O professor do Colégio Militar, coronel Hiram Reis e Silva, treina para percorrer os 1,8 mil km de caiaque pelo rio Solimões e afluentes junto à equipe |
Fabiana Leal
Direto de Porto Alegre
Porto Alegre
O Colégio Militar de Porto Alegre fará uma missão para a Amazônia para colher dados sobre o local e trazer o material para ser utilizado em sala de aula por alunos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Com um gravador e uma câmera digital, a idéia da equipe é percorrer 1,8 mil km de caiaque pelo rio Solimões e afluentes e trazer na bagagem 1,6 mil fotografias e 300 horas de gravação em áudio.
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Este material também será reunido em um livro, que, segundo definição do professor do Colégio Militar, coronel Hiram Reis e Silva, será escrito "a mil mãos". A idéia de editar um livro, segundo ele, é poder levar aos alunos do colégio e à população brasileira a realidade dos campos político, social, histórico, cultural, fisiográfico e do meio ambiente da região amazônica. Nesse material, será relatada a viagem, suas conclusões e suas reflexões.
"O projeto é escrever um livro nos moldes de um diário de viagem, trazendo os relatos, as observações e reflexões construídas durante o processo de pesquisa, inferindo a riqueza e a importância da região amazônica para o Brasil e para o mundo, constatando que esta região é parte do imenso e rico mosaico que caracteriza o nosso País. Este trabalho pretende ser fonte para possibilitar pensar a questão ambiental, a importância do sujeito na escrita e construção da História, um incentivo a conhecer as regiões e as diversas realidades brasileiras. Além do livro, estão previstas outras formas de divulgação e socialização da experiência de pesquisa e suas conclusões: palestras, artigos e comunicações¿, apontou o projeto de pesquisa.
O coronel afirmou que o grupo quer mostrar a Amazônia como ela realmente é. "(Queremos mostrá-la com a visão de) brasileiros comuns fazendo uma pesquisa na região. Só mostram o lado ruim - desmatamento e visões deturpadas. Queremos mostrar a população sofrida, que foi para a Amazônia incentivada pelos governos anteriores, e mostrar o outro lado deles. As queimadas são feitas pelos grandes", afirmou.
Sala de aula
Antes de virar livro, a odisséia será utilizada em sala de aula nas disciplinas de Português, Literatura, Educação Artística, Matemática, Biologia, Ciências Físicas e Biológicas (CFB), Química, Física, Geografia e Sociologia.
Considerando a passagem por várias comunidades ribeirinhas e até mesmo por algumas cidades maiores, os pesquisadores coletarão escritos literários dessa população. A narração da viagem também será estudada do ponto de vista do foco narrativo, pelos aspectos semântico, sintático e fonético. Lendas e mitos também serão analisados.
Os alunos também aproveitarão a pesquisa para a disciplina de Matemática, como no uso de escalas métricas, medidas de ângulos, estudo estatístico e geometria analítica.
Durante a viagem, serão realizadas entrevistas com a população ribeirinha, procurando identificar a relações com a flora e a fauna local. Relações essas que envolvem itens utilizados na alimentação, vestuário, remédios caseiros, até descrições de mitos e lendas. A idéia é de também verificar com os órgãos governamentais e não-governamentais projetos de pesquisa desenvolvidos na região.
O caiaque também será fruto de análise pelos alunos, que serão divididos em grupos para esta atividade. Cada grupo será responsável pela observação de um trecho da viagem e, portanto, deverá buscar o maior número possível de informações sobre a região. Os estudantes também deverão avaliar os dados de posição e intervalo de tempo do caiaque e da velocidade da correnteza para fazer uma descrição detalhada do movimento do rio e do caiaque. Posteriormente, os grupos irão apresentar ao restante da turma estas informações e as conclusões obtidas.
Os novos e os antigos sistemas de produção agrária da Amazônia também serão foco da pesquisa. Para isso, será levado até os alunos depoimentos e experiências de camponeses das mais variadas origens - ribeirinhos, habitantes das periferias (rurais e urbanas), indígenas e militares. Para obter esse material, também serão realizadas entrevistas com pesquisadores ligados ao Instituto de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá (Amazonas).
O material também levará aos alunos subsídios na área de Astronomia, História, Meio Ambiente e Saúde.
Durante a viagem, será observada a medida da circunferência da terra a partir de imagens do zênite em diferentes longitudes ao longo da extensão do rio Solimões/Amazonas. Zênite é o ponto mais alto sobre a vertical do lugar, isto é, é o ponto exatamente acima de nossas cabeças, quando olhamos para o céu.
Segundo coronel Hiram, os alunos estão ansiosos para receber o material. O Clube de História já está envolvido com o projeto, durante o treinamento para a viagem. A idéia dele era levar os alunos para a Amazônia, porém foi inviável economicamente. "Até conseguimos com a Força Aérea (FAB), mas não conseguimos", afirmou ele.
A equipe
Além do coronel Hiram, participarão da expedição o coronel André FlávioTeixeira (especialista em meio ambiente) e Fabíola Arruda de Verga, formada em turismo e que trabalha com antropologia). Eles sairão de Tabatinga (AM), na fronteira com o Peru e com a Colômbia, no dia 1º de dezembro e pretendem chegar em Manaus, capital do Amazonas, até o final de janeiro.
"A idéia era ficar quatro meses. Mas como faltou patrocínio, reduzimos o projeto inicial de quatro para dois meses. Queríamos estender a viagem de Manaus até Belém, mas não foi possível", disse o coronel Hiram.
A previsão do trio é começar as atividades às 6h, andar de caiaque 47 km por dia e terminar o expediente às 20h. "A cada quatro dias de navegação, vamos passar em uma cidade maior. Nos outros dias, passaremos por várias vilas, onde vamos nos abrigar diariamente."
Segundo o professor, o caiaque foi o meio de transporte escolhido porque não agride a flora e a ausência de motores à combustão não polui e não suja os rios.
Redação Terra