EUA: "bolsa-aluguel" ajuda a manter alunos na escola

29 de junho de 2008 • 20h31 • atualizado em 30 de junho de 2008 às 13h15
Richard Kennedy já freqüentou quatro escolas em Flint Foto: Fabrizio Costantini/The New York Times
Richard Kennedy já freqüentou quatro escolas em Flint
27 de junho de 2008
Foto: Fabrizio Costantini/The New York Times

Erik Eckholm

Estados Unidos


Por ter se mudado tantas vezes, Richard Kennedy, 9 anos, já estudou em quatro escolas diferentes na cidade de Flint, Michigan. Na última casa alugada por sua mãe, em uma tarde recente, ele descreveu a sensação de entrar em uma sala de aula onde não conhecia pessoa alguma. "Eu fico confuso", disse ele, baixinho. "Estão sempre começando a estudar coisas diferentes das que eu estava estudando".

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Ele só confirmou com um aceno de cabeça, mostrando olhos marejados de lágrimas, quando perguntei se era difícil fazer novos amigos. Os freqüentes deslocamentos podem ajudar a explicar porque Richard está repetindo a quarta série e porque sua irmã, de 11 anos, mal consegue ler depois de passar por oito escolas.

Ninguém duvida que o giro constante de alunos nas escolas de Flint tem alto custo em termos de desempenho educacional para aqueles que passam por tantas transferências - e também para as crianças que se mantêm em uma mesma escola, embora no caso dessas últimas o problema seja menos visível.

Em algumas das escolas primárias de Flint, metade ou mais dos alunos se transferem ao longo do ano letivo - em uma delas, a proporção atingiu os 75% no ano letivo de 2003. As transferências em geral estão vinculadas a rendas baixas e instáveis, habitação inadequada e vidas caóticas, e a recente onda de despejos e execução de hipotecas está agravando o problema, porque força os moradores a deixarem suas casas.

O tumulto resultante nas salas de aula fez com que o Estado iniciasse uma experiência incomum, com o pagamento de US$ 100 ao mês em subsídios para locação, cerca de R$ 160, com o objetivo de permitir que alguns pais mantenham suas casas. Trata-se de um dos raros esforços empreendidos por um distrito escolar para enfrentar o problema do giro prejudicial de alunos.

"As mudanças constantes e as perturbações que elas causam à educação são comuns nas áreas urbanas de baixa renda dos Estados Unidos, nas quais o giro anual de estudantes típico é da ordem de 30% a 50%", disse David Kerbow, pesquisador da educação na Universidade de Chicago que estudou o problema do giro excessivo de alunos, muitas vezes ignorado pelos planejadores da educação.

O governo federal vem exigindo que as escolas sejam mais responsáveis, e o giro elevado é cada vez mais visto como ameaça à educação, e tem recebido atenção em distritos escolares como o de Baltimore e o de Denver. Em Nova York, funcionários do conselho de educação dizem que, embora não disponham de dados sobre a tendência de giro dos estudantes, o problema foi um dos motivos essenciais para os esforços de padronização dos currículos, de modo que alunos que mudam de escola não se vejam muito fora de sincronia com os colegas.

O alto giro de alunos pode ameaçar um programa de melhora educacional de longo prazo. "A escola vai se tornando diferente, porque o núcleo central de alunos que estão sendo educados não permanece o mesmo", disse Kerbow.

Mesmo os alunos que não trocam de escola saem prejudicados, porque os professores precisam dedicar mais tempo a revisar material já lecionado, em benefício dos novos alunos, e por isso tendem a apresentar menos material novo, diz Kerbow, mencionando conclusões de sua pesquisa em Chicago. "A curva de aprendizado ao longo do tempo é atenuada", ele acrescentou.

Algumas das mudanças em Flint refletem o fato de que o distrito perde cerca de mil alunos por ano, quando seus pais saem da cidade em busca de emprego em outros lugares. Mas a maioria das transferências envolve famílias que se mudam de um lugar da cidade para outro. As crianças são transferidas de escola a escola, e em certos casos retornam repetidamente a uma delas, à medida que seus pais começam a atrasar o pagamento de aluguéis, decidem trocar de apartamento, abandonam ruas onde a segurança é vista como inadequada ou se mudam para a casa de parentes ou de novos parceiros amorosos.

Flint tem grandes áreas vazias onde um dia houve fábricas de automóveis. Entre a perda maciça de empregos industriais e a fuga da classe média, muitas ruas estão ocupadas por imóveis para locação em estado variável de conservação, entremeados de casas abandonadas.

Os dirigentes da educação local, como nas demais cidades em que a indústria automobilística está em recuo nesta região, reconhecem que só a educação superior ajudará as crianças a ingressar na nova economia. Mas o giro constante de alunos no ensino primário dificulta até a conclusão do segundo grau, quando mais o estudo superior.

Para combater o problema em duas das escolas mais prejudicadas, a Washington e a Bryant, o governo estadual adotou em 2004 um programa que tinha por objetivo manter intactas por dois anos duas classe de segunda série. Desde que o programa começou, dois grupos de cerca de 40 famílias estão envolvidos.

A atração central é o subsídio mensal de US$ 100 para o aluguel, pago diretamente aos senhorios, que por sua vez concordam em não aumentar preços e em respeitar os códigos de construção nos imóveis que alugam. O dinheiro é bancado pelo governo estadual. Talvez igualmente importante seja o fato de que as crianças são acompanhadas pelos mesmos professores e pelos mesmos colegas ao longo da segunda e da terceira séries.

As famílias também se beneficiam de um programa muito apreciado do governo estadual, sob o qual cada escola selecionada recebe dois assistentes sociais para gerir um centro de recursos para a família. Os centros oferecem uma alternativa conveniente e amistosa aos grandes e impessoais escritórios aos quais os pais usualmente teriam de recorrer para obter assistência do governo, por exemplo o auxílio-alimentação.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
 
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