EUA: universidades incentivam carreira no serviço público

28 de junho de 2008 • 19h52 • atualizado às 19h52
Dhaval Chadha, aluno de Harvard, planeja fazer um intercâmbio no Brasil no próximo ano
Dhaval Chadha, aluno de Harvard, planeja fazer um intercâmbio no Brasil no próximo ano
28 de junho de 2008
C.J. Gunther/The New York Times

Sara Rimer

Estados Unidos


Um conhecido professor de pedagogia da Universidade Harvard começou a conduzir seminários de "reflexão" em três universidades altamente seletivas, com o objetivo de estimular os alunos de graduação a refletir mais profundamente sobre a conexão entre a educação que estão recebendo e suas aspirações.

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O professor, Howard Gardner, espera que os seminários estimulem mais alunos a considerar carreiras no serviço público ou em outros setores além dos cargos de consultoria ou no setor financeiro que, segundo ele, são praticamente o próximo passo automático para os formandos das melhores universidades.

"É a isso que serve uma educação em Harvard?", perguntou Gardner, que está conduzindo seus seminários em Harvard, Amherst e Colby, em companhia de outros professores. "As unidades de elite dos Estados Unidos vão se tornar simplesmente um sistema de recrutamento e seleção para Wall Street?"

Ainda que outras pessoas tenham expressado preocupação semelhante nos últimos anos, as opiniões de Gardner vêm ganhando apoio no campus de Harvard junto a alunos, professores e até de parte da nova reitora, Drew Gilpin Faust, que fez desse tema o tópico de seu discurso aos alunos de quarto ano, na semana de encerramento do ano letivo. Faust apontou que, no ano letivo recentemente encerrado, em todos os seus encontros com alunos a pergunta era sempre a mesma: "Por que tantos de nós estão optando por Wall Street?"

Em outras universidades também os dirigentes e professores estão questionando vigorosamente se o número excessivo de estudantes que poderiam dedicar seus talentos a campos mais amplos do conhecimento não estariam sendo seduzidos por empregos de altos salários, e se as instituições não deveriam fazer mais para encorajar alunos a considerar outras carreiras, especialmente as de serviço público.

Como diz Adam Guren, que se formou em Harvard e vai fazer um doutorado em economia, "muitos alunos vêm perguntando por que chegaram a Harvard decididos a mudar o mundo e estão saindo como executivos de investimento - o que nos leva a agir assim?"

Em seu discurso, Faust destacou os resultados de uma pesquisa do Crimson, o jornal dos alunos da universidade, segundo a qual 20% dos formandos deste ano encontraram empregos no setor financeiro e de consultoria, ante 22% no ano passado.

Ela reconheceu os atrativos desses empregos - o ótimo salário, a promessa de trabalho instigante, a segurança que os alunos sentem por saberem que trabalharão na companhia de amigos, a possibilidade de tocar esse tipo de emprego por apenas dois ou três anos e juntar dinheiro. Ela instou os estudantes, no entanto, a procurarem por marcos de sucesso pessoal que vão além da segurança financeira, apesar do "torvelinho irresistível dos esforços de recrutamento".

Em seu discurso na Universidade Wesleyan, no mês passado, o candidato presidencial democrata Barack Obama mencionou tema semelhante ao fazer um apelo apaixonado por serviço público, e acompanhado de um alerta no sentido de que a busca estreita de interesses pessoais egoístas - "a casa grande e os belos carros, e as outras coisas que nossa cultura do dinheiro diz que vocês deveriam comprar, retrata uma pobreza de ambição".

As universidades estão tão preocupadas com essa questão que algumas delas - Amherst, Tufts, Universidade da Pensilvânia e Harvard, por exemplo - expandiram seus programas de estágio e suas bolsas para os interessados em serviço público. "Nosso negócio é formar pessoas que tornarão o mundo melhor de alguma maneira", disse Anthony Marx, reitor da Universidade Amherst. "É isso que justifica o dinheiro investido na educação".

Este ano, a Tufts anunciou que perdoaria as dívidas de crédito educativo dos alunos que optassem por carreiras no serviço público. E funcionários de Harvard, Amherst, da Universidade da Pensilvânia e de algumas outras instituições dizem que um motivo para começassem a conceder assistência financeira na forma de pagamentos e não empréstimos é que os estudantes não se sintam pressionados a seguir carreiras lucrativas porque suas dívidas são muito altas.

Em entrevista concedida há algumas semanas, Faust apontou como modelo o Teach for America, um programa sem fins lucrativos que recrutou grande número de alunos de grandes universidades para que lecionem em escolas para crianças de baixa renda durante dois anos. Cerca de 9% dos formandos de Harvard se inscreveram no programa este ano, e 37 alunos da universidade foram selecionados.

Um dos alunos de quarto que conversou com Faust no começo de 2008 foi Dhaval Chadha, que queria o apoio da reitora para um fórum sobre "diversidade de carreiras" que ele estava organizando. Chadha, 21, se criou na Índia e passará o ano que vem em um programa de pesquisa no Brasil, trabalhando com um grupo de combate à pobreza para uma carreira de serviço público.

"Não creio que muita gente em Harvard saiba o que é um fundo de hedge ou uma empresa de consultoria, quando começam seus cursos", ele afirma. Mas depois, alunos recrutados por esse tipo de empresa voltam de jantares caros e começam a "lançar salários polpudos para todo lado", e os alunos começam a perceber que "trabalhar com esse tipo de gente acarreta um certo prestígio".

"É como o processo de seleção universitária, repetido", ele acrescentou. "O sujeito se candidatou a oito ou 10 universidades de elite para ser aceito aqui, e se candidatou a empregos em 40 empresas e foi aceito nessa e naquela outra. Isso atrai o espírito competitivo dos estudantes de Harvard".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
 
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