EUA: recrutamento de alunos estrangeiros é criticado

17 de maio de 2008 • 14h46 • atualizado às 15h21
Xiaoxi Li, 20 anos, contatou um agente para estudar nos Estados Unidos Foto: The New York Times
Xiaoxi Li, 20 anos, contatou um agente para estudar nos Estados Unidos
16 de maio de 2008
Foto: The New York Times

Tamar Lewin

Estados Unidos


Quando Xiaoxi Li, 20, decidiu que estudaria nos Estados Unidos, a estudante, moradora de Pequim, diz que se candidatou apenas à Universidade do Ohio, ainda que pouco soubesse sobre ela. "Eu tinha ouvido falar do Ohio, claro", diz Li. "Sabia que ficava no centro, e tinha agricultura".

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O que a levou a escolher a universidade foi uma recomendação da JJL Overseas Education Consulting and Service, uma empresa chinesa de recrutamento universitário que, por cerca de US$ 3 mil, cerca de R$ 5 mil, ajudou Li a escolher sua universidade, preencher as fichas de inscrição e se preparar para a importante entrevista de concessão de visto.

"Todo mundo que eu conheço usou um agente", ela diz. "São profissionais. Sugeriram que a Universidade do Ohio seria boa para mim. O relacionamento deles com a universidade é bom". Na verdade, a JJL tem mais que um bom relacionamento com a universidade. Sem que Li soubesse, ela tem um contrato sob o qual a empresa recebe US$ 1 mil por aluno que encaminhe à instituição, cerca de R$ 1,6 mil.

Universidades britânicas e australianas há anos pagam comissões a agentes internacionais de recrutamento, e como resultado vêm atraindo parcela crescente dos estudantes internacionais. Agora, a prática está se expandindo aos Estados Unidos, especialmente nas faculdades de menor porte e nas universidades públicas, que estão sempre interessadas em atrair estudantes internacionais, já que estes pagam anuidades bem superiores às oferecidas aos estudantes locais. Muitas instituições que usam agentes, incluindo algumas pequenas faculdades religiosas privadas, não são muito conhecidas; sem os agentes de recrutamento, sua chance de atrair alunos de todo o mundo e diversificar seus campi é pequena.

Mas o uso de agentes vem suscitando questões incômodas e sentimentos fortes, e alguns funcionários do setor de educação se sentem desconfortáveis com um sistema no qual aqueles que assessoram os alunos em sua seleção de escolas têm interesse financeiro no resultado do processo, abordagem que, temem esses críticos, possa transformar o processo de admissão universitária em uma caçada mundial de recompensas.

"Pagar qualquer forma de comissão a agentes de recrutamento faz deles vendedores, pura e simplesmente", disse Barmak Nassirian, diretor executivo associado da Associação dos Funcionários de Admissão e Registro das Universidades Norte-Americanas.

Como a JJL, muitas empresas recebem honorários suculentos de ambas as partes ¿ os alunos que elas assessoram e as universidades com as quais têm contratos -, o que faz com que haja quem questione que interesses estão sendo atendidos pelo arranjo. Até mesmo alguns dos defensores dos agentes de recrutamento consideram que a profissão precisaria de um código de ética.

"Deveríamos estar fazendo esse trabalho, mas deveríamos fazê-lo da maneira certa", disse Mitch Leventhal, vice-diretor da Universidade de Cincinnati para assuntos internacionais, que tem contato com os agentes. "Não creio que seja certo que os estudantes devam pagar muito se o agente também está recebendo da universidade. Não creio que seja ético".

Os agentes variam de grandes empresas como a JLL a pequenas companhias familiares ¿ e de prestigiosos a nada confiáveis. Ninguém acompanha o número de agentes em operação, quantos deles recebem comissões das universidades e quantos alunos eles enviam aos Estados Unidos. Mas pessoas familiarizadas com o influxo de estudantes internacionais dizem que milhares de alunos, especialmente da Ásia, empregam agentes para intermediar seus contatos com instituições norte-americanas, especialmente pequenas faculdades com programas intensivos de inglês.

Alguns agentes obtêm a maior parte de sua receita das comissões pagas pelas universidades; outros só recebem dos alunos, e a universidade nem é informada de que um agente participou do processo. O Departamento de Estado norte-americano também opera centenas de escritórios em todo o mundo para aconselhar estudantes que desejem fazer cursos superiores nos Estados Unidos.

Muitas universidades vêem os contratos com os agentes internacionais como vantajosos para os dois lados, porque ajudam a gerar mais receita em forma de mensalidade do que custam em termos de comissões. Também consideram que estudantes estrangeiros interessam não só pelas suas contribuições à economia local como pelas pontes internacionais que ajudam a construir. O Ohio, onde muitas instituições têm contratos com agentes, recente adotou um plano estratégico para o ensino superior que defende especificamente um reforço das operações de recrutamento internacional.

Mas Nassirian argumenta que o processo prejudica alguns dos envolvidos. "Se existe um limite natural para nossa capacidade de absorver estudantes estrangeiros, será que não deveríamos pensar em atrair os melhores, e não os mais capazes de pagar?", diz.

Leventhal, da Universidade de Cincinatti, defende o uso de agentes, e sua mensagem é convincente. Este ano, ele conduziu representantes de diversas universidades em uma visita a agentes na China, Índia, Coréia do Sul e Vietnã.

Leventhal também defende um código de ética, baseado na prática australiana, sob o qual as universidades norte-americanas pagariam aos agentes de recrutamento uma comissão equivalente a 10% da primeira anuidade, desde o agente concordasse em cobrar taxas apenas simbólicas dos estudantes. Mas muitos educadores estão ambivalentes quanto à prática. Philip Altbach, diretor do Centro de Educação Superior Internacional do Boston College, disse que sua reação instintiva aos agentes é de aversão. "Há muitos picaretas nesse ramo", ele afirma. Mas ele admite que eles podem ajudar famílias em países distantes. "No mundo globalizado, muita gente precisa de orientação para chegar até aqui, e pode haver espaço para intermediários responsáveis", disse. "Mas ainda assim odeio a idéia".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
 
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