Cony: "língua é feita pelo povo, não adianta disciplinar"

30 de setembro de 2008 • 04h24 • atualizado às 09h33

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado ontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sede da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro, não é exatamente uma unanimidade entre os próprios acadêmicos. Entre os que apóiam a iniciativa, o professor Arnaldo Niskier acha que o Brasil "não podia mais esperar" e diz que a unificação da escrita é uma questão estratégica. Outros se juntam ao escritor e jornalista Carlos Heitor Cony. Segundo ele, "a língua é feita pelo povo. Não adianta o governo querer disciplinar". Para Lula, uma das vantagens do acordo tem a ver com parcerias que o Brasil estabelece junto a países lusófonos - principalmente os africanos - para onde o governo federal produz material didático e envia profissionais de educação.

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"Como realizar estas parcerias de forma satisfatória se não tivermos uma ortografia unificada?", pergunta Lula.

Acordo tem 20 mudanças
O acordo, que visa a unificar o registro escrito nos oito países que falam português, prevê 20 bases de mudança na língua. Entre elas, o fim do trema, a supressão de consoantes mudas e a inclusão das letras W, K e Y no alfabeto. As novas regras entram em vigor a partir de 2009, mas, até 2012, tanto as novas normas quanto as atuais serão aceitas oficialmente.

"Trata-se de uma medida estrategicamente muito favorável aos 230 milhões de falantes da nossa língua", afirma Arnaldo Niskier. "Isto vem em boa hora."

O ex-presidente da ABL, Marcos Vilaça, também é favorável ao acordo:

"Na verdade, cultivar a língua é uma forma de manifestação do poder. O Brasil precisa dessa expressão de poder. Temos dificuldades toda a vez que se precisa ter o português como língua oficial de uma instituição internacional. Sempre há aquela dúvida: que ortografia usar, a brasileira ou a portuguesa?"

Um os mais descontentes com o acordo, o escritor Carlos Heitor Cony desabafou.

"Sou contra. Acho que a língua é feita pelo povo e não adianta o governo querer disciplinar. Para mim, é completamente inútil", afirmou Cony. "Se mandarem, vou obedecer ao acordo, mas contra a vontade. Acho ainda que Portugal, a metrópole, não vai se submeter a certas coisas."

Ex-ministro da Educação no governo Figueiredo, o acadêmico Eduardo Portella tem discurso parecido com o de Cony sobre as características da língua:

"A palpitação societária é o que faz a vida da língua, não são as normas. As normas são de cima para baixo. A língua existe de baixo para cima, no dia a dia. Acho que normatizar o fundamental é necessário, mas normatizar o supérfluo, não."

O presidente Lula, em seu discurso, ressaltou a importância do incentivo à leitura, principalmente entre os jovens, mas admitiu que "faltam muitos capítulos" para um aumento significativo de leitores no Brasil. O presidente voltou a ressaltar, como havia feito em outras oportunidades, que o desenvolvimento econômico e a geração de emprego e renda cumprem papel importante no processo de evolução da educação.

"Já estamos pondo em prática o Plano Nacional do Livro e da Leitura. O índice de leitores no Brasil ainda é modesto, mas já são muito melhores que em 2001", afirmou Lula.

O evento, comandado pelo presidente da ABL, Cícero Sandroni, homenageou os 100 anos de morte do escritor Machado de Assis. Lula recebeu uma medalha comemorativa das mãos do ex-presidente José Sarney.

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