Organizador de livro com palavrões repudia fala de Serra

25 de maio de 2009 • 13h48 • atualizado às 19h35
Livros com quadrinhos como o do cartunista Allan Sieber chegaram às mãos de alunos da 3ª série do ensino fundamental Foto: Futura Press
Livros com quadrinhos como o do cartunista Allan Sieber chegaram às mãos de alunos da 3ª série do ensino fundamental
25 de maio de 2009
Foto: Futura Press

Gonçalo Valduga


O organizador do livro "Dez na Área, um na Banheira e Ninguém no Gol", que possui histórias em quadrinhos e charges com palavrões e conotação sexual, repudiou as declarações do governador de São Paulo, José Serra, que classificou a obra como um "horror", de "muito mau gosto" e com "pornografia barata". Cerca de 1.216 exemplares do livro, que aborda temas relacionados ao futebol, foram ditribuídos pela Secretaria Estadual da Educação para serem usados como material de apoio por estudantes de terceira série da rede estadual - crianças na faixa de nove anos.

"A indelicadeza do governador ao denegrir a imagem do álbum para tirar o foco do problema principal parece estapafúrdia", criticou o ilustrador Orlando Pedroso. Para o profissional, José Serra cometeu mais um equívoco (além de ter distribuído, no seu governo, uma publicação inadequada para a idade dos alunos) ao desqualificar o livro em uma emissora de televisão, deixando de considerar e corrigir o erro grave cometido.

O "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol", publicado pela editora Via Lettera, gerou polêmica após o erro de seleção e distribuição ser descoberto. A obra conta com 11 histórias em quadrinhos, feitas por diferentes artistas, que abordam temas relacionados ao futebol. Entre as histórias mais criticadas por professores, um personagem feito pelo cartunista Allan Sieber diz "colorado é ***, já gremista é ** no ** mesmo". O conteúdo do álbum também possui outros termos impróprios.

O governo de São Paulo admitiu que houve falha na escolha e que determinou o recolhimento imediato das obras. O gerente de marketing da Via Lettera, Roberto Gobatto, informou que a editora apenas atendeu ao pedido de compra (no valor de cerca de R$ 35 mil) feito em novembro, na gestão de Maria Helena Guimarães de Castro na pasta da Educação.

Pedroso garantiu que ele e os demais cartunistas desconheciam o interesse da secretaria em distribuir o álbum para crianças. "Este livro nunca foi feito para ser oferecido em escolas, muito menos para crianças do ensino fundamental", destacou. "Desde quando foi lançado em 2002, logo após a Copa do Mundo, o livro teve críticas elogiosas e sempre esteve dentro do perfil correto de estar ao alcance de adultos que gostam de futebol", afirmou.

"Pornografia" na América Latina
De acordo com José Alberto Lovetro, presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil (ACB), se utilizado corretamente, o livro não é nenhum absurdo porque humor e temas impactantes são características das charges e histórias em quadrinhos. "O livro foi sacrificado pelo erro único do governo em oferecer o livro para alunos de 9 anos. Se fosse direcionado para a universidade, não teria a mesma repercussão negativa", examinou.

"Acho muito mais 'pornográfico' um erro como o livro didático que tinha incorreções no mapa da América Latina", declarou Lovetro, citando um outro erro do governo de São Paulo, que distribuiu este ano aos alunos da 6ª série do ensino fundamental um livro de geografia com erros no mapa da América do Sul, como dois Paraguais, o Uruguai no lugar do Paraguai e a ausência da Venezuela. Neste caso, segundo Lovetro, "não houve tanta repercussão por parte da imprensa".

As transmissões de futebol, disse Lovetro, não evitam o som dos palavrões cantarolados pelas torcidas. Portanto, não é criação dos desenhistas a linguagem chula, apenas estão colocando o que todos ouvem em um jogo de futebol pelas transmissões livres de censura.

O cartunista Allan Sieber, autor da história em quadrinhos sobre a dupla Grenal, ressaltou que o erro foi cometido por quem deixou que o livro chegasse ao ensino fundamental. "Provavelmente a pessoa que escolheu devia pensar que o conteúdo era feito especialmente para crianças", ironizou.

"Acredito que o responsável não tenha lido a obra, apenas gostado da capa e autorizado a compra. É uma incompetência exclusiva do Estado", criticou. Segundo ele, nem o livro e muito menos seus autores podem ter sua "credibilidade manchada" pelo problema.

Terra
 
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