EUA: universidades buscam alunas no Oriente Médio

07 de junho de 2008 • 12h24 • atualizado às 12h25

Tamar Lewin

Estados Unidos


As faculdades que atendem apenas a mulheres são espécie em extinção nos Estados Unidos. Assim, neste trimestre, as encarregadas de admissões em cinco das principais escolas superiores exclusivamente femininas - Bryn Mawr, Barnard, Mount Holyoke, Wellesley e Smith - concentraram seus esforços de recrutamento em um lugar no qual a educação sexualmente segregada é a norma, e não um nicho de mercado: o Oriente Médio.

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Por três semanas, elas visitaram escolas de segundo grau na Jordânia, Bahrein, Kuwait, Omã e Emirados Árabes Unidos, descrevendo o que suas instituições podem oferecer a alunas academicamente ambiciosas. (Elas não foram à Arábia Saudita porque, como avisou o coordenador da viagem, lá elas provavelmente precisariam de acompanhantes homens para fazer seu trabalho.)

Em todos esses lugares, elas falaram sobre os benefícios que as mulheres podem obter ao estudar em instituições segregadas sexualmente, com corpos docentes formados majoritariamente por mulheres e com o encorajamento a que as alunas se saiam o melhor que puderem em campos de estudo no geral dominados pelos homens, como a matemática e a ciência. E mencionaram as alunas notáveis que passaram por essas instituições, entre as quais Hillary Clinton, Emily Dickinson, Diane Sawyer, Katherine Hepburn e Madeleine Albright.

"Continuamos a educar número desproporcional de mulheres cientistas", disse Jenny Rickard, diretora de admissões em Bryn Mawr, durante uma das palestras. "Nosso objetivo real é dar mais poder às mulheres e permitir que elas recebam uma educação de primeira".

Como todas as universidades americanas, as cinco instituições exclusivas para mulheres estão expandindo seu recrutamento no exterior, e ainda que procurar alunas no Oriente Médio possa lhes parecer natural, a idéia tem algo de estranho.

Enquanto as escolas sexualmente segregadas do Oriente Médio são ambientes protegidos, refletindo o papel tradicional da mulher na sociedade muçulmana, as americanas, apesar de todas as suas tradições e da importância acadêmica, são também baluartes do pensamento liberal de esquerda, onde as alunas debatem ferozmente ações políticas, questões de identidade sexual e questões como a "heteronormatização", ou seja, a marginalização de padrões outros que não o heterossexualismo. As alunas do Oriente Médio que já estudam nessas instituições relatam períodos de transição que podem ser dolorosos.

Pasangi Perera Weerasingag, que estudou em uma escola mista ao modelo britânico em Dubai, diz que, quando chegou a Mount Holyoke, no ano passado, a presença de tantas lésbicas entre as alunas a chocou. Mas, conta que se ajustou, e agora adora o ambiente, e a disposição generalizada em debater questões de raça e classe ("muito refrescante", ela diz), bem como o envolvimento político de suas colegas de estudo.

Em sua viagem ao Oriente Médio, as diretoras de admissões visitaram escolas internacionais americanas, escolas que adotam o sistema britânico, escolas ao modelo indiano, escolas que atendem a filhos de trabalhadores expatriados e escolas que atendem a meninas locais, proibidas de se relacionar muito com homens.

As reações foram variadas, de acordo com mensagens de conselheiros e alunas dessas escolas, mas a região parecia no geral ser um terreno fértil para recrutamento. Para algumas famílias, faculdades femininas representam um compromisso entre a familiaridade do lar e um mergulho mais completo no modo americano de ser. "Era como se pudéssemos ver lâmpadas se acendendo nas cabeças das estudantes", diz Jennifer Melton, conselheira da Escola Americana de Dubai. "Era como elas estivessem perguntando por que não pensaram nisso antes".

"Também era possível ver os pais ansiosos deixando escapar a respiração presa, no processo", disse Melton. "Eles estavam aliviados por haver instituições que representariam um bom ambiente para suas filhas".

Nos anos 60, havia cerca de 300 faculdades e universidades exclusivamente femininas nos Estados Unidos, e hoje restam menos de 60. Mas Bryn Mawr, Barnard, Mount Holyoke, Wellesley e Smith - conhecidas como "as irmãs", sobreviventes das famosas "sete irmãs" depois que Vassar começou a admitir homens e Radcliffe se fundiu com a Universidade de Harvard - continuam a prosperar, atraindo número recorde de candidatas de alto desempenho acadêmico, que se deixam convencer pelo histórico de fortes realizações educativas de todas essas instituições.

Ainda assim, a maioria das adolescentes americanas não consideraria se candidatar a uma faculdade feminina. E por que "as irmãs" recebem menos pedidos de matrícula do que as universidades mistas de nível comparável, elas são menos seletivas do que outras instituições de primeira linha. Por isso, um influxo de candidatas do Oriente Médio seria muito bem-vindo.

Mas, as diretoras de admissões dizem que sua incursão ao Oriente Médio não representava um esforço de encontrar jovens muçulmanas que só se sentiriam confortáveis em um mundo exclusivamente feminino. "As pessoas esperam que digamos que a viagem para lá se deve a uma expectativa de que encontraríamos meninas muito conservadoras e muito boas para os nosso perfis", diz Jennifer Desjarlais, diretora de admissões de Wellesley. "Mas não é por isso que fomos. A idéia nem mesmo nos ocorreu".

