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14 de abril de 2013 • 08h25

Movimento defende que universidade não é o único caminho para sucesso

Fundado em janeiro de 2011 nos Estados Unidos, o UnCollege defende a independência acadêmica dos jovens

Dale Stephens, 21 anos, é líder do movimento UnCollege, que busca divulgar a ideia de que a universidade não é o único caminho para o sucesso
Foto: UnCollege / Divulgação
 

Dale Stephens tem uma ideia e quer propagá-la pelo mundo: a universidade não é o único caminho para o sucesso. Aos 21 anos, o fundador do movimento UnCollege traça como objetivo ensinar alunos a "hackearem" a própria educação, ou seja, a tomarem as rédeas em sua trajetória acadêmica sem serem absorvidos por conceitos previamente formados. "Eu acredito na escolha. Os estudantes devem ser livres para optar pela melhor direção para eles sem que a sociedade lhes diga que só há uma possibilidade", defende. O jovem está entre os convidados do Nova: o curso de educação da Perestroika, em Porto Alegre, com início no dia 20 de abril, e ministra palestra no dia 29 de junho.

Fundado em janeiro de 2011, o UnCollege conta com uma lista de contatos que atinge aproximadamente 15 mil pessoas. A equipe também utiliza o site (www.uncollege.org) para disponibilizar recursos para a independência acadêmica, como sugestões de leitura, listas com possíveis patrocinadores de projetos e dicas para aprender código de programação - algo essencial no mercado de trabalho, segundo eles.

Além disso, Stephens dá palestras pelo mundo todo para divulgar o trabalho do movimento e apresentar exemplos de pessoas que tiveram sucesso sem seguir as convenções. "Se nós mudarmos a percepção de que a universidade é a única possibilidade para o sucesso, vai permitir que aprendizes livres tenham as habilidades e os conhecimentos necessários em suas áreas, em vez de simplesmente obter um diploma", declara.

Outra atividade realizada para fomentar seu objetivo são os "Acampamentos Hackadêmicos" (Hackademic Camps), pelos quais passaram cerca de 80 pessoas. A iniciativa escolhe dez jovens por trimestre para passar um fim de semana em San Francisco, nos Estados Unidos, aprendendo a confrontar os principais problemas do ensino superior e a desenvolver habilidades para "hackear" a sua educação - o que inclui encontrar mentores e construir redes de contatos. Segundo o UnCollege, um hackadêmico é qualquer pessoa que seja curiosa, decida aprender e então compartilhar o conhecimento com o mundo, seja aos 15 ou aos 50 anos.

Em 2013, o movimento lança um novo programa para fortalecer a causa: o Gap Year, que pode ser traduzido como "ano de intervalo". Com custo de US$ 13 mil, a ação consiste em quatro etapas: os jovens, que devem ter de 18 a 28 anos, começam com uma residência de 10 semanas em San Francisco para desenvolver habilidades para uma "autoaprendizagem vitalícia". Depois, passam três meses fazendo intercâmbio e retornam ao Vale do Silício para um estágio de três meses. O programa culmina com os participantes criando um projeto que alguém se disponha a financiar – o que, segundo Stephens, é um sinal de que ele tem valor para o mundo real. A edição deste ano já encerrou as inscrições e recebeu mais de 300 candidatos.

Trajetória
Stephens, que também é autor do livro Hacking Your Education (Penguin, 2013), entende de educação não tradicional e pode defender sua causa com propriedade. Aos 12 anos, ele largou a escola e passou a estudar em casa por meio de um método chamado unschooling, termo cunhado em 1977 pelo educador John Holt. "Isso permitiu que eu direcionasse meus próprios estudos na escola e fosse em busca dos meus interesses, como tocar em uma banda de jazz, lançar e vender um negócio de fotografia, trabalhar em uma campanha política e viajar para o exterior", exemplifica.

Stephens conta que se sentiu muito frustrado no período em que esteve na escola pública, pois não estava sendo desafiado academicamente. "Eu queria escapar das estruturas rígidas do sistema escolar", relata. O jovem disse isso aos pais, que se dispuseram a deixar o filho tomar a própria decisão. "Meu amor pelo unschooling foi imediato. Depois do meu primeiro dia no método, eu disse para a minha mãe que eu havia aprendido mais naquele dia do que em toda a 5ª série", garante.

Aos 19 anos, Stephen ingressou na Hendrix University, uma instituição liberal de artes no Arkansas. De acordo com o líder do UnCollege, o motivo para ter entrado na universidade foi apenas um: é o que a maioria faz. Ele afirma que, como grande parte dos jovens, ele acreditou que precisava de um diploma para conseguir um emprego e ser bem-sucedido. Em apenas um semestre, contudo, o jovem começou a questionar esses preceitos. "Os outros alunos eram completamente desinteressados, e as aulas não tinham nenhuma relevância para o que eu queria fazer com o resto da minha vida. Concluí que não valia a pena gastar tanto tempo e dinheiro naquilo e decidi voltar a autodirigir minha educação", declara.

Graças a essa frustração acadêmica, surgiu o UnCollege. Stephens escreveu um artigo explicando todas as críticas e problemas do ensino superior, enviou para todos os contatos que encontrou e, em pouco tempo, o texto estava sendo publicado em canais de notícias. A partir daí, o jovem lançou o site do movimento e escreveu o The UnCollege Manifesto: Your Guide to Academic Deviance (Manifesto UnCollege: Seu guia para o desvio acadêmico).

Em maio de 2011, Stephens foi selecionado para o Thiel Fellowship, programa do empresário Peter Thiel (cofundador do PayPal) que dá US$ 100 mil para 20 pessoas com menos de 20 anos com o objetivo de incentivá-las a largar a faculdade e investir em seus próprios projetos. Na primeira vez que tentou participar, contudo, foi rejeitado. “Eles me convidaram para me candidatar novamente usando o UnCollege como projeto, e eu fui aceito. Foi uma oportunidade fenomenal que me deu os recursos necessários para lançar o movimento colo ele é hoje”, conta.

Futuro
Para Stephens, o futuro da educação passa pela ideia divulgada pelo UnCollege. Ele acredita que a gestão do ensino vai mudar das instituições para os indivíduos. “Com a riqueza de fontes existentes de graça ou por uma pequena fração do preço de uma universidade, as pessoas vão escolher a trajetória que funciona melhor para elas”, aponta.

O jovem crê que, apesar de se encontrar em uma realidade diferente da americana, na qual surgiu o movimento, o Brasil também tem condições de aproveitar os “mandamentos” do UnCollege. Stephens destaca que a ideia de um aprendizado autodirigido e permanente pode ser aplicado a qualquer um, em qualquer lugar. “Esteja você no Brasil ou nos Estados Unidos, dentro ou fora da escola, empresário ou não, você pode tomar o controle no seu trabalho e na educação aplicando essa mentalidade hackadêmica”, ressalta.

Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra