Notícias » Notícias

 Livro com palavrões adotado em escola de MS gera polêmica
24 de fevereiro de 2010 18h11 atualizado às 18h23

Celso Bejarano
Direto de Campo Grande

Um livro de 204 páginas produzido por um aluno de 16 anos de idade que cursa o 3º ano do Ensino Médio em uma escola particular de Campo Grande (MS) tem gerado polêmica entre educadores e pais de alunos. A obra, aplicada no projeto didático para alunos do 6º ano do Ensino Fundamental cuja idade varia de 10 a 11 anos de idade, tem palavras de baixo calão completamente inadequadas para a idade.

A polêmica surgiu nesta terça-feira quando a publicitária Ângela Govea, tia de uma aluna do 6º ano da Escola Olivia Enciso mandou para a imprensa local trechos da obra a qual ela tem tratado como "lixo literário". O livro intitulado Dia 4, de Vithor Torres, contém palavras como "putinha, caralho e biscatinha" e foi incluído pela direção da CNEC (Campanha Nacional de Escolas da Comunidade) na escola pelo projeto "Conhecendo o Autor".

Vithor Torres afirma que o livro lançado em novembro passado reproduziu diálogos de passageiros de um ônibus que seguiu de Campo Grande a São Paulo. O propósito do autor, segundo ele, era reproduzir as conversas dos passageiros, exibir o modo de comunicação das pessoas. "As tevês e a internet bombardeiam com palavrões bem piores do que aparecem em meu livro. Não fiz apologia a nada, apenas reproduzi diálogos", disse o jovem escritor.

A publicitária Ângela Govea disse que em 19 das 204 páginas havia expressões que, segundo ela, seriam impróprias às crianças. Entre outras frases consideradas inadequadas, fazem parte do livro: "Era ou puta semi-aposentada ou cafetina"; "Não era um bebê e sim dois. Eles gritavam, riam e gemiam em coro. Minha vontade era de pegar os dois e dar uma bela duma bica"; "Enquanto passavam pelo meu banco, as putas já estavam fora do ônibus"; "Caraaaaaaaaalho! - Exclamava ao ler a carta"; "Cê fala isso de novo que eu te dou uma porrada".

"Ccomo vocês podem perceber, a linguagem poética do livro é bem profunda, nossas crianças precisam mesmo disso? A meu ver demonstra caráter racista, preconceituoso, com palavras de baixo calão e de pouco (pra não dizer nenhum) teor educativo/cultural. Isso fere os princípios éticos básicos de qualquer instituição de ensino", afirma a publicitária.

Já a coordenadora pedagógica da escola, Célia Regina Tavares Rino, considera que a publicitária teria se precipitado na crítica ao observar apenas as "frases soltas" do livro. E, mesmo sob o protesto da tia da aluna, Célia defende a permanência do livro como fonte de pesquisa dos estudantes do 6º ano. "A leitura e a análise do livro (Dia 4) possibilitarão desvelar situações postas, tais como a linguagem e termos tão usados irrefletidamente no cotidiano, disseminando preconceitos, racismo, situações inadequadas a boa vivência social".

Célia Regina disse que debateu o assunto ontem à noite com os pais de alunos de uma das salas do 6ª ano. "De 27 pais, apenas quatro refutaram o propósito do livro. Hoje à noite vamos discutir com os pais dos estudantes da outra sala, mas creio que a obra será mantida", disse a pedagoga.

O assunto mexeu também com deputados estaduais, que leram trechos do livro em sessão política, na manhã desta quarta-feira. Como resultado, opiniões contrárias e favoráveis à proposta da escola.

A publicitária prometeu recorrer ao Ministério da Educação (MEC) caso a escola insista no projeto. A impressão do livro custou R$ 2 mil e parte desse dinheiro foi bancado pelo comando da escola.

Especial para Terra