mil e parte desse dinheiro foi bancado pelo comando da escola.
- Especial para Terra



