Choe Sang-hun
Coréia do Sul
Namorar, ir a shows, usar brincos, fazer as unhas ou simplesmente agir como jovens, tudo isso fica suspenso, porque desvia a atenção dos alunos que deveriam tomar como foco o objetivo dominante. Os estudantes ralam das 6h30 até depois da meia-noite, sete dias por semana, em uma escola localizada a quilômetros de distância do meio de transporte coletivo mais próximo, com o objetivo de superar um obstáculo que pode determinar seu futuro: a aprovação no exame nacional de admissão universitária.
"Min Ju, faça o melhor! Lute!", gritou Chung para a filha antes que ela entrasse. Ela parou, se voltou, ergueu o punho e repetiu: "Lutar!" Os sul-coreanos comparam esse desejo obsessivo de conseguir que seus filhos obtenham vagas nas melhores universidades a uma guerra.
Esse zelo é ilustrado com perfeição em escolas preparatórias como a Jonro Yongin, localizada no subúrbio de Yongin, uma área de baixa população cerca de 40 quilômetros ao sul de Seul. A maioria dos alunos da escola são "jaesoo sang", ou "estudantes de segundo estudo", que não conseguiram entrar na universidade que desejavam e voltaram a estudar para o exame do ano que vem. Alguns tentam repetidamente, por até três consecutivos, depois de concluir o segundo grau.
A escola fica tão isolada do mundo exterior, o currículo é regulado com tanto rigor e as distrações são tão poucas que os alunos dizem que não resta outra escolha a não ser estudar. "Matricular Min Ju na escola não era nosso ideal, mas foi inevitável", diz Chung, 50, um contador que vive perto de Seul. "No nosso país, os exames de admissão universitária determinam entre 70% e 80% do futuro de uma pessoa. É uma triste realidade. Mas temos de reconhecê-la, porque de outro modo prejudicaríamos o futuro de nossos filhos".
A formação escolar tem enorme importância na vida dos sul-coreanos. A universidade que as pessoas freqüentaram aos 20 anos pode terminar sua posição e salário quando tiverem 50. As principais escolas, como a universidade Nacional de Seul, a Yonsei e a da Coréia, não têm posição de destaque nos rankings mundiais de universidades, mas no país seus diplomas servem como um símbolo de status, um distintivo de orgulho para os estudantes e seus pais. No dia do exame, as mães rezam em igrejas ou lado de fora dos locais de vestibular.
A vida de um estudante sul-coreano, do jardim da infância ao segundo grau, é determinada pela necessidade de se sair bem nos testes padronizados a fim de garantir vaga em uma das universidades de elite. O sistema muitas vezes leva crédito por alimentar o sucesso econômico do país, mas ao mesmo tempo é alvo de severas críticas.
Quando imensos protestos contra o governo abalaram a Coréia do Sul nas últimas semanas, devido ao acordo assinado pelo presidente Lee Myung Bak para permitir a importação de carne bovina norte-americana e a outras de suas políticas, muitos dos manifestantes eram adolescentes que protestavam contra a imensa pressão que sofrem em suas escolas. Entre os estudantes dos 10 aos 19 anos, o suicídio é a segunda causa de morte mais comum, depois dos acidentes de automóvel.
Os problemas de Lee começaram quando as pessoas o acusaram de preencher postos demais no governo com seus colegas da Universidade da Coréia. Mas quando ele substituiu toda sua equipe de governo, há alguns dias, apenas um de seus dez principais assessores não era aluno das três melhores universidades do país. Quando a imprensa fala sobre indicações para cargos públicos, sempre dá destaque à formação acadêmica dos apontados.
Por isso, não surpreende que a maioria dos alunos na escola preparatória de Jonro Yongin digam que se matricularam voluntariamente. A escola foi inaugurada no ano passado. Seu edifício central, de quatro andares, abriga as salas de aula e os dormitórios dos alunos, com quartos para oito estudantes. Na primavera, o pólen dos pinheiros vizinhos desce pelas colinhas que cercam a escola como uma névoa amarela. No verão, o canto das cigarras toma o campus de maneira hipnótica.
Park Hong Ki, pai de um dos alunos da escola, diz que "mantê-lo aqui representa um grande fardo financeiro para mim". A mensalidade é de dois milhões de won, ou US$ 1.936.
A porcentagem dos gastos privados que os sul-coreanos dedicam à educação, o equivalente a 2,8% do Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2004, é a mais elevada entre os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Os estudantes escrevem citações que os estimulam a se esforçar mais em pedaços de papel colorido e as colam às suas mesas de trabalho. "Eu talvez possa derramar lágrimas de tristeza agora, mas amanhã estarei derramando lágrimas de felicidade", diz um dos lembretes. Outra frase que se pode ler em muitas das mesas é "pense nos sacrifícios que seus pais estão realizando para enviá-los a uma escola como essa".
Herald Tribune