MG: turno integral em escolas melhora nível de leitura de alunos

21 set 2012
07h59
atualizado às 08h02

O final da manhã se aproxima quando soa o sinal que marca o término do último período de aula de uma escola da rede estadual de Minas Gerais. Mas não é hora de ir para casa. Em vez de pegar as mochilas e atravessar o portão, é preciso tomar banho, almoçar e se preparar para mais algumas horas com os colegas. Entre jogos na quadra de esportes, tarefas passadas pela professora e saídas para bibliotecas e museus da cidade, quem participa do projeto Educação em Tempo Integral faz parte de estatísticas que motivam a expansão da carga horária de atividade para alunos no estado e no Brasil.

Criada em 2007, a iniciativa surgiu para suprir dificuldades de aprendizado de alunos carentes de Minas Gerais
Criada em 2007, a iniciativa surgiu para suprir dificuldades de aprendizado de alunos carentes de Minas Gerais
Foto: Divulgação

Criada em 2007, a iniciativa surgiu para suprir dificuldades de aprendizado de alunos carentes de Minas Gerais. Segundo o coordenador Gustavo Nominato, a ideia era melhorar o desempenho dos alunos a partir de atividades realizadas no contraturno das aulas. Os resultados foram bons. "Tivemos avanços já nos primeiros anos. Entre 2009 e 2010, monitoramos o desempenho desses estudantes. No primeiro ano, apenas 60% apresentava nível de leitura considerado satisfatório para a faixa escolar. Um ano depois da implantação do projeto, esse número saltou para 79%", diz.

Vem ganhando força a ideia de estimular a presença de alunos no ambiente escolar - mas não apenas na escola - a partir de atividades interdisciplinares, que envolvem instituição de ensino e projetos parceiros. Em agosto, ao comentar os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) a presidente Dilma Rousseff reforçou o compromisso de ampliar o número de escolas com educação integral no Brasil. Atualmente, 32.419 escolas brasileiras nos 26 estados e no Distrito Federal participam do Programa Mais Educação, que prevê, de acordo com o Ministério da Educação (MEC), a articulação das disciplinas curriculares com diferentes campos de conhecimento, a integração entre as políticas educacionais e sociais que reúnam escola e comunidade.

Projeto prioriza alunos com baixo desempenho
A partir de 2011, a iniciativa mineira passou a atender mais alunos. "A proposta veio aliada ao Programa de Intervenção Pedagógica do governo de Minas. Nosso objetivo é fazer com que os alunos tenham melhor produtividade, mas que isso vá além das disciplinas tradicionais do currículo. Queremos ampliar conhecimentos esportivos, artísticos e de cidadania", diz. Para aumentar a abrangência do Educação em Tempo Integral, as escolas foram convidadas a mapear seus entornos e fazer parcerias com a comunidade. O objetivo era permitir que, entre si, instituições trocassem tecnologias e experiências e que, além disso, locais públicos - praças, museus, bibliotecas, cinemas - se transformassem em extensões da sala de aula.

Entre as atividades hoje oferecidas nas escolas estaduais mineiras, estão práticas esportivas, capoeira, aulas de música, teatro, cibercultura e trabalho em hortas escolares, além de acompanhamento pedagógico. "Damos liberdade para que cada região desenvolva ações de acordo com suas especificidades", destaca Nominato. Todas as atividades são acompanhadas por um professor.

Educação integral deve permitir que alunos circulem na comunidade
Fazer parcerias entre escolas, espaços públicos e ONGs é a base da educação integral, segundo a gerente da Fundação Itaú Social, Isabel Santana. A organização apoia instituições que trabalham com a prática, e inclusive lançou uma publicação apontando soluções para alcançar um desempenho ainda melhor. "A educação integral pressupõe uma articulação entre várias políticas públicas. É uma junção entre educação, assistência social, cultura, esporte, planejamento, espaço, limpeza urbana e alimentação", diz. Isabel defende parcerias na implantação de projetos. "Temos experiências pelo Brasil que desenham políticas educacionais em que o aluno não vai estar necessariamente na escola em tempo integral. O pressuposto é de que a criança tem de estar exposta a situações de aprendizagem o tempo todo, mas em espaços diversificados", diz. É o que acontece nas escolas mineiras. Ainda que a estrutura escolar esteja disponível para os alunos que participam do projeto, a ideia é que saiam do ambiente escolar e se integrem à comunidade. "A escola coordena o trabalho, mas faz parcerias com outros espaços. É um jeito de trazer a comunidade para o processo educacional, de responsabilizar todo mundo pelo desenvolvimento de nossos alunos", afirma Isabel.

Em Florianópolis (SC), alunos da Escola Básica Hilda Theodoro Vieira saem das aulas e vão para a Casa da Criança, no Morro da Penitenciária. A ONG trabalha com 100 crianças e jovens de seis a 16 anos, que têm apoio pedagógico, aulas de informática, dança, capoeira e tênis, além de acesso a biblioteca, brinquedoteca e atendimento odontológico. Em 2011, a iniciativa recebeu o Prêmio Itaú Unicef. "O que vale aqui é o contato diário, a presença de profissionais. Os professores percebem o quanto eles crescem aqui, os pais comentam que a desenvoltura é melhor. Participar dessas atividades é um estímulo também para a comunidade", diz o vice-presidente do projeto, Gilson Rogério Morais.

Pensar nas atividades desenvolvidas é um dos desafios de quem defende o aumento da carga horária de atividades dos estudantes brasileiros. Segundo Isabel, além de formar professores, estimular parcerias, buscar estrutura e monitorar resultados, é preciso contar com o apoio das secretarias de educação dos municípios. "O prefeito precisa entender e assumir que a educação integral é essencial para o crescimento econômico e social da cidade. É assim que dá certo. Deve haver uma preocupação em estruturar um currículo diferenciado, que dê conta da interdisciplinaridade. Não estamos ampliando a carga horária para fazer a mesma coisa por mais tempo", destaca a gerente da Fundação Itaú.

Em 1,6 mil escolas de 500 municípios mineiros, aproximadamente 115 mil alunos de ensino fundamental já são beneficiados por atividades em contraturno. Agora, a expectativa é expandir o projeto para o ensino médio. "Temos melhorado nossa infraestrutura, investido em formação, temos buscado a comunidade. Mas nós partimos para uma concepção de cidade educadora, e esse é um processo a longo prazo", diz Nominato.

Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra
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