Não atire o pau no gato: correção política altera cantigas

‘Não atire o pau no gato’ ganha espaço em salas de aula infantis; Boi da cara preta e Cuca não têm a mesma sorte

18 nov 2014
07h47
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<p>Algumas canções são proibidas de serem cantadas em algumas escolas. Outras músicas, por sua vez, ganharam novas letras - atuais e politicamente corretas</p>
Algumas canções são proibidas de serem cantadas em algumas escolas. Outras músicas, por sua vez, ganharam novas letras - atuais e politicamente corretas
Foto: iStock

Gato agredido, boi que sequestra crianças, cravo que discute (na melhor das hipóteses) com uma rosa - as letras das músicas infantis tradicionais, parte do folclore brasileiro, são questionadas quanto ao conteúdo nas escolas brasileiras. Colégios ouvidos pelo Terra contam que há orientações aos professores para não cantarem determinadas canções em meio aos pequenos. Outras músicas, por sua vez, ganharam novas letras - atuais e politicamente corretas.

“Atirei o pau no gato”, por exemplo, foi adaptada para incentivar a defesa dos animais em sala de aula. Na canção original, o bicho apanha de um pedaço de madeira e consegue resistir. Mas o berro do gato é forte a ponto de causar “admiração” em Dona Chica. Na Escola Meu Castelinho, em São Paulo, a antiga música sempre vem acompanhada de uma versão que aconselha a não atirar nada no pobre gato, que é “nosso amigo.” 

De acordo com Andrea Caran de Oliveira, orientadora educacional da Meu Castelinho, a escola aconselha os professores a não cantarem certas músicas que julguem impróprias. “As canções antigas representam a tradição e a cultura brasileira, mas, automaticamente, a criança vai interpretando a letra, e a informação vai para o repertório dela”, afirma. A medida evitaria que os objetivos de formação escolar e os versos das canções entrassem em confronto.

Brincadeiras que envolvam músicas também sofreram mudanças sutis na escola. Em vez de cantarem “O fulano (nome da criança) roubou pãããão na caaasa do João”, verso que faz alusão a um crime, as crianças dizem que o colega apenas “pegou” o alimento - assim ninguém ficaria constrangido.

Já as músicas “Boi da cara preta” e “Nana neném” não saem da boca dos docentes da Escola de Educação Infantil Pirlimpimpim, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Segundo Aline Gorete Pereira, professora da escola, as duas cantigas têm intenção de colocar medo nas crianças - já que o Boi e a Cuca, mais agressivos que o indefeso gato, querem sequestrá-las. No entanto, Aline garante que os alunos não são repreendidos se começarem, por conta própria, a cantarem em aula.

Também há quem defenda o uso dessas músicas nas salas de aula, desde que com a ênfase adequada. Alessandra Gomes Nunes, professora de música do Colégio Santa Maria, de São Paulo, apresenta “O cravo brigou com a rosa” e “Samba lelê” a seus alunos sem alteração alguma nos versos. 

A primeira música pode ser entendida como uma cena de agressão, já que a rosa sai “despedaçada” de uma briga com o cravo - que também sai “ferido”. No entanto, para Alessandra, há como mostrar o lado lúdico da canção, sem reforçar o sentido de agressividade: basta não analisar a cena de modo literal. A discussão das flores seria interessante, inclusive, para trabalhar atividades de dramatização, como uma peça com fantoches.

Da mesma forma, “Samba lelê” - que parece estar com a cabeça quebrada e doente, mas precisa é de “boas palmadas” ou “boas lambadas” - não é deixada de lado por Alessandra por causa de seu aspecto rítmico. Além disso, o fato de os pais terem crescido ouvindo músicas como essas torna inevitável o contato da criança com suas letras, seja na escola ou mesmo em casa. “Se um aluno pede para sua avó cantar, muito provavelmente vai ser uma dessas.”

Outras músicas que recebem críticas são “A Canoa virou” e “Marcha soldado”. A primeira delas diz que foi culpa de determinada pessoa a canoa ter virado - e que ela vai ficar “no fundo do mar”. Para completar a desgraça, ninguém praticou aulas de natação, nem pretende arriscar um resgate. Na segunda música, o soldado que não marcha direito é convidado a ir à prisão do quartel.

O que as crianças ouvem na escola?
Algumas canções, mesmo antigas, não enfrentam resistência nas escolas, por aparentemente não terem nenhum aspecto politicamente incorreto. É o caso de “Ciranda, cirandinha”, “Dona Aranha”, “O sapo não lava o pé” e “Borboletinha”, de uso comum em vários locais ouvidos pelo Terra.

Mas nem só de clássicos do folclore vivem as crianças brasileiras. O estímulo visual de produções de Peppa Pig, Galinha Pintadinha, Patati Patatá, Xuxa e Eliana estão bastante presentes no cotidiano musical dos pequenos, dizem os professores. O desafio é enriquecer o repertório dos estudantes através de grupos menos conhecidos, diz Aline Oliveira, da Escola Pirlimpimpim.

Aline cita a dupla musical Palavra Cantada, além dos discos infantis de Kleiton & Kledir e Pato Fu. Andrea Oliveira, da Escola Meu Castelinho, acrescenta à lista grupos como Barbatuques, Tiquequê e Triii.

Certos momentos do dia têm uma trilha sonora própria em alguns colégios brasileiros. Quando as crianças vão se alimentar na Creche Escola Arte Infantil, do Rio de Janeiro, por exemplo, invariavelmente começam músicas relacionadas à atividade. “Meu lanchinho vou comer” ou algo do gênero, explica a coordenadora da escola, Viviane Badaró.

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