O projeto, ela afirma, nasceu de uma conferência internacional onde conselheiros vocacionais que trabalham no Oriente Médio disseram que desejavam que mais representantes das instituições de humanas norte-americanas visitassem seus países. Weerasingag, que nasceu no Sri Lanka e cresceu em Dubai, diz que quando contou às suas amigas que estudaria em Mount Holyoke, todas elas queriam saber por que ela tinha escolhido uma faculdade feminina, e começaram imediatamente a fazer piadas sobre homossexualidade. Ela afirma que o número de alunas lésbicas no campus "foi a única coisa que me causou choque cultural".

"No começo, houve momentos em que eu tinha de fechar os olhos e dizer a mim mesma que estava em Mount Holyoke, e o lugar é diferente do que conheço. Mas isso só durou uma semana, e agora tenho tantas amigas que são abertamente homossexuais, e isso não faz diferença alguma".

Weerasinsag, 20, considera que outros aspectos da vida em Mount Holyoke são revigorantes. "Não tínhamos uma atmosfera politizada, em Dubai", ela disse. "Em Mount Holyoke, durante as primárias eu não conseguia nem dormir, porque todo mundo que me cerca está tão envolvido".

Zest Haider, cidadã do Kuwait e aluna de Barnard, também diz que o nível de envolvimento político que encontrou no campus foi uma grande mudança para ela. "Existe muito mais ativismo político aqui do que no lugar em que fui criada", ela afirma, "e isso é interessante".

Nas apresentações de recrutamento, algumas das alunas viam as instituições femininas como o melhor caminho para estudar nos Estados Unidos. "Minhas opções de viagem aos Estados Unidos são limitadas pela criação conservadora que tive", disse Ascia al-Faraj, aluna da Escola Americana Internacional do Kuwait. "Mas, a oportunidade de estudar em uma das irmãs aumenta minhas chances". Ela planeja se inscrever em diversas das instituições.

Mark Ray, conselheiro vocacional da escola, diz acreditar que, em termos gerais, "é muito mais provável que pais aceitem enviar suas filhas a uma dessas instituições do que a uma universidade mista".

Mas, para muitas famílias do Oriente Médio, enviar uma filha de 18 anos de idade para os Estados Unidos sozinha continua impensável. Assim, também houve perguntas sobre como conseguir transferências, no caso de jovens que planejavam iniciar seus estudos universitários mais perto de casa, disse Diane Anci, diretora de admissões de Mount Holyoke.

"Nós também recebemos, durante as apresentações, algumas perguntas sobre se seria possível viver fora do campus, e como era o bairro em que a escola está localizada", disse ela, "o que quer dizer que na verdade elas desejam saber se a mãe ou tia poderiam ir com elas e viver em uma casa nas cercanias do campus".

Mesmo antes da viagem, as representantes das irmãs haviam sido informadas de que alojamentos sexualmente segregados poderiam ser um importante atrativo para alunas do Oriente Médio, disse Anci. Mas, as estudantes estavam mais interessadas em ouvir sobre a liberdade de que desfrutariam nas faculdades, segundo Ray. "A maior preocupação expressa pelas senhoras presentes, e ela foi rapidamente refutada, era a de que tivessem de viver em um ambiente fechado", ele disse.

As diretoras de admissões deixaram claro que não seria esse o caso. "Nenhuma de nossas instituições é um mosteiro, de modo que nossa apresentação tinha por objetivo reassegurar às jovens que elas teriam a oportunidade de interagir com rapazes de sua faixa etária", disse Audrey Smith, diretora de admissões do Smith College.

De fato, em todas as apresentações, as representantes das faculdades americanas enfatizaram que havia contato freqüente com os rapazes de instituições de ensino localizadas nas mesmas cidades, a possibilidade de assistir a aulas mistas e de participar de clubes educativos de acesso misto. Kristen Duff, uma aluna australiana da Escola Americana de Dubai, disse que estava planejando se inscrever em Barnard, mas que muitas de suas amigas árabes ou mestiças de árabe não estavam convencidas quanto às virtudes dessas escolas.

"Elas têm pais conservadores", explicou Duff, "e acredito que, para garantir sua independência universitária, desejam estudar em universidades mistas no exterior. Estudar em uma escola feminina lhes pareceria um passo atrás".

Em termos gerais, disseram as diretoras de admissões, a educação segregada era menos difícil do que vender uma formação mais abrangente, com ênfase nas ciências humanas, em uma região na qual o ensino profissionalizante ainda é a norma.

"A pergunta que mais ouvimos foi o que a aluna faria da vida depois de obter um diploma em instituições como as nossas", disse Rickard, de Bryn Mawr. "Eu explicava que uma formação como a que oferecemos as preparava para empregos que nem mesmo foram inventados até agora. Como exemplo, eu mencionava minha carreira. Quando eu estudei, ainda não havia computadores em uso generalizado, e mesmo assim encontrei emprego em uma empresa de software".

Os conselheiros de diversas escolas de segundo grau no Oriente Médio dizem que as alunas ficaram bastante impressionadas com a vivacidade e a confiança das diretoras de admissões, e que as viam como exemplo. Anci, de Mount Holyoke, relembra um desses momentos: "Depois de uma longa apresentação em Dubai, que a platéia acompanhou com a maior atenção, fui procurada por uma das meninas, com uma expressão de profundo interesse no olhar, e ela me disse que, embora não soubesse exatamente o que pretendia fazer, queria fazer algo de grande. "E sei que, se eu estudar em uma de suas escolas, poderei fazer grandes coisas", ela disse".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
 
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