Para estudantes e escolas, fase difícil se aproxima

02 de setembro de 2008 • 14h31 • atualizado às 14h54
O número recorde de alunos considerados desabrigados ou pobres complicará o recebimento de merenda gratuita
O número recorde de alunos considerados desabrigados ou pobres complicará o recebimento de merenda gratuita
02 de setembro de 2008
The New York Times

Sam Dillon

Estados Unidos


Com a execução de hipotecas resultando no despejo de centenas de famílias de Louisville, nos Estados Unidos, a cada mês, os dirigentes escolares estão perturbados com a confusão que já estão começando a sentir. Um número recorde dos alunos que estarão se apresentando para o início do novo ano letivo são considerados desabrigados ou pobres o bastante para receber alimentação gratuita.

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"Estamos vendo muito mais crianças em situação de pobreza", disse Lauren Roberts, porta-voz do distrito escolar do condado de Jefferson, uma área que inclui Louisville e suas comunidades suburbanas e atende a 98 mil estudantes.

Ao mesmo tempo, o distrito tem problemas financeiros próprios a enfrentar. Em resposta a um corte de gastos de US$ 43 milhões que o governo estadual promoveu na educação, os dirigentes das escolas do condado elevaram os preços de almoço, reduziram a frota de transporte escolar em 17 ônibus ao reorganizar as rotas, ordenaram que os motoristas desliguem os veículos ao parar nos pontos e aumentaram os impostos imobiliários.

O sistema do condado de Jefferson é típico da situação que a educação do país enfrenta no início de um novo ano letivo. Em todo o país, 50 milhões de crianças voltarão às aulas esta semana, e os aumentos paralisantes nos preços do combustível e dos alimentos, acoplados à crise econômica, forçaram as escolas norte-americanas, do Maine à Califórnia, a promover cortes de custos.

Algumas estão reduzindo seus serviços de transporte, outras restringindo as viagens e algumas adotaram uma semana de aulas mais curta. E enquanto grande número de distritos escolares se vêem forçados a tomar medidas de corte de custos, o número de crianças pobres e desabrigadas está em alta.

"O grande quadro nacional é o de que os custos dos alimentos e do combustível estão subindo, e orçamentos das escolas não", disse Anne Bryant, diretora da Associação Nacional de Conselhos Escolares. "Estamos em recessão, e isso exerce impacto dramático sobre as escolas".

Os problemas de Louisville são pequenos se comparados aos de algumas outras cidades. Detroit demitiu pelo menos 700 professores, Los Angeles cortou seus quadros em 500 funcionários administrativos e o condado de Miami-Dade demitiu centenas de psicólogos, trabalhadores de manutenção e zeladores de escolas.

As escolas de muitos Estados reduziram o número de paradas de ônibus para promover economia de diesel. Alguns distritos na Califórnia e no Ohio eliminaram seu sistema de transporte escolar, totalmente ou apenas para os alunos de segundo grau, o que forçará milhares de estudantes a chegar às escolas por conta própria.

No Maine, funcionários preocupados com o custo do aquecimento das escolas no inverno que se avizinha restringiram as viagens e as excursões de estudo, para economizar dinheiro.

Distritos em Louisiana e em Minnesota, bem como em outros Estados, tomaram uma medida mais radical e reduziram a jornada semanal de estudo a quatro dias. Centenas de distritos escolares, em resposta aos aumentos nos preços dos alimentos, estão cobrando mais pelo almoço em seus refeitórios.

Funcionários da Virgínia Ocidental enviaram recentemente um memorando aos distritos escolares do Estado cujo título era "dicas para enfrentar a disparada no custo do combustível".

Na semana passada, David Pauley, supervisor de transportes no distrito escolar do condado de Kanawha, em Charleston, se reuniu com os 196 motoristas de ônibus escolares do distrito para explicar as novas normas. Pauley os instruiu a manter velocidade 8 km/h inferior à do limite máximo local, verificar a calibragem dos pneus a cada dia e evitar partidas bruscas.

O distrito escolar do condado de Caldwell, na Louisiana, adotou medidas mais abrangentes quanto à economia do combustível: cancelou as aulas da segunda-feira. O distrito é um dos mais de 100 sistemas escolares nacionais, a maioria dos quais em áreas rurais, que adotaram semanas letivas de quatro dias.

O superintendente do distrito, John Sartin, disse que a decisão economia US$ 145 mil ao ano, sobre um orçamento de US$ 15 milhões. A decisão foi tomada em junho, depois que os preços do petróleo registraram altas diárias por 29 dias consecutivos.

"As pessoas aqui se preocupam com a possibilidade de que a verba se esgote antes do final do mês", ele disse. Os problemas de muitos distritos têm origem nas dificuldades orçamentárias dos Estados.

De acordo com um relatório da Conferência Nacional de Legislativos Estaduais, divulgado em julho, 31 dos 50 Estados norte-americanos têm rombos em seus orçamentos, em um total de US$ 40 bilhões, e diversos deles reduziram as verbas das escolas.

A Califórnia continua a ter um rombo de US$ 15,2 milhões em seu orçamento escolar, apesar dos cortes realizados por muitos distritos, entre os quais o distrito unificado de Los Angeles, que reduziu em US$ 400 milhões seu orçamento de US$ 6 bilhões, em junho, em parte pela demissão de 500 funcionários administrativos e secretários, mas sem cortar professores.

Em Louisville, havia 7,6 mil estudantes desabrigados matriculados no final de junho, ante 7,3 mil no final do ano letivo anterior. Mas Anne Malone, que coordena os esforços do distrito para auxiliar estudantes desabrigados, afirmou que "esse número vai subir muito este ano".

Ela mencionou estatísticas sobre o número de hipotecas executadas na região compiladas pela Coalizão Metropolitana de Louisville, que estimam que cerca de 10 famílias estão sendo despejadas de suas casas a cada dia, na região.

O número de estudantes com direito a refeições subsidiadas também subiu. A lei nacional de alimentação escolar dispõe que filhos de famílias com renda inferior a US$ 39,22 mil ao ano recebam refeições subsidiadas com preços de US$ 0,30 e US$ 0,40. Crianças de famílias com renda inferior a US$ 27,56 mil recebem refeições gratuitas.

Tradução: Paulo Migliacci

The New York Times
 
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