Projeto atrai alunos de minorias para área ambiental

22 de junho de 2008 • 18h05 • atualizado às 18h05

Alan Finder

Estados Unidos


"Tem alguém de Queens por aqui?" A questão parecia bastante natural, vinda de um jovem grandalhão que usava um boné do New York Yankees. Mas ele não estava só puxando conversa. David Lucero cresceu em Jamaica, Queens, e estava tentando se conectar com um grupo de estudantes em uma grande sala de aula repleta de plantas e aquários, na Escola Secundária de Estudos Ambientais, no West Side de Manhattan.

Lucero, 22, vai em breve iniciar seu doutorado em biologia molecular e genética na Universidade do Vermont. Quando passou um dia na escola, recentemente, seu objetivo primário era encorajar alunos latinos, bem como negros e de origem asiática, a estudar ecologia na faculdade, e fazer carreira nesse ramo.

Três outros alunos de sua universidade o acompanharam na viagem, com o objetivo de recrutar alunos de segundo grau oriundos de minorias em Nova York para os cursos que a universidade oferece em seu campus de Burlington, perto do lago Champlain.

Não é tão fácil convencer adolescentes de 16 e 17 anos de idade sobre as virtudes do camping, das trilhas, da patinação e da vida em uma pequena cidade próxima da fronteira canadense quando eles conhecem muito mais a cultura urbana, por exemplo em que estação trocar a linha A do metrô pela linha E. "É uma loucura, você recebe crédito no curso por fazer coisas de que gosta", disse Lucero, em referência ao seu trabalho no laboratório da universidade.

"Quando eu estava no segundo grau, eu ia a festas, mas elas nem se comparavam às festas que temos na universidade", ele disse aos alunos em uma classe de conservação ambiental, na escola que toma por especialidade a ecologia, localizada na rua 56. A apresentação de Lucero, realizada durante um almoço movido a pizza, foi o intervalo entre uma manhã e uma tarde dedicadas a tarefas mais acadêmicas.

Os alunos da universidade de Vermont, todos matriculados na Escola Rubenstein de Ecologia e Recursos Naturais, ajudaram os adolescentes a planejar um jardim para o topo do edifício da escola secundária, com o objetivo de atrair pássaros migratórios, o que permitiria a futuras classes de estudantes observá-los.

Os universitários trouxeram muito equipamento: potes de barro, vasilhas plásticas de leite, uma coruja empalhada, sementes de margarida, petúnia e girassol, e muitos brindes, de apitos que reproduzem os sons de pássaros a comida variada para aves, que seria usada para demonstrar como construir uma área para a alimentação de pássaros.

"Por que construir uma banheira para pássaros?", perguntou Lucero a um grupo de alunos atentos. "Apenas porque é bonita? Ou temos outro propósito?" Isso resultou em uma pequena aula sobre ecoparasitas ¿ os percevejos, traças e pulgas que vivem nas penas dos pássaros.

Shirley Matthews, a diretora da escola, observava a interação entre seus alunos e os visitantes. "Esses rapazes não são muito mais velhos que os meus alunos", disse Matthews. "Para eles é fácil se relacionar, conversar de um jeito que interesse ao pessoal".

A universidade está trabalhando para promover um relacionamento em longo prazo com a escola urbana, e essa conexão se transformou em conduto: 16 formandos da Escola Secundária de Estudos Ambientais de Manhattan são alunos da Universidade de Vermont, no momento, e 14 deles são membros de minorias. Dos 16, sete estudam na escola de estudos ambientais.

A universidade quer ampliar a presença de membros de minorias em seu campo de atuação, por meio de recrutamento mais amplo e da expansão de seus currículos com a inclusão de temas como o ar puro, o acesso a parques e a justiça social. "As pessoas que vêm de áreas urbanas têm o mesmo interesse que as demais nas questões relacionadas ao meio ambiente", disse Clare Ginger, professora de política e planejamento ambiental na universidade e participante ativa dos esforços para diversificar o currículo da instituição e a composição do corpo discente.

Uma década atrás, a escola ambiental da universidade tinha apenas 11 alunos de graduação vindos de minorias, e a maioria destes era de origem asiática. No ano passado, 27 alunos de graduação provinham de minorias, entre os 400 admitidos à universidade, e as origens eram bem mais diversificadas. A escola ecológica espera registrar 11 estudantes minoritários em seu novo ano letivo, que começa em setembro, entre os 100 novos alunos que serão admitidos.

"A questão é mostrar às crianças que existe um caminho para que sigam uma carreira que lhes pareça mais significativa", ela afirma. Lucero, que pediu a todos os alunos da escola que o tratassem por "Dave", estava bem consciente de seu papel. "Percebo definitivamente um papel para as minorias no ambiente universitário e no mundo da ciência", ele disse em entrevista. "Desejamos pontos de vista que reflitam experiências diferentes".

Ele disse que esperava que seu exemplo servisse de inspiração a outros. "Sinto que o que estamos dizendo é menos importante do que simplesmente estarmos aqui", ele afirmou. "Minha esperança é que isso signifique alguma coisa ¿mesmo que eu não convença ninguém a se matricular na universidade, gostaria que eles ao menos tivessem essa possibilidade em mente".

Entre os maiores obstáculos, diz Ginger, está convencer os adolescentes urbanos a pelo menos considerar a possibilidade de fazer faculdade em um ambiente rural. Os embaixadores da Universidade de Vermont fizeram questão de destacar essa questão.

Caitlin Kincaid, aluna de quarto ano da universidade, falou sobre sua preocupação quanto a deixar sua casa e os confortos da vida urbana por uma universidade em cenário muito rural. "Aceitei o risco", ela disse aos alunos de segundo grau, e contou a eles sobre os grandes amigos que fez na universidade ¿ amigos que ela espera manter pelo resto da vida. "Não há como estar sozinho, lá", ela disse.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
 
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