Misturar as panelinhas na escola pode ser saudável

1 nov 2010
10h36
atualizado às 10h41

Todo mundo já sabe que os grupos de amizade, as tão conhecidas panelinhas, se formam por afinidade. Pode ser por gosto musical, roupa, interesses, meio social, comportamento. Mas até que ponto conviver apenas com pessoas que têm características comuns é saudável? Cada vez mais educadores, psicólogos, pedagogos e, quem diria, os próprios alunos, descobrem o quanto é rica a experiência de participar de outros grupos e aprender com a diversidade.

Segundo especialista, conviver com o diferente traz amadurecimento emocional
Segundo especialista, conviver com o diferente traz amadurecimento emocional
Foto: Getty Images

A tarefa, no entanto, não é simples. O mais comum é que os estudantes acabem se aproximando daqueles com quem se identificam. Aliado a isso, a resistência à mudança e ao novo, características do ser humano, também contribuem para que se perpetue a comunidade de ficar com aqueles que formam uma zona de segurança e conforto.

Por isso, misturar as panelinhas requer habilidade para que não se torne algo imposto. "É preciso ter cuidado e pensar em uma atitude mais democrática para colocar a questão em pauta, não apenas separar quem tem afinidade", adverte Ana Júlia Kloeppel, gerente pedagógica da Aymará Edições e Tecnologia, desenvolvedora de projetos educacionais.

O importante, ressalta a especialista, é mostrar aos alunos que eles vivem em um universo plural, e que a escola não pode se distanciar disso. "Assim como é bom estar com aqueles que nos identificamos, também nos traz amadurecimento intelectual, cognitivo e maturidade emocional quando convivemos com os diferentes e temos essa troca", explica Ana Júlia.

O jogo de cintura nessa hora é muito importante, e a estratégia pode acabar sendo divertida. Na Escola Neo-Humanista de Ensino Fundamental Ananda Marga, em Porto Alegre, dificilmente a turma entra em aula e encontra as classes na mesma disposição. Cada dia, um desenho diferente espera pelos alunos. "Podem estar em duplas, quartetos, formato de U ou em círculo. Eles gostam muito dessa brincadeira que acaba estimulando o convívio com todos", revela a psicóloga escolar, Adriane Pires do Amaral.

Os trabalhos também são feitos de forma a estimular o contato com os opostos. Essa é a fórmula que a escola encontrou para desenvolver talentos. Os mais tímidos entram no grupo dos mais comunicativos, quem sabe desenhar fica com os que gostam de escrever, exemplos que mostram a possibilidade da troca de experiência de forma prazerosa. Quando os mais resistentes à mudança reclamam, o negócio é mostrar que a experiência pode ser, sim, muito positiva.

Para vencer o desafio, o Colégio Renovação, de São Paulo, está sempre tentando uma estratégia nova, tanto para o ensino fundamental quanto para o ensino médio. Além de eventos organizados ao longo do ano, são feitos sorteios para a formação de grupos. "A ideia é propiciar o convívio para que os alunos possam se conhecer melhor", afirma Cláudia Baratella, vice-diretora do colégio.

Uma das iniciativas que tem surtido bons resultados é a mostra literária. Ali, cada turma precisa agir de forma conjunta para se apresentar, seja com peças de teatro, música ou mímicas para fazer a releitura de obras da literatura. Isso faz não só com que todos se envolvam, mas que um precise do outro para que o trabalho final tenha sucesso. "Uns ficam responsáveis pelo figurino, outros pelo contexto musical ou iluminação", exemplifica Cláudia.

Mas não são apenas crianças e adolescentes que tentam se agarrar às panelinhas na escola. Em plena universidade, esse comportamento é muito comum. Tanto que o professor Bruno Figueredo, que dá aula de marketing digital e comércio eletrônico nos cursos de graduação de Administração e Marketing na Faculdade Politécnica de Uberlândia, Minas Gerais, optou por adotar uma postura diferente em sala de aula.

Mesmo atendendo a estudantes do terceiro e quatro semestres, Figueredo constatou que os universitários tinham a tendência de formar panelinhas. Na faculdade, isso aumenta em virtude dos trabalhos em grupos. Só que esse comportamento pode trazer sérios riscos à vida profissional. ¿É ali que o estudante está aprendendo o seu futuro ofício e, quando ele chegar ao mercado de trabalho, não vai poder escolher trabalhar com quem gosta¿, destaca Figueredo.

Por integrar a geração Y - que tem como marcas ser bem informada, questionadora e ter vontade de subir na carreira -, Figueredo, 25 anos, aprendeu como evitar as queixas. "A geração Y é bem seletiva. Mas eles precisam lembrar que, nas empresas, vão precisar conviver com diferentes gerações. E é essa visão mais crítica que acabo estimulando nesses jovens", conta.

A estratégia, então, é separar líderes diferentes para cada atividade. E cabe ao líder recrutar os integrantes do seu grupo. "Eles têm certa rejeição no início, mas depois agradecem porque percebem que se desenvolveram e conheceram pessoas diferentes", diz Figueredo.

Fonte: Redação Terra

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