- Vagner Magalhães
- Direto de São Paulo
O cancelamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que seria realizado em 4 e 5 de outubro, após a confirmação do vazamento da prova, colocou em xeque da avaliação, que seria realizada por 4,1 milhões de estudantes. O resultado poderia ser utilizado no processo seletivo de 42 das 55 universidades federais do País. Em entrevista ao Terra,a professora Maria Márcia Malavasi, coordenadora associada do curso de Pedagogia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), afirma que a confiabilidade no sistema só será recuperada se o Estado estiver interessado em aperfeiçoar o processo. Segundo ela, o dano poderia ter sido ainda maior caso a fraude fosse descoberta após a realização dos exames. Leia os principais trechos da entrevista.
Terra - O que se pode fazer para recuperar a credibilidade do Enem?
Maria Márcia Malavasi - Essa confiança, me parece, será recuperada quando o Estado mostrar que de fato está interessado em consertar o erro. Ou seja, ter uma outra logística, ainda neste ano. É um exame que precisará mostrar a que veio, não só no conteúdo, mas na importância que o MEC dará a ele em relação à logística. Fraude em vestibular não é um fenômeno novo neste País, mas o importante é que seja detectado antes de o prejuízo maior ser causado, ou seja, incluir pessoas que não poderiam ter entrado e excluir pessoas que deveriam ter entrado. Nesse sentido, isso foi acudido a tempo.
Serão precisos vários exames como esse, com sucesso, para que gradativamente a população venha a ter confiança nele. E isso que estou dizendo até independe do episódio. Como ele iria ser aplicado dessa forma, com essa importância, como índice de entrada em algumas federais ou mesmo em algumas privadas, ele também pede um tempo para que haja confiabilidade por parte da população. O episódio só veio a agravar algo que é natural. Quando algo está sendo implementado, as pessoas desconfiam. Então o episódio agravou e é natural as pessoas terem medo.
Terra - O modelo do Enem é adequado para um País com as dimensões e diferenças regionais do Brasil?
Maria Márcia - Eu acredito que vestibular ou qualquer forma de exclusão de alguém na escola é gravíssimo. Qualquer tipo de vestibular ou qualquer tipo de exame que tire alguém da possibilidade de estudar é muito ruim. Agora, nós não temos outros modelos no Brasil, diferente do Uruguai, da França, onde todas as pessoas ingressam e ao longo do ano vão fazendo os exames para ver se prosseguem ali ou não. O Brasil não tem esse modelo. O nosso modelo é de exclusão imediata a partir de uma prova, de um dia. Isso é uma pena.
Como nós não temos outro modelo, o que temos precisa ser muito bom. E eu prefiro o modelo nacional, que ajuda muito o estudante, em um País imenso como o Brasil. Facilita para ele em termos de transporte, ou seja, o menino acaba prestando, quando ele tem condições, dez, doze vestibulares. Isso traz uma carga de estresse enorme em relação a transporte, o que é menos importante se pensarmos no gasto financeiro que ele tem. E nem sempre ele é de uma elite que pode tranquilamente pagar tudo isso. Nós vemos alunos oriundos de classes menos favorecidas numa luta imensa para poder prestar mais do que um vestibular.
Então, um exame nacional, onde o aluno permaneça na sua localidade ou na região da sua cidade de estudo é muito bom. E que possa dar uma pontuação a ele que possibilite um elenco de escolas de ensino superior que ele possa ter a chance de ingressar em uma, duas ou três, ou escolher. Então me parece que o Enem é o início. Evidentemente ele precisa de muitos ajustes. Mas nós estamos começando. Particularmente eu gosto muito da ideia de um exame nacional que possa facilitar a vida desses jovens.
Terra - As providências tomadas após a descoberta da fraude foram suficientes?
Maria Márcia - Eu não conheços os bastidores. O que eu vi foi o que todos viram. Acho que a entrada da Polícia Federal foi muito boa, propícia e adequada. Ela deve estar sempre presente. Não só para acompanhar, mas para poder dizer qual é a melhor forma, quais são os melhores caminhos para se evitar fraudes. Imagino que eles sempre devam ser ouvidos anteriormente para que todas as providências sejam tomadas procurando evitar qualquer incidente dessa natureza.
Terra - E em relação aos problemas com o deslocamento de pessoas, já que muitos locais de provas eram excessivamente distantes para alguns alunos?
Maria Márcia - Neste próprio ano já é possível arrumar. Já há alguma iniciativa nesse sentido, de deslocar os alunos que por acaso preencheram errado ou porque no trabalho de programação, de divisão de espaços de escolas, deve ter havido algum problema. Mas isso, qualquer pessoa que trabalhe bem com a informatização consegue alocar rapidamente. Eu acredito que esse não seja um problema e que possa a cada ano ser aperfeiçoado. Agora é preciso ter uma equipe consistente e forte que saiba trabalhar com isso também.
Terra - E em relação à profundidade da prova?
Maria Márcia - Eu não vi a prova. Há uma matriz que vem sendo construída ao longo do tempo, nos vários anos que o Enem é aplicado, que irá constituir o que a gente chama de série histórica. Agora eu, particularmente, pelas outras provas que vi, acho que ainda é uma matriz um pouco frágil e que precisa ser melhorada. É claro que ela tem itens retirados dessa matriz de referência, uns bem feitos, outros nem tanto, mas eu acho que isso é uma questão também para ser trabalhada com especialistas.
No Brasil tem muita gente boa, que sabe trabalhar muito bem na construção de matriz de referência para avaliações municipais, estaduais ou nacionais. Particularmente eu acredito que nós temos outros exames que tem uma matriz melhor que o Enem. Acho que ele vem melhorando, mas ainda falta muita coisa.
Terra - Os educadores, em geral estão preparados para atender as necessidades dos alunos a partir desse modelo de prova interdisciplinar proposta pelo Enem?
Maria Márcia - Se eles não estão, eles precisam se preparar. O nosso problema não é o educador estar preparado para isso. Nós temos um problema gravíssimo de formação de professor no Brasil. Então, com esse modelo ou outro, nós vamos detectando falhas graves no processo de aprendizado, que tem outra origem, que não é exatamente o modelo do Enem. Mas é muito mais ligado à formação inicial e continuada do professor. Lamentavelmente nós temos muitos cursos superiores que formam muito mal o professor. Muitos deles privados, não quero generalizar, mas lamentavelmente a maior parte deles está no campo privado. E lamentavelmente também o governo não lançou ainda uma política corajosa para fechar esses cursos.
E quem é penalizado é o sujeito que vai se formar nessas instituições de pouca qualidade. Aí ele se forma como professor despreparado para ir para uma sala de aula de qualquer nível de ensino, de educação básica ou superior. Aí esse sujeito mal formado vai ter dificuldade para trabalhar com o modelo do Enem, com o modelo do antigo Provão, com o modelo do Enad, com o modelo do Saeb, ou seja, eu posso arrumar esse currículo, posso realocar as áreas de conhecimento, que ele sempre terá dificuldade.
A não ser que se faça o que se faz no Estado de São Paulo. Uma cartilha, que o professor ensina só aquilo e o Saresp só pergunta aquilo para classificar bem os alunos do Estado. Isso é um outro mecanismo bastante artificial usado em São Paulo para produzir bons resultados. É um desafio bastante longo, que precisará de gente muito séria à frente dele, mas acho que é possível que se faça algo melhor do que temos feito ao longo da história do Brasil para a meninada que quer ingressar no ensino superior.















